A tesoura da moura

APL 3709

Certo dia um homem regressava do trabalho no campo e, ao passar junto à “Fonte Fria”, em Lebução, viu uma grande cobra que tinha corpo de mulher da cintura para cima. Era uma moura que estava ali encantada há muito tempo.
    Ela meteu então conversa com o homem, e este, cheio de medo, lá lhe foi respondendo ao que lhe era perguntado, acabando a moura por ficar a saber tudo sobre a sua vida. No fim, quando ele estava para se ir embora, a moura lança-lhe aos pés um tapete de figos, e diz-lhe:
    — Come os que quiseres.
    — Se mos dás, levo uma meia dúzia p’ra casa — diz-lhe o homem.
    Meteu os figos ao bolso e seguiu caminho. Ao chegar a casa, contou à mulher o que lhe tinha acontecido. E quando ia a meter a mão ao bolso para lhe dar os figos que trazia, qual não é o seu espanto, pois, em vez dos seis figos, tinha lá seis moedas de ouro.
    A mulher pôs-se logo a ralhar com ele por só ter trazido seis figos e ter lá deixado os outros. E obrigou-o a voltar lá, a ver se os trazia, O homem, embora contrariado, foi. Quando chegou de novo à “Fonte Fria”, ficou descoroçoado pois já lá não viu figo nenhum. Mas logo lhe apareceu novamente a cobra, que lhe estendeu um açafate de costura, dizendo-lhe:
    — Escolhe o que quiseres.
    O homem olhou logo para uma tesoura com cabos de ouro e cheia de pedras preciosas, e não hesitou. Pegou nela e levou-a. Mais adiante, a caminho de casa, escorregou numa pedra, espetou a tesoura no peito e morreu. Diz o povo que estas desgraças acontecem sempre que os encontros com mouras não são mantidos em segredo.

Fonte Biblio PARAFITA, Alexandre A Mitologia dos Mouros: Lendas, Mitos, Serpentes, Tesouros Vila Nova de Gaia, Gailivro, 2006 , p.336-337

Ano1999

Place of collection Lebução, VALPAÇOS, VILA REAL

InformanteMaria da Graça Gomes (F), 54 y.o.,

Narrativa

When XX Century,

CrençaUnsure / Uncommitted

Classifications