[Encontros com Mourinhos]

APL 3779

— Há vinte anos, pouco mais ou menos, disse, passou junto da fonte das Romeirinhas, quase à entrada da vila, um homem de Querença, montando na sua jumenta. Eram dez horas da noite, em um sábado, e dirigia-se para a vila. O animal teimou em aproximar-se da pia, junto da fonte. Já ali, viu uma criança de gorro encarnado sentada no beiral da fonte. Supondo que era alguma criança da vila, aproximou-se e disse:
    — Anda cá, menino, levo-te à tua mãe. A criança, sem dar resposta, deu um salto dentro da fonte e meteu-se por um buraco. Era um moirinho encantado. Foi tão grande o susto que apanhou, que estava já na vila e não podia falar.
    — Como se chama esse homem?
    — Manuel. Não sei se é vivo, se morto.
    — Estava convencido de que não havia criancinhas encantadas... observei.
— Quando os cristãos entraram em Loulé, muitos mouros foram encantados com toda a família. Supunham talvez que não fosse duradouro o encanto e que voltariam em breve à vida real, pois estavam convencidos de que os marroquinos viessem logo reconquistar a vila.
    Haverá vinte e cinco anos, um rapaz, Francisco Anjinho, foi, em uma noite, guardar os figos de umas figueiras por seu pai arrendadas no pombal. À meia-noite viu ele uma criança de gorro mourisco na cabeça. Apanhou tanto susto, que largou imediatamente as figueiras, e dirigiu-se para a vila, onde chegou mais morto do que vivo.

Fonte Biblio OLIVEIRA, Francisco Xavier d'Ataíde As Mouras Encantadas e os Encantamentos do Algarve Loulé, Notícias de Loulé, 1996 [1898] , p.78-79

Place of collection-, LOULÉ, FARO

Narrativa

When XX Century, 90s

CrençaUnsure / Uncommitted

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