Da Imagem de N. Senhora da Salvação do Convento de Santa Catarina de Riba-mar

APL 1469

No Convento de Santa Catharina de Riba-mar, he tidà em grande veneraçaõ hũa devota Imagem da Mãy de Deos, invocada com o titulo de Senhora da Salvaçaõ; cuja origem mais por tradiçoes, do que por escritos, he nesta fórma. A Serenissima Princeza D. Isabel, filha do Duque de Bragança D. Jayme, que foy casada com o Infante Dom Duarte, filho delRey D. Manoel, pela grande devoçaõ que tinha à Provincia da Arrabida, lhe fundou hum Convento á sua custa no anno de 1551. que he o de S. Catharina de Riba-mar, distante quasi duas legoas de Lisboa para a parte do Occidente, sobre a rocha do mar; para o qual pedio o Infante D. Luis ao Prior, & Beneficiados da Igreja de Santa Cruz do Castello hũa Ermida, que lhes alli tinhaõ annexa sua, obrigandose a lhe dar cada hum anno dous mil maravedis em hũa renda sua, & com licença do Arcebispo de Lisboa, o Prior, & Beneficiados deram a Ermida, & fizeram as escrituras, para o que tambem ElRey deu o seu consentimento: & quando se fez esta doaçaõ, foy com a clausula, que se em algũ tempo os Religiosos, para cuja habitaçaõ se intentava fazer o Conv~eto,  desemparassem, naõ se poderia dar a Ermida, & sitio a outros Religiosos, nem applicar a outros usos, senaõ que tornaria à referida Igreja de Santa Cruz, com a posse que de antes tinhaõ. Tudo consta de papeis que se achaõ na Torre do Tombo.
    Povoados o Convento, começaraõa resplandecer nelle as virtudes de seus santos habitadores. Entre elles ouve hum grande servo de Deos chamado Fr. Antonio das Chagas, homem de grnde sinceridade; e este servo de Deos devotissimo da Rainha dos Anjos, & della recebia grandes favores. Pela grande fama q’ havia da sua virtude lhe tinha grande affeiçaõ, & devoçaõ a Serenissima Rainha D. Catharina, viuva delRey D. Joaõ  o III. & assim gostava muyto de lhe fallar, & conversar com ella, & tambem de lhe fazer alguns favores. Sabendo esta Senhora a grande devoçaõ que este servo de Deos tinha com a Rainha dos Anjos, lhe deu hũa Imagem sua muyto devota, que se tem por obra do Evangelista S. Lucas. He pintada em hũa lamina, que terá perto de dous palmos de alto, & na proporçaõ do natural. Com esta Santa Imagem, a que tinha muyto particular devoçaõ, o ouviraõ os Religiosos daquella Casa fallar algũas vezes, estando elle fechado, & recolhido na sua cella; & responder a Senhora; porque se affirma se ouviraõ tambem as suas soberanas palavras, respondendo ao seu devoto servo, & regalando o como amorosa Mãy que he dos que com amor a servem.
    Quando este servo de Deos morreo, que foy no anno de ? com alguns cem annos de idade, pondo o seu corpo na Igreja, puzeraõ tambem, naõ sem particular providencia do Ceo, a lamina da Senhora ao pè da Cruz, q’ se lhe poz no altar, à cabeceira do tumulo. Concorrèraõ às suas exequias, & officio da sepultura muytas Senhoras da Corte suas devotas, porque todas o veneravaõ muyto, & o buscavaõ em seus trabalhos: & o servo de Deos lhes valia com a efficacia de suas oraço~es, como se vio na perda delRey D. Sebastiaõ, que a muytas declarou serem seus maridos vivos; a hũas, que brevemente lhes entrariam pelas portas de suas casas; & a outras dizendolhes o estado em que se achavaõ. E tudo se ver ficou como elle o dizia.
