A Princesa de França e o Pente de Ouro

APL 690

As Montanhas recortavam-se nas trevas da noite. Era uma noite azul, como tantas de essas noites luminosas da nossa terra, quando cá em baixo a treva é densa, e lá em cima se espalha no ceu uma luminosidade vaga de luz coada por crystaes de côres espessas.
 Estava-se em véspera de S. João. Pelas serras, pelo campo, iam e vinham em ranchos multidões de fachos acesos, que no negrume da noite lembravam ao longe constellações na terra. E que admirava que as estrellas descessem cá abaixo para festejarem o S. João! — se a cantiga mesmo o diz:

Toda a herva é santa
Na manhã de S. João

 Que admirava que as estrellas tivessem milagres de santidade? Não é a essas horas que as Mouras saem, á espera de quem as venha desencantar?
 Admiravel essa noite de S. João! Vinham da distancia cantos de alegria; evolavam-se dos jardins e dos campos os mais delicados perfumes.

*

 Junho risonho, em que o S. João tem festa, — eu, pela minha saudade franca dos tempos em que fazia capellinhas e lhes punha em cima a imagem
do Santo, entre folhas de hera e rosas brancas, sau-do-te e recordo-te.

*

 A cisterna do castello mourisco de Silves era grande como um lago. As paredes negras, que a fechavam em uma caixa de pedra grossa, erguiam-se pesadamente sobre as aguas. Via-se de lá o ceu mais luminoso, como do fundo de um poço, e na sombra, assim isolada, tinha o ar triste de um lago romantico, entre montanhas.
Naquella noite de S. João andava na cisterna um barco. Batiam na agua pausadarnente e ao de leve os remos, como pendulo velho a quebrar silencios em um grande salão. Cantava uma voz fresca de menina. Vinham de lá, subindo com a leveza de folha arrebatada pelo vento, os versos da canção com que a menina contava a sua historia.

— Sou filha de EI-Rei de França,
Neta de El-Rei de Hungria.
Aqui me trouxeram Mouros
Com a sua feitiçaria;
Encantada me deixaram,
Até vir quem me requeria
Se o cavalleiro quisesse,
Minha signa quebraria
Montava-me em seu cavalo,
A meu pae me levaria.

 Ora aconteceu que então por alli passava um cavalleiro. Chegou-lhe ao ouvido a toada mimosa da cantiga. Retesou a redea do cavallo, e escutou. Eram mais claras as palavras e mais limpida a voz. E o cavalleiro foi espreitar.
 No meio da cisterna viu o barco: vogava docemente no impulso dos remos, que uma menina, de vestidos brancos, manejava. Ao centro do barco estava outra menina, com vestido côr de salmão, a pentear com um pente de ouro e pedras, os cabellos louros, que na escuridão brilhavam ao reflexo vago e azul do firmamento.
 Sahia do barco uma nevoa dourada, que lhe dava a graça de um açafate de flores, no meio de uma bella mesa de marmore azul.
 Ficou-se o cavalleiro a contemplar o quadro com olhar de admirador de bellezas extraordinarias. A menina cantava, e a elle bailavam-lhe ao ouvido as phrases da canção.

Aqui me trouxeram Mouros
Com a sua feitiçaria.

 Eram duas mouras, não havia que vêr. Lembrou-se o cavaileiro de que estava em noite de S. João, a data em que as mouras encantadas saem dos esconderijos a procurar o desencantamento.
 — Eh! do barco, — oh! quem canta ahi? Seria graça tamanha em fallar-vos já? — interrogou o cavalleiro.
 — Bemvindo sejaes, cavalleiro, — respondeu a menina, que cantava.
 — Quem sois vós, que, a desbotas de estar aqui, vindes passear-vos e cantar?
 — Não ouvistes a minha cantiga?
 — Ouvi, sim, o vosso cantar. Mas quem sois?
 — Ouvireis melhor.
 — Não ouvi mais que fallardes em feitiçaria, encantos… “minha signa quebraria…”
 — E’ bem pouco! - disse ironicamente a remadora.
 — E’ mais do que o necessario, para desconfiar de quem sejaes. Que quereis?  Ao largo ouvia-se confusamente um côro de onde se recortava uma voz mais forte, á qual se percebia:

A noite de S. João
E’ na terra um grande dia;
Andam as mouras á solta,
Padre Nosso, Ave-Maria!
 
