Calheta do Nesquim

APL 1386

Decorria o século dezasseis e frequentemente os mares dos Açores eram cruzados por caravelas carregadas de muitas riquezas, vindas do Brasil.
 Certa noite, uma caravela que transportava pau brasil, uma madeira muito boa e apreciada, foi assolada por uma forte tempestade, ao largo dos Açores, mais propriamente na costa sul do Pico, acabando por naufragar.
 Com a mexida do mar e o escuro da noite a tripulação depressa desapareceu no meio das grandes vagas e a caravela afundou-se, levando consigo as riquezas que transportava. Do meio do desespero e da agonia, três homens conseguiram livrar-se, nadar e manter-se juntos, seguindo os latidos do Nesquim, o fiel cão de bordo, cujo faro adivinhava terra não muito longe. 
 Enjeiraram-se a nadar com força, defrontando a força do mar. A certa altura, já quase esgotados, mas ainda com esperança, sentiram, pelo barulho do mar, que se estavam a aproximar de terra. A noite era de breu e, só já muito próximo, vislumbraram umas sombras de rochedos da costa.
 Um dos homens, recobrando a coragem e a alegria, exclamou:
 — Salta, Nesquim!
 O cão logo trepou para uma rocha e os três homens seguiram-no.
 Viram que estavam numa pequena baía ou calheta, onde o mar se lançava contra calhaus pequenos e redondos. Por trás estendia-se uma encosta, toda coberta de faias e urzes.
 Resolveram então chamar a esta terra Calheta do Nesquim em homenagem ao cão que tão corajosa e inteligentemente os tinha salvo.
 Um dos homens, João Valim, foi fixar-se na Ribeira do Meio. O segundo, João Redondo, foi andando pela ilha, até que se fixou no lugar que é hoje a Madalena. Diogo Vaz Dourado, o capitão do veleiro, ficou a viver no lugar a que hoje se chama Foros, e a partir daí se desenvolveu a freguesia de Calheta do Nesquim.
 O cão, passados anos, morreu no lugar que tinha descoberto e foi unir-se à terra virgem da ilha, debaixo de faias e urzes que ali, cresciam livremente. Mas a coragem e inteligência de Nesquim penetrou na terra e nas plantas e alimentou o corpo e alma dos habitantes desta freguesia que se fizeram destemidos pescadores e baleeiros, afamados em toda a ilha.

Fonte Biblio FURTADO-BRUM, Ângela Açores: Lendas e outras histórias Ponta Delgada, Ribeiro & Caravana editores, 1999 , p.229

Place of collection Calheta De Nesquim, LAJES DO PICO, ILHA DO PICO (AÇORES)

Narrativa

When XVI Century,

CrençaUnsure / Uncommitted

Classifications