A ponte d’alcantra

APL 451

O imprêtêro foi prà fazer e apareê-l’um-damonho im fegura d’homa. Ele no sabia com’havi de fazer a ponte e o homa diz-l’assim:
 — Êlha, dá-me tu a tu’alma qu’ê faço-t’a ponte só nema noite. Lovamos pra lá um gal’amarelo e outro romão; Tu. cando cantar o aal’amarelo tu dizes: «Trabalh’à nic’e o martelo.»
 Ele assimfez, e foramnos diabretes todos a fazer a ponte. Cando foi à meia-noite, a ponte ia stando fêta. O homa atão todo se magoava por le ter prometid’a-i-alma e cantava só o gal’amarelo, porqu’im cantando o romão tinh’a su alma salva. À meia-noite, faltava só ma pedra e inda hõije stá sim ela e ninguém lá a pode pôr. Já la têam posto e tanto monta pôr-la como não, porque no sigura lá. O homa, muito apogantado proqu’inda no cantou o galo romão. Aparcê’l’um anjo.
 — Toma aquest’ovo e dêt’à a correr pla ponte adiente.
 Dêtou o ovo e cantou o galo romão, fecou o homa salvo e trou a-i-aima das mãs do damonho. E a ponte inda lá stá fêta pelos diabretes. Cando cantou o gaio romão dezia o homa:
 — Trabalha a marra e o martelão.
 Cando ele dixe isto, dêxéramnos diabretes de travalhar.

Fonte Biblio BUESCU, Maria Leonor Carvalhão Monsanto, Etnografia e Linguagem Lisboa, Editorial Presença, 1984 [1958] , p.136-137

Place of collection Monsanto, IDANHA-A-NOVA, CASTELO BRANCO

InformanteAntónia Zefa (F), Monsanto (IDANHA-A-NOVA) CASTELO BRANCO,

Narrativa

When XX Century, 50s

CrençaUnsure / Uncommitted

Classifications