Avis

APL 695

I

 O Alentejo é a planicie enorme. Cansa. Ha ao longe montanhas, cuja distancia engana a vista. E’ um vasto oceano solidificado, ondas altas são as montanhas, lá além; mar chão está nas searas da charneca, mal ondulando ao vento, terra tão chã que os outeiros são serras e ella uma vasta seara de verde sem termo.
 Em parte alguma as aldeias tem mais brancura, mais se dispersam nos seus casaes alvinitentes, rasos, como que enterrados no, solo até o ultimo andar.

*
 Avis foi terra de Mouros. Expulsos eles, tornou-se o castelo sagrado, em que os Christãos preparavam a conquista do resto de Portugal. Lá estiveram os Cavaleiros da Ordem militar de Avís illustres na campanha da conquista, e na bravura da resistencia.

*
 
 Perto de Avis, ha um monte de encostas lentas. Ao fundo corre-lhe a um lado um ribeiro manso, entre choupos e salgueiros. E’ limpa de pedrasco a vertente virada ao ribeiro, tem a coroa de pinhal raro, que lhe forma um diadema no cabeço boleado. No meio da encosta encontram-se restos de um monumento antigo, a que chamam anta, e mostra pedras a pino, altas e negras, um dia cobertas por outra horizontalmente, como se fosse mesa de gigantes, ali posta para seu banquete formidavel.
 E’ ahi a casa encantada, onde triste mourinha captiva espera o dia da libertação. Ha ossos naquelle solo, n’elles se transformaram os thesouros da mourisma, quando fugiu batida pelos Christãos. A moura dorme, a guardar essas riquezas. Ninguem a viu, ninguem sabe como é. Loura, ruiva, cabellos castanhos ou negros? Quem o sabe?
 Não ha quem possa gabar-se de se ter approximado bem da anta. E’ guardada pôr um touro feroz. Escarva a terra, muge furioso, corre em torno da anta como animal enjaulado. Ouve-se-lhe ao longe o mugido roufenho, prolongado, com que de ventas no ar, aspirando nos ventos o cheiro de homens, que se approximem, persegue os ousados aventureiros da proximidade temeraria da Casa da Moura que assim chamam àquella anta. Nunca houve servo mais fiel, nem o haverá. E’ o terror de aquelles logares. Touro assim não se sabe de outro.
 E a moura, que ninguem viu e ninguem conhece, dorme, dorme, sem fim, se algum homem a não fôr desencantar. O touro vela.

