A pedra paula maria

APL 907

Junto da aldeia de Selhariz, também perto da estância termal de Vidago, encontra-se um penedo gigantesco, com um buraco ao centro, que a gente da terra liga a presença dos mouros.
 Vejamos, então, como o povo explica a existência do buraco no penedo e o nome da Pedra Paula Maria.
 Há muitos anos, no tempo da reconquista cristã, alguns mouros, fugindo a perseguição das tropas lusitanas, após uma mortífera batalha, foram parar aquele sítio ermo. E, julgando-o um lugar bonito e seguro, resolveram aí permanecer.
 Mas, para maior segurança, precisavam dum penedo muito grande, onde pudessem construir um refugio inexpugnável e onde pudessem caber todos.
 Naquele local, porém, não havia nenhum que satisfizesse as duas condições. Procuraram em volta e encontraram perto um, bem ao seu gosto e medida.
 Houve então, entre eles, acalorada discussão uns defendiam a ideia de se instalarem ali mesmo, por razões de segurança, outros puxavam para o lugar escolhido anteriormente, por motivos de simpatia. Para harmonizar os dois grupos e sanar a contenda, que ameaçava separa-los, o chefe do bando alvitrou:
 - E se levássemos o penedo para lá?
 Todos acharam a ideia brilhante. Mas como pô-la em prática se o penedo era tão pesado e impossível de rolar, pela configuração do terreno?
 Então uma moura corajosa e valente respondeu:
 - Levo-o eu sozinha se fordes capazes de mo pôr à cabeça.
 Entusiasmados com a proposta, embora um pouco cépticos quanto à sua execução, trataram de deitar mãos à obra, que não havia tempo para grandes demoras.
 E, enquanto os homens foram procurar troncos de carvalho para levantar a pedra, a moura foi arranjar “fentos” para fazer uma sogra, como os da terra chamam à rodilha.
 Depois, foi só levantar a pedra e colocá-la em cima da rodilha, na cabeça da moura. E aí vai ela, com aquele peso todo, como se nada fosse, em passos lentos, mas seguros, à vista dos mouros, de olhos esbugalhados, quase sem acreditar no que viam.
 Não demorou muito que a moura descarregasse aquela montanha de pedra no local escolhido e desejado. Agora era só arranjar maneira de se meterem lá dentro e pronto: estavam seguros.
 Para isso, abriram, ao centro, um buraco, por onde pudesse entrar uma pessoa e escavaram todo o interior.
 Terminado esse difícil trabalho, instalaram-se lá dentro com todos os seus haveres. Em seguida, taparam cuidadosamente o buraco da entrada que mantinham fechado durante o dia, para não serem descobertos, e abriam durante a noite, para passearam pelo monte e se abastecerem de água e de alimentos.
 Tudo parecia decorrer favoravelmente, até ao dia em que as pessoas deram pela mudança do penedo. Então, entraram a desconfiar que havia ali grande mistério e resolveram descobrir a verdade.
 Para isso, armaram-se de varapaus, enxadas, foices e gadanhas e, acompanhadas dos cães da aldeia, fizeram-se ao monte para porem tudo em pratos limpos.
 Ao chegarem perto do local, os cães começaram a ladrar furiosamente e desataram a correr em direcção ao penedo. As pessoas foram-lhes no encalço; mas, quando lá chegaram, já não viram nada: os cães tinham-se calado e sumido misteriosamente.
 Como a noite se aproximava, voltaram para a aldeia, calados, pensativos e cheios de interrogações.
 No dia seguinte, ao alvorecer, voltaram ao monte e descobriram, no cimo do penedo, um buraco que os mouros, por causa dos cães, não  puderam tapar como de costume. Então concluíram que os cães tinham sido roubados e silenciados pelos mouros. Não havia outra explicação.
 E, com receio de que lhes acontecesse o mesmo que aconteceu aos cães, resolveram deixar tudo como estava. Nem eles se aventuraram a abrir o penedo nem os mouros se aventuraram a voltar a sair dele, continuando a cumprir o seu fadário de viverem escondidos, a guardar os seus tesouros, para sempre.
 Os habitantes de Selhariz passaram a olhar para o penedo com orgulho e admiração e puseram-lhe o nome de Pedra Paula Maria, que era o nome da moura que o transportou à cabeça para aquele local.

Fonte Biblio FERREIRA, Joaquim Alves Lendas e Contos Infantis Vila Real, Edição do Autor, 1999 , p.45-47

Place of collection Selhariz, CHAVES, VILA REAL

Narrativa

When XX Century, 90s

CrençaUnsure / Uncommitted

Classifications