Burra alheia deixa-se ao dono

APL 1382

Há alguns anos atrás, Simão Pereira e um amigo iam a pé para uma folga, ao anoitecer. Simão era um bom tocador e levava a sua viola para animar a chamarrita.
 Quando iam passando pelo Mistério da Silveira, encontraram duas burras amarradas a uma parede. O Simão olhou para o outro e disse-lhe:
  — Já estamos cansados, havíamos de montar cada um para uma
burra. Assim chegávamos mais depressa e mais descansados para a folga.
 O outro logo respondeu:
 — Não, Simão, vamos a pé. Burra alheia deixa-se ao dono!
 Um que sim, outro que não. Mas sempre montaram. Logo as burras desataram a correr e levaram-nos por lugares desconhecidos. Assim andaram durante sete dias e sete noites, numa viagem estranha.
 Ao fim desse tempo, as duas burras vieram ter ao mesmo lugar no Mistério da Silveira e, levantando as pernas, deram com os homens no chão.
 Dali a tempos um deles precisou de ir a S. Jorge, fazer negócios: comprar porcos ou uma égua. Desembarcou e foi andando pela vila até que passou por uma janela onde estavam duas raparigas. Então uma chamou pela outra e disse:
 — Olha, tás a ver? O tio do Pico... burra alheia deixa-se ao dono!
 O homem não podia acreditar. Aquelas duas mulheres eram as burras que eles tinham encontrado no Mistério da Silveira e que não eram nem mais nem menos que duas feiticeiras de S. Jorge, que os tinham levado para uma viagem estranha e os tinham feito perder uma noite de chamarrita.

Fonte Biblio FURTADO-BRUM, Ângela Açores: Lendas e outras histórias Ponta Delgada, Ribeiro & Caravana editores, 1999 , p.225

Place of collection-, MADALENA, ILHA DO PICO (AÇORES)

Narrativa

When XX Century, 90s

CrençaUnsure / Uncommitted

Classifications