A velha “Fialheira”

APL 1360

Havia uma velha na Fajã dos Bodes (ou na Fajã de Lá, como dizem os da Fajã dos Vimes) a quem chamavam “Fialheira”. Era muito boa pessoa e gostava de dar os seus conselhos. Um dia, corria o ano de mil setecentos cinquenta e sete, ela estava em casa ao pé do lar a cozer bolo e apareceu-lhe um mulher desconhecida, que lhe disse:
 — Vai dizer a toda a gente que vai haver um castigo, se não se emendarem e deixarem de ser tão vaidosos e invejosos.
 A tia “Fialheira” não queria dizer que não porque acreditou no que a mulher lhe disse, mas tinha um bolo no tijolo e não queria que se queimasse. Era pobre, não tinha muita farinha nem outra coisa para cear.
 A mulher jovem, de olhos doces e serenos, adivinhando os seus receios, disse que fosse sem cuidado pois ficava virando o bolo.
 A tia “Fialheira” foi. Bateu em algumas casas, encontrou pessoas pelo caminho e a todos avisou do que poderia acontecer se não se arrependessem e emendassem. As pessoas riram e fizeram pouco, dizendo:
 — Ora! A velha “Fialheira” a adivinhar…
 A velhinha voltou a casa triste. A mulher tinha desaparecido, mas, sobre a pedra que servia de tijolo, o bolo lá estava, rosado e tão macio que se podia dar um nó com ele.
 A velhinha continuou a rezar e as pessoas continuaram más como eram.
 Passaram sete dias, e, no sábado seguinte, à noitinha quando a tia “Fialheira” cozia o bolo e rezava as suas contas, a desconhecida abriu a porta e pediu-lhe para voltar a ir aconselhar todas as pessoas do lugar. A velha cobriu-se com iam xaile e foi. Pelos caminhos dizia a todos:
 — Vocês não se arrependeram, mas saiam da Fajã que esta noite vai vir um grande castigo!
 Mais uma vez não a acreditaram nem tomaram qualquer cuidado. A velha “Fialheira” nada mais podia fazer e, apoiando-se num bordão de incenso e na mão da mulher desconhecida, subiu a serra ao anoitecer.
 Nessa noite houve um grande terramoto. Os montes desabaram sobre a Fajã dos Vimes e dos Bodes, soterrando as casas e as pessoas. A igreja ficou quase toda destruída e, no meio do adro, os cadáveres jaziam meio enterrados. Durante muitos dias ouviu-se cantar os galos debaixo da terra e pedras amontoadas assim como gemidos aflitivos e cada vez mais fracos.
 Mas a velha “Fialheira” não morreu. Na manhã seguinte caminhou pelas canadas, segurando-se ao seu bordão de incenso, e contava tudo o que se tinha passado. Também a sua casa ficou a salvo, embora tudo à volta estivesse destruído.
 O terror e a destruição pouco a pouco foram esquecendo, como esquecem todas as alegrias e tristezas da vida. Enquanto a Fajã dos Vimes e a dos Bodes começavam a verdejar novamente, a tia “Fialheira” continuava a cozer o seu bolo e a rezar. Muitas vezes dizia:
 — Só a minha casa resistiu ao terramoto por vontade de Deus e, se algum dia mexerem nestas quatro paredes, virá outro castigo.
 Os anos passaram, a velha “Fialheira” morreu. Mas por volta de mil novecentos e oitenta, um parente afastado da velhota começou a reconstruir a casa. O castigo veio, como dizia a velha e santa “Fialheira”: deu-se novamente um grande terramoto que destruiu muitas freguesias da ilha de S. Jorge e isolou várias Fajãs de entre as quais a Fajã dos Vimes e a dos Bodes.

Fonte Biblio FURTADO-BRUM, Ângela Açores: Lendas e outras histórias Ponta Delgada, Ribeiro & Caravana editores, 1999 , p.196-197

Place of collection Calheta, CALHETA DE SÃO JORGE, ILHA DE SÃO JORGE (AÇORES)

Narrativa

When1757

CrençaUnsure / Uncommitted

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