 Em resposta á pregunta do cavalleiro só ella respondeu, repetindo a canção, a fingir desprendimento.

Se o cavalleiro quisesse,
Minha signa quebraria!
 
 —  Que quereis dizer?
 — Quanto queiraes ouvir.
 — Quem é esse Rei de França, que dizeis vosso pae?
 — Ah! — exclamou a menina — então não ouvistes bem a minha canção, e quereis fallar-me de meu pae! Quem fosseis vós, preguntaria eu! Embora. Dir-vos-hei que meu pae é o Rei de França, e o de Hungria meu avô. — E contou como tinha sido enfeitiçada pelos Mouros e por elles roubada a seu pae, lá nos reinos de França; para alli a tinham trazido, e alli estaria até o dia em que um cavalleiro viesse e a arrebatasse de aquelle encantamento.
 Ao lado, ouvindo a conversa, a outra Moura penteava-se em silencio, O pente de ouro e joias brilhava no escuro, como um raio de luz perdida.
 — Levaes-me comvosco, senhor cavaileiro? — preguntou a Princêsa com o mais delicioso tom de voz.
 — E como quereis vós que vos leve, minha Princesa?
 — Na garupa do vosso cavallo.
 — E’ tão longe que o meu cavallo nos não pode levar a ambos!
 — Não tão longe como julgaes! A França. Não é tão longe que nos fique no caminho esse vosso cavallo branco. Andaremos dia e noite. Não será preciso muito tempo. Que cavallo é o vosso e que cavalleiro sois vós, que receaes o caminho, e não attendeis a Princêsa, encontrada em esta noite de S. João!
 Conseguiu a Princêsa encantada que o cavalleiro se convencesse a levá-la consigo a Paris. Muitas desculpas lhe apresentou elle, mas a bella moura, tanta doçúra imprimiu aos seus pedidos, tanta graça teve no seu apello ao coração do moço cavalleiro, que elle se decidiu.
 — Chegae o barco, — pediu elle, e o barco, de que ella era a remadora, approximou-se levemente, quasi sem ruído, e em breve a menina, vestida de branco, estava ao lado do cavalleiro, que lhe deu a mão para ella sahir da cisterna.
 — Adeus, companheira de martyrio, aqui te deixo sózinha, que o meu fadario acabou. O cavalleiro me quis e me leva a França, a casa de meu pae. Era a pena, que me tinham dado no meu encanto, e ella ahi está no fim, cumprida. Não te esquecerei, irmã da desgraça de tantos annos.
 Ao despedir-se da outra moura, que ficava no barco ainda, a cumprir o seu destino, a Princesa tinha lagrimas de ternura, aquellas lagrimas de quem parte e deixa atrás de si amizades e logares onde muito viveu. Da cisterna, envolta no reflexo azul da agua que reflectia o firmamento profundo, subiu um suspiro de dor. O pente de ouro deixou de brilhar.
 Subiu a Princêsa para a garupa do cavallo, e ahi vão os dois, das terras de Silves aos campos de França.