II

 Ahi vem um candidato ás riquezas e á mão da moura. Atreve-se ao monte, onde ella dorme.
 — Nós não a vimos, — dizia um homem na villa, - mas tem de ser bonita; senão, para que havia de estar encantada?
 O touro estava deitado sobre as mãos, em frente da Casa da Moura, e parecia adormecido. Lembrava os antigos touros barbados e com asas, que os povos do Oriente collocavam deante dos palacios dos reis, para os guardar pela invocação aos deuses, como para os defender com a magia do seu prestigio. Julga-lo-hiam adormecido, e em verdade parecia-o. Adeanta-se o homem.
 Atravessa o ribeiro lá no fundo. A agua corre de mansinho, e elle passa-a bem, pé aqui, pé acolá, nas alpondras polidas. Os salgueiros projectam a sombra na agua, que escurecem. Reina urna paz dulcissima em toda a paisagem.
 Sobe a encosta com cuidado, para se precaver contra o touro, se acordar. Tenta evita-lo. O chão é liso, pouca pedra, o andar é facil, mas é diffici uma a defesa contra as arremetidas cegas do animal. Elle ahi vae.
 Deante da anta, deitado com magestade, o touro convence-o de que nada ouve. Vae o homem subindo. Tem na mão um saco; e pensa levar n’elle o que possa das riquezas da moura, pois tem a certeza de as ganhar de vez.
 Está já proximo. Julga o touro ainda em somno. Mas, quando vae já senhor da victoria, o touro levanta-se, como se mola premida o impellisse, e espera. Vaciliam um e outro. Enfrentam-se.
 O touro sente-se mal collocado. Porque o homem está demasiadamente proximo dos thesouros. Se consegue furtar-se-lhe á acommettida, e toca de leve sequer nas pedras da anta, está o touro perdido. Será fulminado, ou abrir-se-ha a terra para o tragar, emquanto as pedras da anta cahirão por si e deixarão ver as riquezas escondidas e, ao meio de dias, a moura encantada num somno de joia dentro de um cofre de luxo.
 Mal se sente o homem. Tem dois caminhos á vista. Ou espera a lucta, não devendo porém ter salvação possivel, ou foge para o ribeiro. Não sabe que pode tentar fugir ao touro, enganá-lo em uma volta rapida e habil, até chegar ás pedras da anta com a mão.
 A fuga pode salvá-lo e pode perdê-lo, porque tem duas direcções a seguir. Ou segue pelo lado opposto ao ribeiro, ou procura atravessar a corrente de agua, por onde entrou no monte. No primeiro caso, elle considerava-se homem morto. Via-se já alcançado pelo touro, que faria de elle uma bola, revolve-lo-hia no chão, atirando-o ao ar, apanhando-o de novo nos chifres, até o matar.
 Decide correr a toda a velocidade para o ribeiro. Mas pensava ainda.
 — Ou tenho menos ligeireza que o boi, e este me apanha no caminho, antes de chegar á margem do ribeiro, e nem os Santos todos juntos me valem. Ou tenho velocidade maior e maior astucia, chego primeiro ao ribeiro, e estou salvo.
 A unica possibilidade de salvar-se era realmente correr para o ribeiro, e elle assim o fez.
 Escarvava já a terra furiosamente o touro. De cabeça baixa, prestes a acommetter com o homem, olhava-o com odio e fogo nos olhos. Com as patas atirava para trás nuvens de pó. O homem esperava-o com ansiedade e segurança de si. Com um mugido profundo e arrastado, o boi curva-se; boleia o dorso como o espinhaço de um monte, e com o impulso, ao endireitar-se, projecta-se para a frente firmando as pernas no chão. Deu um pulo na direcção do homem. Foi o que este esperava. O boi, a seguir do salto e com a força de este, atira-se em carreira para o homem. Então este dá um salto á frente e corre em sentido oposto ao do boi, pela vertente abaixo.
 A intelligencia ia vencer a força. Com o estratagema, o homem conseguiu um avanço. Emquanto deminuia o impulso da carreira cega do boi, depois este se irritava ainda, mais ao espèzinhar o terreno de onde a victima já tinha fugido, perdia tempo o animal teria de voltar-se em procura do homem e correr bem a cortar-lhe o caminho; mas tempo perdido. Depois de tudo isto se ter dado, o touro, cheia de rancor, a mugir louco de furia, atira-se pela encosta abaixo.
 Correm os dois. O homem não tem onde se furtar á arremettida; pedras ou outros obstaculos, não os há. Que auxilio lhe prestariam também? Elle não havia de ficar eternamente a correr em volta da pedra, ou a eternamente se esconder com ella, e ter alli o touro á espera ou a correr tambem á volta do obstaculo. Correr, correr sempre, o mais possivel, monte abaixo, é que era.
 O touro tenta sahir á frente do caminho do homem. Galopa de cabeça alta; com a força de bater as patas no chão, vae num rasto de pó. O homem, que conhece o terreno, obliqúa sempre á sua esquerda, obrigando assim o boi a maior caminho para poder cortar-lhe o seu. Já não é correr; rolam pela encosta os dois. O touro vae colher o homem, já está proximo. Apesar de todos os esforços, o homem vae ser alcançado. Sente já, atrás de si, o bafo escaldante do animal, que baixa a cabeça para marrar. Instantes de pavor! O touro, senhor da victoria alegra-se; são mais uns passos e prompto, estará tudo consummado. Envolvem-se os dois na mesma nuvem de poeira. Parecem enovellados na lucta os dois corpos. Mas, de repente, o homem distingue-se bem; dá un salto atrás, como suprema e ultima tentativa de salvação, e vê-se o touro marrar na poeira, tresloucado, saltando no mesmo terreno, a mugir furias.
 Aproveitou o homem a furia do boi, e em dois saltos estava á beira do ribeiro. Lançou-se á agua e atravessou-o. Veio a si o touro e, quando viu o homem na outra margem, lançou-se em carreira desordenada ao longo do ribeiro.
 — Que irá elle fazer? — pensou o homem com receio, não fosse o boi atravessar tambem o ribeiro e continuar a caçada. Preparava-se para fugir, lembrou-se mesmo de subir a algum dos salgueiros, que orlam o ribeiro.
 Por fim recordou-se da lenda das riquezas da moura, ha tanto tempo escondidas. E ella dizia assim “No dia em que algum homem conseguir fugir ao touro, que as guarda, e atravessar o ribeiro sem ser alcançado, o touro correrá ao longo da margem para passar ao outro lado no sitio onde o ribeiro acabe”.
 — Vae-te, vae-te. Corre, procura o fim. Irás até o mar. Adeus, boa viagem — e ria, acenando ao touro, que furiosamente galopava, ao longo da fila de salgueiros.

