As bruxas na Quinta do Rato

APL 770

O meu avô nasceu numa quinta que está hoje abandonada ali adiante. Chamam-lhe a Quinta do Rato. E viveu lá com a avó dele, que se chamava Vitória.
 Nesse tempo, para não se gastar tanta lenha, havia um forno aqui no povo onde se juntavam quatro ou cinco famílias a cozer o pão em conjunto. Faziam assim: a uma determinada hora da noite, e era com a cantadela dos galos que as pessoas sabiam as horas, a forneira ia aquecer o forno. E quando ela ia fazer esse serviço, passava pelas casas das pessoas que tinham pão para cozer e dizia em voz alta:
 — Aqueçam a água e amassem!
 Eu próprio, ainda me lembra de ouvir essa voz a altas horas da noite.
 As pessoas então, enquanto a forneira aquecia o forno, tinham o tempo certo para acenderem o lume, aquecerem a água e amassarem o pão, que depois levavam ao forno.
 Ora, a avó do meu avô, numa certa noite em que estava com essa ideia de amassar, ouviu uma voz na rua:
 — Ó Vitória, aquece a água e amassa!
 Mas era uma voz estranha, desconhecida. Não a reconheceu como a da forneira, mas ainda assim tratou logo de fazer o que tinha a fazer: aqueceu a água e amassou. O pão ficou então em condições de ser tendido, fez os pães, pô-los no tabuleiro e veio com ele à cabeça para o povo.
 Só que, ao chegar ao povo, ainda nem sequer a forneira estava no forno. Nem ela tinha saído pelas casas a dar ordem alguma. Mais tarde, lá apareceu a forneira que lhe disse:
 — Então já estás aí com o pão?
 E ela:
 — Então não foste mandar amassar?
 — Eu não.
 E como de facto não tinha ido. Só depois é que foi acender o forno, e, por isso, o pão que a outra levava estragou-se.
 Contava então o meu avô que tinham sido as bruxas, que andavam de noite na Quinta do Rato, a chamarem-na para amassar. E era de más que faziam isso. Só para que o pão se lhe estragasse.

Fonte Biblio PARAFITA, Alexandre Património Imaterial do Douro - Narrações Orais (contos, lendas, mitos) Vol. 1 Peso da Régua, Fundação Museu do Douro, 2007 , p.172-173

Ano2007

Place of collection Sendim, TABUAÇO, VISEU

ColectorAlexandre Parafita (M)

InformanteJosé dos Santos (M), 68 y.o., Sendim (TABUAÇO) VISEU,

Narrativa

When XXI Century,

CrençaUnsure / Uncommitted

Classifications