    Na occasiam pois em que o sevo de Deos morreo, veyo a Duqueza de Aveir assistir às suas exequias, & vendo a lamina ao pè da Cruz, ficou muy contente, parecendolhe que a podia furtar: (jà sabia que aquella Imagem da Senhora era a com que o veneravel Padre Fr. Antonio tinha os seus colloquios, & que por ella he fallára a Senhora muytas vezes,) & quando foy ao levarem o corpo à sepultura, e chegou com dissimulaçaõ aonde a lamina estava, tomou-a, & deu-a a hũ escudeiro, encarregandolhe que logo a levasse a sua casa; & dizem alguns Religiosos, que com effeito o fizera, & que tanto que a poz em casa da Duqueza, se achára ooutra vez a lamina do Convento. Outros dizem, que pondose o escudeiro a cavallo, com desejos de ir voando como a Duqueza lhe recomendava; que naõ foy possivel, por mais diligencias que poz, querer o bruto dar hum passo; picava-o, & elle levantandose no ar resistia a naõ se querer mover. Intentou tomar para a banda de Cascaes; mas nem assim foy possivel obrigallo a se mover daquelle lugar: provou voltar para o Convento, & logo foy voando. A vista deste sucesso, reconhecendo naõ era a Senhora servida de que a levassem daquella Casa, nem da companhia dos Religiosos seus devotos Capella~es, apeouse, & entrou pela Igreja dentro publicando o milagre, & referindo à Duqueza, o que lhe havia succedido.
    Ainda assim se naõ deu a Duqueza por sossegada nos seus piedosos desejos de poder lograr a companhia daquella Santa Imagem. Para isto procurou hum pintor destro que lhe copiasse a Sãta Imagem em tal fórma, que se naõ conhecesse o furto, ou a troca que intentava. Para isto foy dispondo, & obrigando ao Guardiaõ do Convento, mandandolhe continuas, & grandes esmolas, & presentes; atè que se declarou com elle, pedindolhe lhe desse aquella lamina. Disculpavase o Guardiaõ dizendo, que como o podia elle fazer à vista da grande devoçaõ, que a Provincia tinha àquella Santa Imagem (neste tempo a tinhaõ jà fechada em hum Sacrario,) com tanta veneraçaõ, que a naõ mostravaõ senaõ com luzes, & com a assistencia de muytos Religiosos; & como a Duqueza lhe facilitou que a havia de copiar hum insigne pintor em tal forma, que se naõ havia de conhecer qual dellas era a original. A vista destes apertos condescendeo o Guardiaõ em tudo o que a Duqueza pedia: & o pintor a fez com tal perfeiçaõ, que postas as Imagens juntas se não distinguia facilmente hũa da outra.
    Com effeito levou a Duqueza a Imagem original da Senhora, sem que os Religiosos conehcessem o furto; excepto o Guardiaõ, que era o que intervinha em tudo o que se obrava. Tanto que a Senhora ficou em casa da Duqueza, se vio com experiencia se não agradava daquella mudança; porque se não viaõ naquella casa as benço~es da de Obededen: porque se começárão a experimentar castigos: porque adoecendo o filho morgado à morte, & depois o segundo, & logo hũa filha, ainda assim a Duqueza não entendeo donde lhe vinha aquelle damno; & que a Senhora se não pagava de toda esta sua devoção. Neste tempo adoeceo gravemente o Duque; então abrio os olhos, & veyo a entender, q’ todos estes males eraõ castigo da sua temeridade.
    Restituio logo a Imagem da Senhora ao Convento, & feita a restituição, logo começáraõ a melhorar os enfermos,& em breves dias ficáraõ de todo saõs. A vista desde sucesso tratáraõ os Religiosos dalli por diante de ter com mayor resguardo a Santa Imagem, para que lhe não succedesse semelhante furto; & assim a fecháraõ no mesmo Sacrario.

Fonte Biblio AGOSTINHO DE SANTA MARIA, Fr. Santuário Mariano Alcalá, Imperitura, 2007 [1711] , p.tomo I, parte I, Ch. XLII, pp. 209-214

Narrativa

When XVIII Century,

CrençaUnsure / Uncommitted

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