*

 Elles ahi vão pelos campas fora a toda a velocidade do cavallo. Cortam a ribeira de Valformoso. Deixam para trás as terras de Faro, onde ficam as ruinas da velha cidade romana de Ossónoba com paredes de pé, columnas de marmore ao alto. Passam os campos de Olhão de panoramas soberbos, pomares, hortas, jardins, em que se misturam as alfarrobeiras floridas, as nespereiras de maciesas e reflexos de velludo negro, os castanheiros de largas folhas de verde marinho, as amendoeiras gentis como donzellas, que se preparam para casar; ao fundo, o mar vem beijar a terra fecunda e bella... Passaram já a velha fortaleza de Tavira, cidade branca entre flores. Atravessaram o Guadiana, rio sereno como um lago, em frente de Castro Marim. Estão em Espanha.
 Approximam-se já de Sevilha. O Guadalquivir corre manso, contente de saborear o passeio entre collinas de oliveiras. A paisagem é suave, macia como um tapete de felpas gradas. De longe vê-se a torre da mesquita, a Giralda esbelta, e avulta na cidade o Alcazar com as suas torres, grande como uma fortaleza e cercada de altas muralhas, que era residencia magnífica da côrte dos Mouros. Passaram sem entrar em Sevilha, que foi a rainha da musica dos Arabes.
 Lá vão. Correm entre laranjaes, oliveiras enormes, planicies floridas. Em uma coluna solitaria, encontram o castello de Homachuchos; depois, sobre um rochedo ousado, viram o castello altaneiro de Almodovar, Palma no meio do jardim soberbo de seus laranjaes.
 Eis Cordova, a cidade lettrada dos Mouros, eden terreno, entre os rochedos da Serra Morena de precipicios negros, e a mansidão amena do Guadalquivir.
Era a perola do Occidente, a cidade das cidades, a Damasco das Espanhas, com as suas trinta mil mesquitas e nellas o maior templo do Islam, onde ardiam em honra do propheta as mil lampadas, feitas com o bronze dos sinos das cathedraes. Minaretes brancos a sobressahir dos laranjaes,  o Mihrab era o maior, grande como um capacete sobre a massa immensa da mesquita grande de Ald-en-Rhaman.
 No alto, dependurada num monte como o ninho de ave, a Princesa de França viu Medina Az Zehra, a mais bela residencia real dos Mouros, que um califa dedicara a sua linda mourinha, a mais formosa face de mulher que o mundo dos Mouros viu, e se chamava Az Zebra.
 Lá vão. Não entraram. O cavallo corre, corre a caminho de terras de França.
 Chegam á imperial Granada, com as torres e muralhas da Alhambra, o palacio extraordinario dos reis mouros, onde tudo é maravilhosa sequencia de salas, corredores, pateos, mosaicos no chão, as paredes bordadas como colchas de renda e damasco, os tectos, altos como um ceu, combinados de madeira de cedro, brancas, azues, douradas, a formarem estrellas e coroas. A’ volta da cidade, para a vêrem, formam linhas de curiosos espectadores, muitos milhares de pinheiros, carvalhos, choupos os cyprestes sobem do arvoredo, a lembrarem os dedos agudos que as arvores admiradas erguessem no ar. Laranjaes, mais laranjaes, e o Genil a encher a paisagem com a sua agua brilhante, lembrando uma faixa de prata, que esquecida sultana tivesse alli deixado naquelle jardim extraordinario. Em toda a volta se viam aldeias, muito brancas na planicie verde-escura; nas montanhas avistavam-se mesquitas famosas, villas reaes, torres guerreiras.
 E elles corriam para Murcia, Valencia, Tarragona, Barcelona, aos Pyreneos e lá entram na França desejada. Ahi, com que prazer cantou ella a sua canção!

Sou filha de El-Rei de França,
Neta de El-Rei de Hungria.
………………………………

 Chegaram á côrte do Rei de França, que ia morrendo de alegria, — o pobre pae! — ao ver a filha salva do encanto dos Mouros, com a sua feitiçaria.

 Era de admirar o traje dos dois. Ella vestia uma camisêta branca, levissima, aberta no peito até o seio e apertada no pescoço com botões de perolas; viam-se-lhe calções de sêda vermelha, largos, a fechar no tornozello por uma liga de trança de ouro. Elle envergava tunica branca, cingida ao de leve na cinta pelo talim da espada; cabido dos hombros, a todo o comprimento, estendia-se o manto com a cruz a vermelho sobre o branco do panno.
 Ante o Rei, seu pae, cantou ella a ultima vez, quando lhe explicou as suas desgraças por tão longes terras:

Aqui me trouxeram Mouros,
Com a sua feitiçaria;
Encantada me deixaram,
Até vir quem me requeria;

E ella alli estava sã e salva, porque lhe acontecera o que a cantiga dizia.

Se o cavalleiro quisesse,
Minha signa quebraria;
Montar-me-hia em seu cavallo,
A meu pae me levaria.

