A Torre dos Namorados

APL 678

Escondidos em lugar de difícil acesso, existem na Serra das Casinhas, ignorados das próprias populações da Beira Baixa, restos de uma povoação que de longe se chama Covilhã Velha.
 O facto seria de somenos interesse, se não tivesse a celebrizá-lo a lenda (1) que em seguida registo, referente a ruínas de obras de nomeada: uma torre e um tanque (este que, pelos séculos dos séculos, ficou a chamar-se Tanque dos Mouros) construídos nos recuados tempos do domínio mourisco.
 Governava na região chefe ou alcaide que, a par do seu poderio, se ufanava da sua única filha, de rara beleza.
 Dois nobres cavaleiros, que muito o tinham auxiliado nas guerras em que se empenhara, ambicionavam o casamento com a moça, e ambos a pediram em casamento a seu pai.
 Reconhecido aos dois pelos seus auxilio e amizade, e não desejando estabelecer preferência, procurou em vão convencê-los a desistirem ou cederem um a favor do outro das suas pretensões.
 Pensando e tornando a pensar na maneira de sair de tão grande dificuldade, o alcaide resolveu ouvir o chefe religioso, o alfaqui (2) que alvitrou que os dois pretendentes fossem incumbidos da realização de duas obras de igual valor e responsabilidade, devendo ser preferido no casamento o que primeiro acabasse a que lhe coubesse em sorte.
 As obras seriam a construção de uma torre que dominasse os arredores, e um tanque de pedra e respectivo aqueduto que conduzisse a água da Ribeira do Anascer, pela serra da Presa, próximo da povoação de Casteleiro (3).
 Os pretendentes concordaram, e, lançando-se na realização das obras que lhes couberam com todos os elementos de que podiam dispor, veio a verificar-se, certo dia, caso extraordinário, que o que construíra a torre, subindo ao cume, de lá gritou: — Acabo de pôr a última pedra. Está concluida a obra!
 No mesmo momento, ouvia-se outra voz: — A água está já a cair no tanque! E a multidão boquiaberta, comentou: — Nenhum ganhou e nenhum perdeu!
 A rivalidade dos pretendentes mantinha-se continuando ambos a reclamar para sua noiva a filha do alcaide. Este, não encontrando solução para o caso, imitando Salomão, entregou-a para que a partissem ao meio!
 A donzela logo que teve conhecimento da decisão do pai, fugiu, e aos gritos do povo: Mata! Mata!, foi morta no local que, pelos séculos dos séculos, ficou a chamar-se, e ainda hoje se chama, Mata da Rainha!

(1) Publicou-a dando-lhe a forma literária José Germano da Cunha, em 1866, sob o titulo A Torre dos Namorados, com um preâmbulo histórico sobre a invasão dos Árabes nas Espanhas.
(2) Legista e sacerdote
(3) Memórias Paroquiais de 1758, tomo IX, pág. 1356.

Fonte Biblio DIAS, Jaime Lopes Contos e Lendas da Beira Coimbra, Alma Azul, 2002 , p.115-117

Place of collection-, COVILHÃ, CASTELO BRANCO

Narrativa

When XX Century, 50s

CrençaUnsure / Uncommitted

Classifications