Figueiredo das Donas

APL 2744

Contam todos os nossos historiadores que o que deu a esta freguezia o sobrenome (das Donas) foi o facto seguinte.
Mauregato, filho de D. Affonso, o catholico, e d’uma escrava, pretendeu usurpar (como usurpou) o throno a seu sobrinho, D. Afonso, filho de D. Fruela, e para isto pediu e obteve o auxilio das tropas do kalifa de Córdova, Abd-el-Raman, em 783, mediante o vergonhoso tributo de 100 donzellas lusitanas, para os harens mouriscos.
Em 784, Orélia e mais 5 companheiras, d’estes sitios, foram escolhidas pelos caçadores do usurpador, para fazerem parte do tributo d’esse anno. Hiam ellas passando por Figueiredo, acompanhadas e guardadas por 20 mouros e 40 castelhanos, todos de cavallaria, álem dos guardas de pé.
Um nobre cavalleiro lusitano, de sangue gôdo, natural de Lafões, chamado D. Guesto Ansur, era namorado de Orelia, que lhe mandou dizer a desgraça que lhe acontecera e pedir-lhe que a salvasse.
D. Guesto junta á pressa uns trinta homens de Lafões e com elles cahe inopinadamente sobre a escolta que conduzia as donzellas a Merida, quando ella passava a Figueiredo. O furor de D. Guesto e dos seus era tal, que os mouros e castelhanos morreram quasi todos no combate. As damas foram libertadas, e D. Guesto as levou para o seu castello e alli casou com Orelia.
(Ha tambem quem diga que este facto não occorreu aqui, mas em Figueiró dos Vinhos. Estes, quanto a mim, fundam-se sómente nos primeiros dois versos da poesia de D. Guesto, que em muitos escripmres veem assim – «No figueyrol de figueyredo – A no figueyrol entrei.»)
No maior furor da peleja, tinha quebrado a espada D. Guesto; mas este estroncando um grosso ramo d’uma figueira, continuou com elle a esmagar os inimigos.
Por esta façanha, D. Bermudo 1.º deu, em 789,  a D. Guesto Ansur o appellido de Fígueiredo (outros ditem, de Figueirôa) e por armas um ramo de figueira.
Depois, na reforma dos brazões, em logar do ramo, foram 5 folhas de figueira, que ainda hoje são as armas dos Figueirôas.
O mesmo rei determinou que ao logar da peleja te chamasse d’ahi em diante Fígueiredo das Donas.
Dizem outros escriptores que estes appelidos e estas armas, foram dadas por D. Ramiro 1.º em 848, mas é mais provavel que fosse D. Bermudo 1.º porque é de suppor que D. Ansur já não existisse 64 annos depois d’este facto, e mesmo porque o rei não demoraria tanto tempo um premio que nada lhe custava.
Os gallegos dizem que um facto semelhante aconteceu junto a Mondonhêdo, por esse tempo, com um cavalleiro da Galliza, que tambem com uma pernada de figueira matou os guardas que escoltavam algumas donzellas d’aquelle reino, destinadas ao infame tributo, resgatando-as. Outros escriptores gallegos e castelhanos dizem que o tal cavalleiro que obrou esta façanha tinha por appellido Figueirôa já antes a d’ella, e que é por esse motivo e não por ter combatido armado do ramo de figueira, que aos seus descendentes se conserva o appellido de Figueirôas.
O que é certissimo é que todos os escriptores de boa nota contam o facto e a origem do appellido e das armas, como primeiro relatei – que em Hespanha ha tambem o appellido de Figueirôa, – e que, nem só em Figueiredo das Donas e Mondonhêdo, mas em varias terras das Hespanhas, o povo por varias vezes sahiu ás escoltas que levavam as donzellas do tributo, e as libertaram, com mais ou menos derramamento de sangue.
Este infamante tributo só durou 6 annos, porque, tendo morrido o usurpador Mauregato, em 789, e subindo ao throno D. Bermudo I, só n’esse anno pagou o tributo, porque atacando as tropas do kalifa Abd-el-Raman, junto de Aledo, as derrotou, e livrou os christãos de tão humilhante tributo.

Fonte Biblio PINHO LEAL, Augusto Soares d'Azevedo Barbosa de Portugal Antigo e Moderno Lisboa, Livraria Editora Tavares Cardoso & Irmão, 2006 [1873] , p.Tomo III, pp. 193-194

Place of collection Figueiredo Das Donas, VOUZELA, VISEU

Narrativa

When783

CrençaUnsure / Uncommitted

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