As canas da India

APL 1243

No lugar da Covoada, na ilha de S. Miguel, vivia um lavrador que passava os seus dias a tratar com todo o cuidado a pequena manada de vacas leiteiras que tinha.
 Um certo dia, um dos pachorrentos animais assustou-se por qualquer razão e lançou-se a correr a toda a velocidade. O lavrador ficou preocupado e gritou:
 — Cum corisco! Ainda vou perder o bicho!
 Correu tanto quanto pôde, até que conseguiu agarrar a vaca pelo rabo. Mas nem mesmo o peso do homem foi suficiente para acalmar a vaca que continuou a fugir e, desnorteada, entrou por um algar, levando o dono arrastado pelo rabo.
 Correu, correu sem parar, até que chegou a um lugar nunca imaginado pelo lavrador micaelense. Ali havia homens pequeninos, de cor macilenta e escura, vacas de galhos enormes, roupa estendida ao sol nas beiras dos caminhos, galos a correr de um lado para o outro e a cantar.
 O animal entretanto tinha parado. O homem, pasmado, desprendeu-se do rabo da vaca, a qual desapareceu no meio da multidão que fervilhava pelas ruas à mistura com os animais domésticos. Cada vez mais admirado, o homem pensou para si: “Quando voltar à Covoada e contar isto que me aconteceu ninguém me vai acreditar. Vão dizer que eu estou doido.”
 Enquanto cismava, viu pelas beiras do caminho uma planta que nunca tinha visto na sua terra: eram canas, plantas características da India.
 Agarrou numa, puxou com toda a força e por fim arrancou-a. Vendo que não encontrava a vaca que o tinha arrastado até ali, resolveu voltar à sua terra pelo mesmo lugar por onde tinha ido, trazendo na mão uma cana, que seria a prova de que tinha ido à India.
 Os vizinhos do lavrador não queriam acreditar naquela história, mas ele mostrava as canas que tinha trazido consigo. O algar, por onde o lavrador passou, ainda lá está, tapado para que ninguém possa repetir tão estranha viagem. A cana que o lavrador trouxe passou a chamar-se cana da India e espalhou-se por toda a ilha de S. Miguel, formando lindos e verdejantes canaviais, e os seus caules começaram a ser usados como caniços de pesca, para fazer estacas e abrigos para terras.

 

Fonte Biblio FURTADO-BRUM, Ângela Açores: Lendas e outras histórias Ponta Delgada, Ribeiro & Caravana editores, 1999 , p.68

Place of collection-, PONTA DELGADA, ILHA DE SÃO MIGUEL (AÇORES)

Narrativa

When XX Century, 90s

CrençaUnsure / Uncommitted

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