As lavadeiras encantadas ou as feiticeiras do tanque

APL 1332

As mulheres das Fontes e do Tanque, há anos atrás, eram as lavadeiras das senhoras da Vila. Vinham a pé buscar. a roupa em trouxas, à cabeça, e iam lavá-la para uns tanques que havia longe das casas e que ainda hoje lá se podem ver. Costumavam ir de manhãzinha, muito cedo, para apanharem pia, para terem a água clarinha e aproveitarem o fresquinho.
 Uma certa vez, umas comadres do Tanque tinham combinado de véspera ir juntas e que quem acordasse chamava pela outra. Aconteceu que uma delas acordou e, como viu tudo muito claro, pensou que já era de dia e que a vizinha se tinha esquecido de a chamar. Toca de se dirigir para o Tanque. Foi andando, andando. Estava tudo claro como se fosse de dia. Quando já não estava muito longe dos tanques, viu muita roupa branca, estendida a corar na relva verde das encostas, outra posta a secar sobre as paredes de pedra. Dali não podia ver quem estava a lavar nas pias porque o alpendre de pedra tapava-lhe a vista.
 Continuou a andar, ainda mais depressa pôr julgar que já ia atrasada e que ia ter de esperar muito tempo para ter a pia livre. Levava colchas e cobertores e tinha que apanhar a Pia Banheira desocupada porque só ali se podia terminar à vontade. As galochas batiam nas pedras do caminho e faziam um barulho seco e cadenciado que ecoava ao longe. Já muito próximo viu uma mulher de costas para ela a virar a roupa e, julgando que era a comadre, gritou-lhe de cá:
 — Ó vizinha, esqueceste-te de chamar por mim ou que foi!?
 — A sorte que tu tens é que comeste alho com cascalho, antes de saíres de casa, senão já ias comigo. Ficavas encantada e eu acabava o meu encantamento — respondeu a outra mulher, sem nunca virar a cara. E foi um tal recolher a roupa que estava estendida na relva e fugir, como se fosse um anjo alvo e leve, para o lado da Gruta dos Encantados que fica na Pedra da Agua, na Serra Branca.
 Vendo isto, a lavadeira ficou cheia de medo e desatou a correr para casa, um pé não apanhava o outro.
 Ao chegar, viu que era só uma hora da manhã e que aquela claridade era da lua.
 A notícia espalhou-se e daí por diante as mulheres das Fontes e do Tanque só iam lavar para os poços, quando o sol nascia no horizonte, com medo das feiticeiras ou lavadeiras que viviam encantadas naquele lugar.

Fonte Biblio FURTADO-BRUM, Ângela Açores: Lendas e outras histórias Ponta Delgada, Ribeiro & Caravana editores, 1999 , p.165-166

Place of collection Guadalupe, SANTA CRUZ DA GRACIOSA, ILHA DA GRACIOSA (AÇORES)

Narrativa

When XX Century, 90s

CrençaUnsure / Uncommitted

Classifications