 — E a meu pae me trouxe ! — exclamou ella saltitante. — Quebrou-me a signa e aqui me tem, meu pae!
 Fez o Rei as mais bellas festas, que os seus subditos tinham visto. Excedeu-se em luxo e grandeza. Reinava alegria nos paços reaes. Só o cavalleiro, que levára a Princêsa, não ria nem gosava.

*

 Grandes tochas de cera, grossas como punhos, iluminavam, em anneis de ferro chumbados á parede, as salas do palacio onde EI-Rei de França festejava o regresso da filha. Havia regosijo na côrte. Era festa. E só o cavalleiro, que levára a Princêsa, não ria nem gosava, triste como o cypreste á beira do caminho.
 — Que tendes, cavalleiro, que tamanha tristeza vos vejo? — preguntou-lhe o Rei.
 Em resposta, o cavalleiro narrou-lhe o encontro que tivera com a Princêsa, naquella noite de S. João, em Silves, quando a ouviu cantar na cisterna do castello. Batiam na agua pausadamente e ao de leve os remos, como pendulo velho a quebrar silencios em um grande salão. No meio da cisterna viu um barco; vogava docemente no impulso dos remos, que uma menina de vestidos brancos empunhava. Era a Princêsa. Mas ao meio do barco estava outra menina, com vestido côr de salmão, a pentear, com pente de ouro finissimo e de pedras scintiliantes, os cabellos louros; estes na escuridão da noite brilhavam ao reflexo vago e azul do firmamento.
O cavalleiro, se levou ao Rei a Princêsa, mais preso ficou á formosura da outra menina. A filha do Rei, entregára-a elle já a seu pae. Faltava a outra, presa tambem ao mesmo destino. Nunca mais lhe sahira do pensamento; via-a em sonhos, como nuvem de poente, côr de salmão, o pente de ouro a brilhar sobre dia, com scintillações fulgurantes de Estrella-da-Tarde a subir no horizonte.
 — Real Senhor! Que tanto eu tenho pensado naquelle pente de ouro em luz! Só elle daria felicidade á minha noiva, que deixei em Portugal!
 Acerescentava que a moura lhe apparecia em sonhos, e lhe acenava com o pente a offerecer-lho, convidando-o a ir buscá-lo.
 — Deixae, Senhor, — implorava elle, — deixae que me volte ao meu reino; quando desencantar a outra moura, como desencantei vossa filha, só então terei alegria e sossego, e conseguirei dar de presente a minha noiva aquelle pente de ouro... a joia da felicidade de nós ambos.
 Consentiu o Rei no regresso do salvador da Princêsa, sua filha. Seria injusto, se o retivesse mais tempo no palacio real, só para o acumular de honras e presentes, que, para mais, lhe não davam alegria. Deixou-o pois voltar, não sem que lhe desse presentes. O brinde, que mais apreço teve, há o de um cavallo negro, de admirável esbelteza, e veloz como nenhum; tinha-o prompto á sua espera, á porta do palacio, no dia combinado para a partida, e o cavalleiro apossou-se de elle soffregamente, com o enthusiasmo de quem muito deseja alguma coisa e de repente a obtem na plena liberdade de a gosar.
 As despedidas foram affectuosas, especialmente da Princesa, que ficou chorando o seu salvador. E elle ahi vae, seguindo em sentido opposto o mesmo
caminho de um anno antes. A velocidade do cavallo o deixa reconhecer as regiões, que percorre. E’ um vendaval que passa. E, após umas semanas de corrida, atravessa o Guadiana e saúda sob as muralhas de Castro Marim o pendão dos Templarios, içado na Torre de Menagem do castello.

