Deus prometeu dar todos os dias um homem ao mar

APL 1374

Em S. Jorge, como em muitas ilhas dos Açores, era costume os homens irem às lapas, nos dias de mar manso. As lapas eram um marisco muito apreciado e muito abundante há anos atrás. Aqueles que ficavam mais perto do mar, se não havia outro conduto para comer com o bolo, davam um saltinho à costa e, em menos de uma hora, toda a família tinha uma refeição que era um consolo.
 Ora um certo dia, um homem dos Rosais foi às lapas e, enquanto andava entretido a apanhar caramujas, saltando de pedra em pedra, ouviu o barulho do mar a segredar:
 — A maré vai e vem e que faz aquele homem que não vem?
 O homem parou um pouco a ver se estava a ouvir bem, mas logo depois se entusiasmou a apanhar lapas, novamente. Passado pouco tempo, voltou a ouvir a voz do mar a dizer:
 — A maré vai e vem e que faz aquele homem que não vem?
 Começou a ficar preocupado e assim que pôde veio-se embora.
 Quando já vinha para cima, encontrou um vizinho que ia para baixo. Trocaram algumas palavras e cada um foi à sua vida, um na volta de casa; o outro direito à costa. Este último apressou o passo porque julgou que a maré já estivesse a encher e, assim que chegou lá abaixo, saltou para uma pedra. Quando se foi baixar para apanhar lapas, nunca mais levantou a cabeça: caiu e foi levado pelo mar, que estava à espera dele.
 A notícia do seu desaparecimento correu e a sua morte foi muito sentida por todos. O vizinho que o tinha encontrado lembrou-se da voz que tinha ouvido quando estava na costa. Contou o que lhe tinha acontecido e as pessoas mais velhas explicaram que, quando Deus formou o mundo, o mar tinha pedido que lhe desse todos os dias um ser humano ou um palmo de terra, tendo ficado combinado que ia ser um homem.
 Os vizinhos, tristes e chorosos, compreenderam que o desaparecido tinha sido o ser humano escolhido para dar naquele dia ao mar.

Fonte Biblio FURTADO-BRUM, Ângela Açores: Lendas e outras histórias Ponta Delgada, Ribeiro & Caravana editores, 1999 , p.212-213

Place of collection Rosais, VELAS, ILHA DE SÃO JORGE (AÇORES)

Narrativa

When XX Century, 90s

CrençaUnsure / Uncommitted

Classifications