A Rocha do Lombo Gordo ou Ponta da Árvore Formosa

APL 1277

Há muitos anos atrás, lá pelo século quinze saía do reino uma nau, devidamente equipada em busca de novas terras o comandante era um homem prudente e sabedor do seu ofício, mas fazia-se acompanhar por marinheiros ambiciosos, dos quais se destacava, na sede de riqueza, o seu filho mais velho. Alimentando a imaginação em histórias que lhe haviam sido contadas acerca de ilhas ricas em tesouros fantásticos, o desempenado e forte jovem prestava pouca atenção aos conselhos sensatos do pai. Afirmava que havia de voltar rico, mesmo que para tal tivesse de vender a alma ao diabo.
 Navegaram longos dias e sofreram algumas tempestades. Depois de se debaterem com uma terrível maresia, desviaram-se da rota traçada e, ao amanhecer, a nuvem escura que se acumulava à proa da embarcação começou a desfazer-se, surgindo em seu lugar um alto monte revestido de densa vegetação. 
 Gerou-se á bordo alguma confusão, até que se chegou a acordo de que um pequeno escaler seria lançado ao mar para ir fazer as primeiras explorações.
 A bordo iam alguns marinheiros e o filho do capitão que caminhavam em direcção a terra, embriagados pela esperança de encontrarem a riqueza tão sonhada. O primeiro a entrar na ilha foi o ambicioso filho do capitão que logo começou a brandir a espada e a gritar, como se estivesse endemoniado, que aquela terra era sua. Os restantes marinheiros estranharam tal atitude e dispuseram-se a explorar o interior da ilha, tal como o capitão tinha decidido. Mas o jovem, como possesso ameaçou-os de morte se se atrevessem a explorar a ilha. Quando se retiravam para bordo do escaler, ouviram uma voz misteriosa que vinha do alto do monte e dizia:
 — Quem me tocar será imensamente rico! 
 Não podiam acreditar no que os seus olhos viam. A voz vinha de uma riquíssima árvore que tinha flores e frutos em ouro maciço e resplandecia lá no cimo do monte.
 Desorientado, o moço começou a trepar a difícil penedia segurando-se nas urzes rasteiras que abundavam. Os olhos esbugalhados de medo dos outros marinheiros seguiam-no. Estava quase a atingir a árvore cobiçada quando, de repente, numa escarpada mais difícil, não conseguiu equilibrar-se, despenhando-se no abismo.
 Os outros marinheiros correram para socorrer o rapaz, mas o seu corpo tinha desaparecido num grande buraco de onde saíam fumarolas e cheiro de enxofre.
 Voltaram para a caravela e só depois de recuperarem a calma é que conseguiram explorar o interior da ilha. A esse lugar, onde se deu este estranho acontecimento e hoje também chamado de Ponta do Lombo Gordo, passaram a chamar Ponta da Árvore Formosa.

Fonte Biblio FURTADO-BRUM, Ângela Açores: Lendas e outras histórias Ponta Delgada, Ribeiro & Caravana editores, 1999 , p.101-102

Place of collection-, NORDESTE, ILHA DE SÃO MIGUEL (AÇORES)

Narrativa

When XV Century,

CrençaUnsure / Uncommitted

Classifications