*

 Faz um anno precisamente. Está-se tambem na
velha e bella cidade de Silves. E’ noite de S. João. Na cisterna do castello balouçava-se ao pallor das estrellas o barco. A moura do anuo anterior lá estava, ella só, calada e triste, a pentear os cabeltos aurifulgentes com o pente de ouro e joias.
 Ouve-se o tropear de um cavalo nas lages da calçada; o cavalleiro, o mesmo da mesma noite de um anno antes, surge á beira da cisterna e vê a moura. Um reflexo roseo envolvia o barco. Com o sentimento de quem consegue finalmente o objecto de tantos sonhos, o cavalleiro não fallava; concentrara-se-lhe rios olhos toda a vida. Foi a moura quem primeiro fallou.
 — Que quereis de mim? — preguntou-lhe.
 — Quero desencantar-vos e que me deis como recompensa o pente, com que vos servis? — respondeu elle commovidamente e com receio.
 — Para que o quereis?
 — Para o dar de presente de felicidade á minha noiva.
 — Aceito o offerecimento e o pedido, que me fizestes. Mas com duas condições. A primeira é de não ser este o pente, que vos hei-de dar: morreria, se o désse; dou-vos outro, ainda mais lindo e mais rico; e não receeis da troca, porque tem como este as mesmas virtudes magicas. A segunda condição é executardes á risca tudo quanto vos disser. Aceitaes as condições?
 — Juro-vos, a fé de quem sou, que farei quanto me ordenardes, — affirmou com segurança e decisão o cavaleiro.
 — Então attentae bem no que vou dizer-vos.
 — Escuto-vos com toda a attenção.
A moura ensinou-lhe o que havia de fazer, para a desencantar. Antes do nascer do sol, o cavalleiro deveria procurar detrás da cisterna a junta de bois, que lá encontraria ao pé de um arado, pegaria nos bois e no arado e levava-os ao sitio, em que elle estava alli a ouvi-la; desde esse lugar abria dois sulcos em linha recta, que iriam até a estrada. Appareceria uma argola, chumbada a um alçapão. Elle não abria o alçapão. Apenas visse a argola, ia chamar a moura, que o acompanharia.
— O alçapão dá para um subterraneo,— explicava ella,— que leva á Mourana, onde eu tenho os meus paes.
 E acrescentava que, apenas tivesse posto os pés no terceiro degrau, quebrar-se-hia o encanto, e ella dava-lhe então, ao cavalleiro, o pente que lhe elle pedira, e muitas riquezas que lhe queria ella dar.
 — Comprehendestes bem o que vos pedi?
 — Cumprirei á risca tudo que me dissestes.
 — Não vos descuideis. Procurae bem a argola. Toda a attenção é pouca. — Ella implorava mais do que ordenava.
 — Serei cuidadoso, sossegae.

*

 A madrugada estava serena. Corria a brisa, aromatizada pelos goivos e pelas rosas dos jardins, uma brisa leve, como a respiração de creança adormecida. Pairava sobre as coisas de indefinidos contornos aquella vaga claridade, fria e opaca, de lampadario foscado. Era um dealbar soberbo.
 O cavalleiro dirigiu-se apressadamente ao sitio combinado; antes de chegar lá, olhou résvés do muro para trás da cisterna, e avistou os vultos negros dos dois bois. Foi-se a elles, jungiu-os ao arado, e partiu ao longo da cisterna para o lugar de onde havia de dar principio aos sulcos na terra. Tinha-o marcado bem, quando a moura lhe disse que no lugar, em que elle lhe falava, deveria começar os dois sulcos exigidos. Apontou á estada, querendo orientar o sulco, ergueu o punho da rabiça do arado, e elle ahi vae a fallar aos bois, animando-os, a dirigi-los a direito.
 O primeiro sulco que enregou, foi até o fim sem novidade. Tambem ia acabar bem o segundo, quando de subito saltou na frente dos seus bois um pente de ouro, lindo como ele ainda não tinha visto outro e a que nem o da moura egualava. Ao vê-lo, o cavalleiro correu a apanhá-lo. Abaixou-se. Ouviu então um suspiro de tamanho sentimento que se ergueu, sem levantar o pente, e ficou surprehendido por não vêr os bois nem o arado; procurou o pente, desapparecera tambem. Estava tudo perdido. Entrou uma onda de amargura naquella alma, que viu desfazerem-se todas as suas esperanças de felicidade com a noiva idolatrada. Pesaroso, arrastou-se até a cisterna, sentando-se por fim á beira de ella, onde adormaceu.
 Que sonhou, se sabe. Quando acordou, era dia; o sol aquecia já o ar. O cavalo, preso a uma arvore ali perto de elle, estava impaciente, escarvava a terra e relinchava. Então o cavalleiro ergueu-se, montou o cavallo, aquelle belo cavalo que o Rei de França lhe dera como galardão, e foi-se para casa com a desolação na alma.


