Da Imagem de Nossa Senhora da Luz em Carnide

APL 3275

Alguns annos antes do de 1463. foy cativo em Africa hum venturoso homem, chamado Pedro Martins, que sendo natural de Carnide, termo de Lisboa, situado hũa legoa distante para o Noroeste, & saindo, como succede a muytos, a buscar ventura, deu consigo no Algarve, aonde casou com hũa mulher por nome Inez Anes; & voltando com ella para Carnide, viveo neste lugar alguns tempos com mostras de virtudo, & Cristandade. Por varios sucessos foy cativo em Africa, naõ se sabe com certeza em que tempo fosse; cre-se que seria no tempo em que ElRey Dom Affonso V. passou là, aonde o cativáraõ em alguma saida. Porque consta, que veyo a Portugal por favor de nossa Senhora no anno de 1463. Entendese que o tempo que esteve naquellas infernaes masmorras de Africa, seria largo, & tambem grandes as vexações, & crueldades, que nellas padeceria, que ajudado de graça divina, tolerou com grande paciencia, aonde se naõ esqueceria de invocar a piedosa Mãy dos pecadores, de quem era muyto devoto; para q’ o ajudasse a levar aquelle trabalho: ao q’ a misericordiosa Senhora naõ faltou. Porque lhe appareceo cercada de resplandecentes luzes, cuja visita elle recebeo com admiravel devoçaõ, como sempre tivera. E naõ foy isto hũa vez sómente, mas muytas no espaço de trinta dias: & instruindo-o do que intentava obrar por seu meyo, lhe disse: Filho, consolate que eu te livrarei deste cativeiro, com tanto, que vendote em tua liberdade, me faças no lugar de Carnide, em que nasceste, sobre a fonte do Machado huma Ermida, conforme tuas posses, da invocaçaõ da Senhora da Luz, por ser este titulo o que mais comigo simboliza, & de que meu Filho mais se agrada, na qual ha de ser meu nome glorificado, honrado, & augmentado com innumeraveis milagres, obrados naquelles, que com fé viva se valerem de minha poderosa intercessaõ. E advirtote , que quando là chegares, acharás de minha luz, & claridade vestigios, que teus naturaes experimentáraõ ha perto de hum anno, sobre a mesma fonte. Alli cavando acharás hũa Imagem minha, a quem dedicarás a Ermida que te digo.
    Depois de tam celestiaes visitas que teve o devoto Pedro Martins, com grande jubilo, & alegria de sua alma, estando pelo partido, & concerto que a Senhora lhe fizera, se achou por sobrenatural, & ineffavel modo, livre do penoso carcere, & cativeiro, com os mesmos ferros, & gritalhoens que o tinhaõ prezo, na sua propria terra, & casa. Divulgada a nova de sua milagrosa chegada, veyo logo hũ seu sobrinho visitallo; mas elle como era muy singello, & dotado de santa simplicidade, naõ se atrevia a descubrir (ainda a sua mulher) as milagrosas appariço~es que tivera no carcere; praticandose entaõ nas luzes, & resplandecedores, que appareciam havia muyto tempo sobre a fonte do Marchado, revelou o segredo que tinha escondido em seu peito, contando miudamente o apparecimento da Senhora, & circunstancias delle. Obrigáraõ-no logo a que quisesse ir à fonte a descubrir o celestial thesouro; & deixando-o para a noyte, se partiraõ no mayor silencio della os tres ditosos companheiros: convem a saber, Pedro Martins, sua mulher, & sobrinho; levando por guia hũa miraculosa luz, à maneira da Estrella que encaminhou os Magos ao portal de Belem: porque assim como elles davaõ o passo, assim tambem se movia o resplandor dauqella tocha, ou luz, atè que parou em hum espesso bosque.
    Vendo Pedro Martins, que o Ceo demonstrava ser este o campo que guardava a pedra preciosa da Imagem Sacratissima, cheyos de espirito, respeito, & devoçaõ, tanto caváraõ alli, atè que foy achada sobre hũa lagem de fino marmore; ou dentro de hũa caixa de pedra cuberta com a lagem. Pareceolhes que estava a Senhora vestida de Sol, & com hum rosto tam bello, & tam fermoso, que àlem de se reconhecer de quem era, parecia ser obrada pelos Anjos: roubava com a sua graça os coraço~es de todos os tres companheiros, & posto que cada hum delles lhe dava mil reverentes osculos, Pedro Martins (como mais obrigado) conhecendo ser a propria que lhe apparecèra, com incrivel devoçaõ postrado por terra, & derramando copiosas lagrimas de seus olhos, lhe rendia a alma com todas as potencias.
    No proprio lugar se lhe erigio logo hum Altar em que a collocáram. E divulgada a nova da maravilhosa appariçaõ, concorreo o povo com grande fervor a venerala: & a Senhora feita hũa perenne fonte de fraude, começou a obrar as suas costumadas maravilhas. Neste comenos se partio Pedro Martins para o Algarve a vender huma fazendinha que lhe haviaõ dado em dote, para com o preço della começar a desempenhar a sua promessa, donde voltando com a mayor brevidade, deu conta de tudo a Dom Affonso Nogueira, (que entaõ era o Bispo de Lisboa) para que lhe concedesse licença para fundar a Ermida; o qual, como Varam Santo, o teve por grande alvitre; & naõ só lhe concedeo a licença, mas se offereceo a lançar a primeira pedra, & tudo o mais que fosse necessario, dandose os parabens de ser tam ditoso, que no seu governo succedesse tam estranha maravilha.

Fonte Biblio AGOSTINHO DE SANTA MARIA, Fr. Santuário Mariano Alcalá, Imperitura, 2007 [1711] , p.tomo I, parte I, título XIII, pp. 98-102

Place of collection Carnide, LISBOA, LISBOA

Narrativa

When XV Century,

CrençaUnsure / Uncommitted

Classifications