Évora

APL 2693

Depois da gloriosa Victoria do Salado (30 de outubro de 1340) ganhada pelo nosso rei D. Affonso IV e seu filho, D. Pedro, depois I, e seu genro, D. Affonso XI de Castella, casado com a nossa infanta D. Maria entraram os dois monarchas em triumpho, na poetica cidade de Sevilha, onde se demoraram sete dias, a solemnisar com festas inauditas esta portentosa Victoria.
Prodigiosos foram os despojos d’esta batalha. Diz-se que o ouro e prata tomado aos mouros, foi em tanta quantidade, que o seu valor abateu a sexta parte; isto, além de
muitos milhares de escravos, bandeiras, armas e outros muitos objectos de grande valor.
Todo o despojo publico foi offerecido pelo rei castelhano ao nosso, que respondeu: - «Não quero riquezas, mas só a gloria de ver abatida a soberba mauritana; porém, para memoria d’este dia, acceito a trombeta do rei de Granada, o infante Abohamo e as cinco bandeiras que por minha mão ganhei.

A entrada de D. Affonso IV e seu filho em Evora, depois da batalha do Salado, acompanhados dos principaes guerreiros que se distinguiram n’esta. empreza, e dos terços eborenses, foi uma das mais esplendidas festas que esta cidade tem presenceado. Mais de um mez duraram as solemnidades religiosas, em acção de graças; as justas. jogos de cannas, touradas, cavalhadas e mais demonstrações festivas do tempo.

