Almourol (2)

APL 1487

Era dono do castello, em tempos antigos (ahi pelos seculos IX ou X), um senhor godo, chamado D. Ramiro, casado, e tendo uma filha unica.
Era um valoroso soldado, mas rude, orgulhoso e cruel, como eram a maior parte dos senhores de sangue gothico.
D. Ramiro partira para combater os moiros, deixando inconsolaveis sua esposa e filha, ambas muito formosas.
Tendo comettido mil atrocidades durante a campanha, voltava, orgulhoso de seus feitos, quando, proximo do castello, encontrou duas moiras, mãe e filha, ambas tão lindas como a esposa e filha que deixára em seu solar.
A filha trazia uma bilha com agua, e como D. Ramiro estava devorado pela sede, dirigiu-se a ella, pedindo-lhe de beber; a pequena moira assustou-se e deixou cahir a bilha, que se quebrou.
D. Ramiro, cego pela raiva, enristou a lança, e feriu as duas desgraçadas, que morreram logo, amaldiçoando-o.
N’este momento, appareceu um pequeno moiro de 11 annos, filho e irmão das assassinadas, e o cavalleiro trouxe-o captivo para o seu castello.
O moiro, chegando a Almourol, viu a mulher e a filha de D. Ramiro, e jurou logo que seriam ellas as victimas da sua vingança.
Passaram annos. A esposa do castellão cahiu doente, e, pouco a pouco, se foi definhando, até que morreu, em resultado de um veneno subtil que o moiro lhe propinára.
D. Ramiro, cheio de desgostos, voltou a combater os infieis, deixando no seu solar a filha, em companhia de novo pagem.
Amaram-se os dois, e esta paixão foi uma terrivel lucta para o coração do mancebo.
Uma tarde de verão, chegou ao castello D. Rodrigo [sic], acompanhado por um outro castellão, a quem promettera a mão de sua filha.
Foi um golpe fatal para os dois amantes, que se estremeceriam.
O moiro, então, allucinado e perdido, contou tudo a Beatriz, as crueldades do pae, os protestos de vingança, que lhe referviam no peito, a morte da mãe, e a lucta que se travára entre o seu amor e o juramento que fizera.
Não se sabe o que se seguiu a esta confissão; o que diz entretanto a lenda é que Beatriz e o moiro desappareceram, sem que mais houvesse noticias d’elles, e que D. Ramiro, cheio de remorsos e desgostos, morreu, pouco depois, ficando o castello abandonado, e cahindo, pouco a pouco, em ruinas.
A lenda diz mais que, em a noite de S. João, apparecem na torre mais alta do castello, o moiro abraçado a Beatriz, D. Ramiro rojando-se-lhe aos pés e a mulher junto d’elle, implorando clemencia, sempre que o moiro solta a palavra – maldição!

Fonte Biblio PINHO LEAL, Augusto Soares d'Azevedo Barbosa de Portugal Antigo e Moderno Lisboa, Livraria Editora Tavares Cardoso & Irmão, 2006 [1873] , p.tomo I, p. 156

Place of collection Tancos, VILA NOVA DA BARQUINHA, SANTARÉM

Narrativa

When X Century,

CrençaUnsure / Uncommitted

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