A Senhora da Candosa

APL 3489

No tempo em que os Mouros andavam por estas terras, vivia nas Várzeas um mouro convertido ao cristianismo. A sua vida de abundância e tranquilidade atraiu a inveja de outros mouros, que tentaram todos os meios para se apoderar destas terras.
    Não o conseguindo pelas armas, tomaram a decisão de o afogar, alagando a região. Mobilizaram toda a população das terras situadas até 20 léguas em redor. Do amanhecer ao pôr do Sol trabalhavam, sem parar, para tapar o rio no buraco do Cabril. As águas foram desviadas para a encosta mais sólida, e enormes pedras, deixadas de lado para as tapar quando a muralha tivesse já atingido boa altura. Enquanto os homens faziam o trabalho das paredes, as mulheres e as crianças acarretavam cestas de terra dos montes vizinhos para taparem bem as frestas entre as pedras.
    Quando já faltava pouco para o trabalho estar conduído, uma manhã o mouro chegou para recomeçar o trabalho e viu a parede destruída. Sem perceber o que poderia ter acontecido, voltou ao trabalho e reconstruiu a barragem. Trabalhou-se durante cerca de um mês.
    Certa noite, o mouro teve um sonho em que via o paredão destruído de novo. Acordou sobressaltado e foi ver. Era verdade! A muralha desaparecera.
    Voltou tudo ao início, com cuidados redobrados.
    Certa noite, estava a obra quase pronta, teve outro sonho no qual via uma Senhora, num burrinho, em cima da muralha, com um capuz na cabeça. Conforme o burrinho ia andando, as pedras desapareciam e a muralha desmoronava-se.
    Acordou de repente e correu para a muralha. Lá estava a Senhora do sonho, em cima do burro. Conforme ia andando, estendia as mãos, e as pedras desapareciam no fundo do vale.
    Tentou correr para a Senhora, mas não se mexeu, Os pés não saíam do sítio e os braços não se erguiam.
    E a Senhora lá ia... toque-toque!, no seu burrinho, cujas patas ficavam gravadas na rocha, onde ainda hoje se podem ver.
    Assim que conseguiu mexer-se, procurou os vigilantes, que lhe contaram que uma Senhora muito linda e resplandecente havia libertado os prisioneiros e partira no seu burrinho.
    Mas o mouro era teimoso e voltou ao trabalho. Sempre que a obra estava quase pronta, lá vinha a Senhora do capucho, e zás...! ia tudo abaixo.
    Por fim, o mouro compreendeu que nada conseguiria fazer e foi ter com o mouro que queria destruir e pediu-lhe tréguas, já que tão bem estava protegido por Deus. Converteu-se e, em conjunto, construíram, no alto do cerro da Candosa, uma capela.

Fonte Biblio FRAZÃO, Fernanda Passinhos de Nossa Senhora - Lendário Mariano Lisboa, Apenas Livros, 2006 , p.47-48

Place of collection Candosa, TÁBUA, COIMBRA

ColectorMatos Cruz (M)

Narrativa

When

CrençaUnsure / Uncommitted

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