Alenquer

APL 1483

 Nos fins de abril de 1148, poz D. Affonso I cêrco a Alemquer, que os mouros defendiam obstinadamente. Durava o cêrco havia dois mezes, quando na manhã de S. João Baptista, pilhando o rei portuguez os arabes intertidos a banharem-se no rio, investe inopinadamente a villa e a toma de assalto.
Mas, como n’aquelle tempo tudo eram milagres, inventaram os patranheiros o seguinte, que ainda existe como tradição, mas com tres differentes versões:
 1ª versão – Que quando o mouros sairam a banhar-se, deixaram a villa entregue a um cão pardo (!)
Que este saira logo atraz d’elles e fôra direitinho a D. Affonso I, fazendo-lhe muita festa (com o rabo e traquinada com as orelhas) o que o rei tomou por bom agouro, e disse: Alão quer! (O tal historico canzarrõo, que tanto tem dado que fallar, era da raça dos chamados alões.) e zás! investe a praça e toma-a de assalto!
Haverá alguem de juizo que acredite similhante disparate? Então os mouros iam todos refrescar-se, e tendo a praça cercada por os christãos, deixavam-a entregue a um cão, e, demais a mais, com a porta aberta, para elle poder sair cada vez e hora que quizesse, como effectivamente fez? Mas, se o cão saiu, ficou a praça sem guarnição nenhuma, e então D. Affonso I não à investiu nem tomou de assalto. Achou a porta aberta e entrou muito facilmente por ali dentro, usando do privilegio de cão!
2ª versão – Estando o rei a olhar para as muralhas, o alão chegou a cima da porta, com a chave d’ella na boca e a atirou ao rei, que não fez ceremonia e entrou dizendo: alão quer! (Devemos confessar que os arabes de Alemquer sempre arranjaram um alcaide-mór!...)
3ª versão – O cão saiu da praça com a chave na boca, e a foi entregar ao rei! Cada vez entendo isto menos! Se a porta estava fechada, por onde saiu o cão? e se estava aberta, que obsequio fazia o cão ao rei em trazer a chave?
Eis aqui a patranha em que se fundam os que dizem que o actual nome d’esta villa são as palavras proferidas por D. Affonso Henriques: Alão quer. O que admira é auctores serios tratarem d’isto seriamente. 
Deu provavelmente causa a este conto da carochinha o ter a villa por armas um cão pardo em campo de prata; mas, se alludisse á tal patranha., devia estar solto e com a chave na boca, quando elle está preso a uma arvore, com um grilhão de ouro ao pescoço.
Os alanos tinham nas suas bandeiras a figura de um gato; mas como estavam tão atrazados em bellas-artes, póde ser que os seus successores cuidassem que era um cão o seu emblema nacional, e o adoptaram.

Fonte Biblio PINHO LEAL, Augusto Soares d'Azevedo Barbosa de Portugal Antigo e Moderno Lisboa, Livraria Editora Tavares Cardoso & Irmão, 2006 [1873] , p.tomo I, p. 94

Place of collection Alenquer (Santo Estêvão), ALENQUER, LISBOA

Narrativa

When1148

CrençaUnsure / Uncommitted

Classifications