III

 Ainda a lenda concluia: — “os thesouros pertencerão àquelle, que se furte ao touro e o afaste do logar, onde estão”.
 — E’ meu! Isto agora é commigo! — exclamou homem com o enthusiasmo da victoria e da riqueza.
 Atravessou de novo o ribeiro, e elle ahi sobe o monte; como se nada tivesse corrido já, elle vae com velocidade egual àquela em que o desceu. Agora levava-o a ideia de aproveitar a sua occasião, ia ser rico; e não queria que outro se adeantasse; pensava tambem que podia voltar ainda o touro, mais furioso e terrivel do que nunca.

*
 Apenas chegou ao local, onde estavam escondidas as riquezas, abrirarn por si as pedras da anta. As lages do fundo abriram-se como a porta nos gonzos. E elle, de pé, admirado da maravilha, sentia-se fóra da vida, em um mundo estranho e extraordinario.
 No meio de cofres de preço areas artisticas, vê reclinada em um coxim a moura adormecida. Veste de carmesim, bordado a ouro; tem na cabeça um turbante, fechada á frente pela luz singular, que irradia de um brilhante, grande como um sol. Viu ao fundo do recinto, feito com lettras de ouro, a palavra Zaid. Ao lêr, pronunciou-a em voz alta, e logo, com surpreza enorme, a moura ergueu-se lentamente, apoiando-se no braço esquerdo, e respondeu preguntando:
 — Quem me chama?
 Não lhe respondeu o homem, que no teve em si forças para tanto. Continuou a olhar abstractamente a moura. Era morena, o cabelo muito negro sahia do turbante em tufos encaracolados; os olhos, profundos em seu negrume, tinham brilho fulgurante. Pôs-se de pé, e dirigindo-se ao homem alli de pé, deante de ella, preguntou-lhe, ao mesmo tempo que compunha os tufos de cabello:
 — Foste tu que me chamaste?
 Respondeu-lhe elle com um aceno de cabeça.
 — Como soubeste o nome, meu amigo? 
 Elle apontou a palavra, escripta com lettras de ouro na parede do fundo.
 — E o guarda, como te deixou entrar aqui?
 — Anda a procurar-me lá para o ribeiro; — fallou elle por fim, já familiarizado e agente, sorrindo para a moura, que o convidava a entrar no recinto dos thesouros.
 — Entra, amigo, tu ganhaste bem os thesouros, entra e leva-os. São teus.
 Entrou. E n’esse momento já se não via em um buraco mas dentro de um palacio, cheio de riquezas. Em armarios havia cofres de todos os tamanhos e feitios, chapeados de metaes preciosos, recamados de joias scintillantes. Ao longo das paredes viu lindas arcas a brilharem como constellações; abriu uma, e julgou endoidecer: as joias, de todas as qualidades enchiam-na inteiramente, parecia que se moviam como outros tantos olhos, uns olhos de luz, a pestanejarem luz, muita luz, um deslumbramento.
 A moura olhava-o attentamente. Elle, no auge da surpreza, nem por ella dava.
 — Toma isso tudo, leva-o, é teu, — disse-lhe, quebrando o silencio.
 — Tudo meu! Tudo meu! 
 — Entre tudo o que preferes?
 — Endoideço com tanto! Fico satisfeito com a Senhora Moura! Não quero mais.
 Nesse instante tudo ruiu. Grande barulho os cercou, e, sem saberem como, encontraram-se deante da anta, cujas pedras estavam de pé como antes não se via o recinto, onde a moura tinha dormido seculos e seculos, acompanhando no esconderijo os thesouros a que a prenderam.
 Estavam de pé, sobre as lages, que formavam o fundo da anta. Um ao lado do outro. No chão viram dois arcazes de ebano e marfim, pesados de joias fóra da anta esperava-os uma mulinha ajaezada. Collocaram a sua riqueza no dorso do animal, e o homem, depois de lhe beijar a mão ceremoniosamente, subiu-a tambem, assentando-a entre os dois arcazes. Elle a pé levou a mulinha pela arreata, e desceu o monte. Havia sol, era um dia lindo; O homem levava o animal com o maximo cuidado, muito altivo pela sua conquista.
 A moura vestida de encarnado, os bordados de ouro a brilharem ao sol os pannos da mulita, vermelhos, amarellos, brancos, ás listras de côres vivas; a mulita branca parcia um andor em procissão rural, que o homem conduzia em passo de triunipho. Andaram, andaram...
 Diz-se que se casaram e foram felizes. Ao certo ninguem o sabe, porque ninguem mais os viu.

Fonte Biblio CHAVES, Luis Lendas de Portugal: Contos de Mouras Encantadas Lisboa, Livraria Universal, 1924 , p.208-219

Place of collection Avis, AVIS, PORTALEGRE

Narrativa

When XX Century, 20s

CrençaUnsure / Uncommitted

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