 Na calma silenciosa da noite immediata, o cavalleiro olhava do mirante de sua casa os campos em redor. Resplandecia a paisagem no manto do luar.
 O cavaleiro, pensativo, revia os successos da noite anterior. O pente, aquelle pente magico, destruiu-lhe a alegria, que antecipadamente ele gosára, contando com a posse da joia desejada. Tanto a queria, tanto a sonhava, para a entregar, como penhor da felicidade certa, á noiva, que elle agora receava desgraçar!
 Depois de um dia quente, a suavidade refrigerante da noite penetra os sentidos e adormece-os. Além de isso, o cavalleiro tinha tido grande canseira na noite anterior, e assim, àquella hora, no mirante de casa, cahiu em modorrenta somnolencia.
 Subitamente, ouve o bater de asas de uma pomba errante. O silencio da noite era contado por um ou outro cão, que ladrava nas cercanias; piavam onde adormeceu aqui e além as aves agachadas nos ninhos. Fez sensação o ruflar de asas. O cavalleiro acordou da modorra, em que mergulhára, e procurou saber que ruido de asas era aquelle, quando víu uma linda pomba, tão branca ao luar que lembrava um floco de nuvem a cahir para a terra.
 A pomba dirigia-se a elle. Via-lhe no bico um volumezito pendente, que não descortinava. A ave desceu-lhe no ombro, nervosa tanto do cansaço de voar como do esforço de cumprir o seu recado. Do pescoço pendia-lhe por um laço azul-celeste o pente de ouro, que lhe tinha saltado aos pés nessa madrugada, para logo lhe desapparecer. Era um lindo pente de ouro, constellado de joias variadas a rebrilharem como estrellas na noite cheia de luar, que era uma grande taça de crystal trasbordante, de luz.
 Segurou a pomba, e desprendeu-lhe a generosa dadiva, por tão extraordinario modo enviada. Cobriu de beijos a pomba e o pente. Enlouquecia de prazer, quando se julgava sucumbido pela dôr. Lembrou-se da moura. Estava como a creança, quando depois de lho negarem lhe dão o brinquedo, que acabàra de vêr no seu passeio.
 Sem saber de onde, mas parecendo-lhe que vinha do ar, de labios invisiveis, descida das estrellas em vozes de luz, ouviu cantar.

Lá pela noite adeante,
Um lindo cantar se ouvia.
Deitou os olhos ao lago,
Viu lá estar uma donzella,
Penteando o seu cabello
Em cisterna de agua fria.

 Não havia que ver, era a moura. Enviava-lhe o pente promettido. Cumpria a palavra dada. Emquanto o cavalleiro apertava contra o peito aquelle pente, que ia ser a felicidade para a noiva, que o esperava da bocca de elle, a pomba desappareceu, sem o dar a perceber. Escutava elle a canção da moura, e, ao procurar a pomba para lhe dar o ultimo beijo, que levasse em mensagem de agradecimento á moura gentilissima, já a não viu. Levantára o vôo.
 Balouçaram-se as ultimas palavras ainda, no ar embalsamado e luminoso.

Em cisterna de agua fria.
 
Com os olhos rasos de lagrimas de gratidão e ventura, ficou-se de pé, deante da lua, a estreitar mais contra o peito a joia, que a moura lhe enviára.
 — E’ meu! — suspirava elle, e, olhando-o á luz do luar, como quem observa a veracidade e perfeição de um brilhante, dizia — E’ um thesouro!

Fonte Biblio CHAVES, Luis Lendas de Portugal: Contos de Mouras Encantadas Lisboa, Livraria Universal, 1924 , p.116-135

Place of collection Silves, SILVES, FARO

Narrativa

When XX Century, 20s

CrençaUnsure / Uncommitted

Classifications