A paixão misteriosa

APL 946

A Maria era uma jovem que vivia numa pequena povoação encravada nas escarpas do Marão. Era uma rapariga tímida e recatada, não tendo assim muitas amizades, pois as únicas pessoas com quem ela ia falando eram da sua família. Os seus dias eram passados no campo a ajudar os pais.
Numa manhã, quando a Maria vinha do campo, viu um belo rapaz que passou por ali casualmente, e pelo qual se apaixonou de imediato.
Este rapaz era um jovem emigrante, que viera passar as suas férias de Verão a casa de uns parentes que ficava numa povoação próxima.
Quando a Maria descobriu qual a povoação em que os parentes do rapaz moravam, sem ninguém dar por ela, começou a ir espreita-lo, alimentando assim a sua paixão secreta.
Esta situação repetiu-se durante três anos, até que a Maria decidiu que era naquele ano que iria falar com ele. Mas num dia em que ela se deslocava para a povoação onde o rapaz estava, sofreu um acidente e morreu, sem nunca assim ter falado com o rapaz, nem sequer tão pouco saber o seu nome.
Vários anos decorreram após a sua morte, até que, numa noite quente de Verão, a Maria apareceu na povoação do rapaz onde havia um baile.
De repente o Henrique, o rapaz que a Maria sempre desejou, deparou com a Maria e como ele estava só e ela também, convidou-a para dançar.
Dançaram e conversaram durante algumas horas, até que a Maria se despediu dizendo que já era tarde e tinha de ir para casa. O Henrique prontamente se ofereceu para a levar. Como a noite já ia alta e uma brisa pairava no ar, o Henrique colocou o seu casaco pelos ombros da Maria.
Ao chegar a casa dela, despediram-se. No caminho de volta, ele lembrou-se que a Maria tinha ficado com o seu casaco, mas, como já era tarde, decidiu lá voltar no dia seguinte. Seria também mais uma oportunidade para a ver.
No dia seguinte lá foi ele a casa da Maria. Bateu à porta e da casa saiu uma senhora que lhe perguntou o que desejava. Foi quando Henrique lhe disse que ia buscar o casaco que tinha emprestado à Maria na noite anterior.
A senhora, espantada, respondeu ao jovem que a Maria tinha falecido há alguns anos. O Henrique não acreditou e insistiu, alegando que a tinha deixado na noite anterior ali e a tinha visto entrar em casa.
A senhora, para acabar o mal entendido, propôs levá-lo até ao cemitério, onde se encontrava a sepultura da filha.
Deslocaram-se ao cemitério e qual não foi o espanto de ambos ao verem um casaco em cima do túmulo da Maria, o que levou o Henrique a exclamar:
– Este é o meu casaco!
A mulher, quase sem palavras, apenas conseguiu dizer:
– Esta é a sepultura da minha Maria.

Fonte Biblio AA. VV., - Literatura Portuguesa de Tradição Oral s/l, Projecto Vercial - Univ. Trás -os-Montes e Alto Douro, 2003 , p.AP7

Ano2000

Place of collection-, VILA REAL, VILA REAL

ColectorCláudia Correia Pinto (F)

Narrativa

When XX Century, 90s

CrençaUnsure / Uncommitted

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