As picaretas de oiro

APL 928

O famigerado Penedo Negro tem ainda outras lendas, ligadas também à actividade dos povos da serra e relacionada principalmente com o fabrico do carvão que os carvoeiros vinham vender a Vila Real. Foi na realização deste trabalho que se deu o acontecimento maravilhoso que o povo conta assim:
 Um dia, ainda de manhãzinha, antes de o sol pintar na serra, o senhor Mota saiu de casa, como de costume, para fazer carvão, que era o seu modo de vida. Mas, quando chegou junto do Penedo e se preparava para arrancar as zogas das urgueiras, verificou, muito contrariado, que se tinha esquecido da picareta. Ia já para voltar a casa buscá-la quando deu de frente com uma Senhora, jovem e formosa, sentada, a pentear-se com um pente de oiro e com muitas picaretas, também de oiro, a seu lado.
 O carvoeiro ficou de boca aberta, a olhar, muito espantado, para aquela maravilha!
 Então a Senhora dirigiu-lhe a palavra:
 - Não precisas de ir buscar a tua picareta. Tens aqui muitas. Escolhe a que quiseres. Mas, antes, diz-me uma coisa: gostas mais das picaretas ou de mim?
 O senhor Mota, que não tirava os olhos das picaretas de oiro, a brilhar aos primeiros raios de sol, e que não sabia mentir, disse com a sua franqueza e simplicidade:
 - Gosto mais das picaretas.
 Oh! Palavra que tu disseste! A Senhora, com o rosto coberto de tristeza, deu um suspiro profundo e exclamou:
 - Então fica com ela. Já que escolheste a picareta e não a mim, continuarás pobre e eu continuarei encantada.
 E desapareceu, misteriosamente, no interior do Penedo Negro, deixando só uma picareta e levando consigo todas as outras.
 Quando o ambicioso carvoeiro pegou na picareta de oiro, a pensar que ia ficar rico, ficou sem pinta de sangue, porque ela se transformou, ao tocar-lhe, num pedaço de carvão, a única coisa em que tinha tocado em toda a sua vida.
 Então arrependeu-se amargamente da sua escolha desastrada, mas já nada pôde fazer. Teve de continuar pobre e a fazer carvão como os seus vizinhos, para sustentar uma ninhada de filhos.
 E a Senhora lá continuou, continua e continuará eternamente, encantada, no Penedo Negro, a guardar as suas picaretas de oiro!

Fonte Biblio FERREIRA, Joaquim Alves Lendas e Contos Infantis Vila Real, Edição do Autor, 1999 , p.102-103

Place of collection-, VILA REAL, VILA REAL

Narrativa

When XX Century, 90s

CrençaUnsure / Uncommitted

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