Tendo fallado na maravilhosa victoria do Salado, e não tendo outro logar em que a possa commemorar, julgo interessantes alguns factos que a precederam e que passo a relatar.
Tendo a rainha Maria soffrido a maior afronta que uma mulher virtuosa póde soffrer de seu marido […] mas, vendo a sua patria adoptiva, em risco de imminente destruição, escreveu a seu pae implorando soccorro para o seu marido ingrato.
O nosso D. Afonso IV, que estava justamente resentido contra o monarcha castelhano, respondeu á filha: «que, ainda que aquelles varonis pensamentos não eram alheios do seu real sangue, como não nascera para amazona, devia deixar ao valor de seu marido aquelles cuidados, e occupar-se em torcer os fios da sua roca e os bilros da sua almofada, e esquecer-se dos ferros das lanças e dos fios das espadas.»
D. Affonso IV dera esta resposta á filha, que tanto adorava, porque suppoz (como era verdade) que a carta della fôra escripta sob a influencia do marido; o qual, vendo a sua traça descoberta, mandou embaixadores pedir formalmente soccorros a Portugal.
O monarcha portuguez lhe mandou 300 lanças, que se immortalisaram em Hespanha, na guerra contra os mouros, ficando o seu chefe Aben-Ali, filho de Ali-Boacem, rei de Marrocos, degolado na batalha.
Enfurecido Ali-Boacem com a noticia da morte do filho, se colligou com os reis de Tunes, Sejulmanca e Búgia, resolvido a vir em pessoa a Castella, vingar a morte de Ben-Ali.
Desde o Zaire até ao Nilo, se reuniram os mahometanos para cahirem sobre a Hespanha, qual avalanche monstruosa e destruidora.
O rei castelhano pede a sua mulher que venha a Portugal implorar soccorro a seu destemido pae.
A formosa rainha vem a Evora, vestida de luto, e lacrimosa se lança aos pés de seu pae, expondo-lhe o motivo da sua. vinda inopinada.
São bellas as palavras que os historiadores referem proferidas então por ella; dizem que dissera: – «Quantos povos, Senhor, tem produzido a Africa; quantas gentes tem creado a Barbería; todos, em companhia do rei de Marrocos, estão para passar á  Hespanha. Poder tamanho, junto, não se viu desde que as discórdias dos homens inventaram as guerras, para seu reciproco exterminio. E, porque as nossas forças são limitadas, venho a implorar a vossa assistência. Só a vossa pessoa e a vossa espada podem impedir esta tempestade e serenar esta tormenta. Empunhoe-a, valoroso rei, desembainhae-a, amoroso pae, se estimaes a conservação da minha vida e a perpetuidade da minha corôa. Rompei as demoras e acudi apressado ao mesquinho rei de Castella; porque se tardardes, temo muito que não acheis mais do que umas poucas de cinzas, reljquias fataes da sua desgraça.»
D. Affonso IV, aquelle que tão justamente mereceu o cognome de bravo, levanta sua filha, aperta-a ao coração, e, depois de lhe enxugar as lagrimas, com rosto alegre e animo sereno, lhe disse que «ainda que Ali-Boacem lhe tinha offerecido vantajosos partidos (que elle tinha despresado) para não sahir a campo, acudiria a Castella com todas as suas forças e com a sua pessoa.»
Mandou immediatamente circulares a todos os senhores e cidades do reino, para que com todas as suas forças se fossem encontrar com elle na fronteira, e o rei marchou para Juromenha com sua filha, com 100 cavalleiros e 1:000 infantes eborenses (de que era alferes-mór, Gonçalo Añes Carvoeiro, um dos mais nobres cidadãos d’Evora) para alli reunir o resto das forças.
O rei de Castella já o estava esperando em Juromenha, e depois de algumas conferencias, passou a Sevilha, e o nosso rei a Elvas, e reunindo as forças que pôde, passou á Andaluzia, com 21:000 homens.
Foram os portugueses recebidos em todas as povoações hespanholas com as maiores demonstrações de fraternal amisade e do mais espansivo regosijo. Em Sevilha os foi esperar, em procissão, toda a clerezia e grande multidão de povo e nobreza, cantando os sagrados hymnos da egreja, que eram principiados pelo Benedictus qui venit in nomine Domini.
Aqui (em Sevilha) souberam os dois monarchas, que os mouros e turcos tinham passado o estreito de Gibraltar (por culpa da esquadra castelhana, que se não uniu á portugueza) com numerosissimas forças, que uns dizem elevar-se a 400:000 homens, outros a 700:000, 70:000 cavallos e 12:000 lanças dos principaes senhores da Mauritânia. Tambem o rei mouro de Granada se lhes uniu, com 57:000 guerreiros.
 Em vista de tão grande multidão, desanimaram os hespanhoes, que, em conselho de guerra, propozeram pazes com os mouros, mediante uma avultada quantia de dinheiro. Acompanhava a expedição portugueza, D. Gonçalo Pereira, arcebispo de Braga, que tenazmente se oppoz a esta deliberação, o que principiava a causar murmurações aos castelhanos.
 Então o rei portuguez disse: que não tinha sahido do seu reino, com soldados sempre costumados a vencer, para se retirar sem combate. Que os castelhanos temiam o grande numero dos inimigos, elle só com os seus 21:000 portuguezes os combateria e venceria. Que se as settas dos mouros (como diziam) eram tantas, que escureciam o sol, tanto melhor, porque combateriam á sombra.
 O rei de Hespanha tambem era corajoso, e do voto do nosso rei e do arcebispo de Braga, pelo que logo gritou – Batalha! á batalha! – palavra magica que, com a rapidez do raio, electrisou os soldados, que todos repetiram: – batalha! batalha!
 
 Já se disse o resultado d’esta jornada, de eterna gloria para as armas portuguezas e hespanholas.
 O rei de Castella e os principaes fidalgos da sua corte, acompanharam o nosso rei até Olívença, onde se fizeram as mais cordiaes despedidas.

Fonte Biblio PINHO LEAL, Augusto Soares d'Azevedo Barbosa de Portugal Antigo e Moderno Lisboa, Livraria Editora Tavares Cardoso & Irmão, 2006 [1873] , p.Tomo III, p. 104-106

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Narrativa

When XIV Century,

CrençaUnsure / Uncommitted

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