[Aparição da Moura do Castelo de Salir]

APL 3792

Haverá uns cinquenta anos morava meu pai em Martim Enes, no ponto mais elevado e descoberto do sítio de onde se avista os muros do Castelo.
    Foi meu pai à feira da Guia vender uma junta de novilhas no intuito de comprar um bocado de terreno que pegava com o seu monte de residência. O que vou contar passou-se há cinquenta anos.
    Vendeu meu pai as novilhas e saiu da feira meia tarde. Demorou-se mais do que devia pelo caminho e quando chegou ao sítio era noite escura e chovia rijo. Os trovões e relâmpagos eram tantos que a noite parecia um inferno. A vinte metros distante da morada olhou em direcção do povo e viu sobre os muros um vulto de mulher com um archote aceso na mão. A luz que irradiava era azulada e deitava um fedor a enxofre que tresandava. Meu pai entrou em casa pálido como um defunto. Contou a minha mãe o que vira e ambos fecharam à pressa a porta da rua. Nesse tempo já eu tinha casado e morava na Penina. Quando minha mãe me contou esta história, dois dias depois ainda tremia de medo.
    — Talvez seu pai tivesse bebido algumas pingas a mais...    
    — Meu pai só bebia água, e, como sabe, a água não tira o juízo a ninguém.

Fonte Biblio OLIVEIRA, Francisco Xavier d'Ataíde As Mouras Encantadas e os Encantamentos do Algarve Loulé, Notícias de Loulé, 1996 [1898] , p.116 e 119, cap. VII

Place of collection Salir, LOULÉ, FARO

Narrativa

When XX Century, 90s

CrençaSome Belief

Classifications