Floripes

APL 2394

Vamos passar à lenda, que não é lenda, foi realidade, da vila de Olhão, de uma senhora que tem por nome Floripes. Não era ela só, era uma irmã e ela, ela era loira e a irmã era morena. Ela morava ali em baixo [doca de Olhão]. Frente ao mar havia uma fábrica velha, onde moravam pessoas da alta sociedade. Ainda hoje existe essa rua que é a rua da Sulcampo, uma rua estreitinha e em cima havia uma janela e então de manhã, quando os homens iam para o mar, sobre a madrugada [durante o dia ninguém a via] e ela umas vezes por outras, nem sempre, metia-se com os pescadores e entre esses pescadores existia o meu avô, e ela dizia assim: “João quando é que me fazes o favor? Levas uma vela e atravessas daqui até alem à fortaleza, debaixo de água, abre-se um caminho à medida que tu vais passando!”. E o meu avô respondia-lhe: “Queres morrer morres tu, que eu não! Não sou parvo!”. E então ela volta e meia quando o meu avô passava e outros pescadores, não era só o meu avô, ela metia-se com ele e dizia-lhe. Houve alguns que fizeram o que ela pedia mas morreram afogados. A ingenuidade e a ignorância naquele tempo era muita e então alguns tentaram pois ela dizia “se fizeres isto desencantas-me” e então alguns tentaram, porque ela dizia que dava riqueza e que essa pessoa nunca mais passaria mal nem a família até à quinta geração dessa pessoa. Mas o meu avô nunca caiu nessa porque era velhaco e via logo que era impossível, que por dentro de água nunca se poderia fazer a passagem daqui (onde é hoje o T) até à fortaleza. Era atravessar o canal e todo o que era inteiramente impossível e então volta e meia ela metia-se com o meu avô e com outros pescadores naquele tempo. Mas havia outra irmã que era morena de cabelo comprido preto e então essa actuava noutro lugar. Elas nem sempre estavam ali e nem sempre apareciam, era lá de tempos em tempos que eles a viam mas era sempre antes do sol nascer porque eles iam de madrugada para o mar. Quando o pessoal trabalhava na fábrica ela [irmã da Floripes] deitava as pilhas das latas da conserva abaixo [as pessoas daquele tempo faziam pilhas das latas da conserva para levarem para a cravadeira que era onde se punha a tampa e dai cravava a tampa da conserva do peixe]. A Floripes era brincalhona mas a mana era má, o nome da irmã era Florbela mas eu não me lembro bem e então deitava as pilhas abaixo, empurrava-as, quando as pessoas iam à casa-de-banho puxava pelos cabelos, batia no rabo das mulheres, metia-se com elas, andava brincando e então as mulheres assustavam-se, tinham medo mas nessa altura poucas pessoas falavam na Floripes, agora já ultimamente, há quarenta anos é que as pessoas já sabiam que existia ali alguém, porque antes pensavam que era espíritos mas não era ela que brincava com as pessoas. Eu devia ter ai os meus sete anos e como morava aqui em baixo onde era o pingo doce [que é próximo da fabrica] e então nós juntávamo-nos, moços e moças e íamos para a fabrica velha, já ai se falava na Floripes. Íamos para a fabrica velha porque aquilo tinha sido abandonado mas ficou lá a maquinaria toda e então eu era muito aventureira e gostava muito de subir as escadas e pendurar-me nos debruços e então uma vez só eu fui lá brincar e aquela senhora [Floripes] mas como era tão natural como eu nunca imaginei que fosse uma pessoa encantada, apareceu e até me assustei, pensei que fosse a dona da casa ou isso e então ela disse-me: “Não faças isso, olha que podes cair e aleijas-te e tu tens um percurso muito doloroso pela tua frente e ainda tens uns aninhos para sofrer e então não faças isso, não venhas mais aqui. Deixa eles virem mas tu não venhas mais aqui que te pode acontecer alguma coisa e então a história da Floripes para mim acabou ai. O que ficou para trás ficou para trás e eu não voltei mais lá. Agora vamos à outra irmã, existia aqui um senhor que era o Baltazar, aqui na rua Carlos da Maia, que enriqueceu à conta da irmã da Floripes, conta a historia, aí eu já estou contando aquilo que conta a história. É assim, os encantamentos não recebem trocos e então aquela casa era enorme e o avô dessa família tinha uma espécie de tabacaria e uma casa de moeda, porque antigamente havia cá poucos bancos e ele emprestava e trocava dinheiro e então toda agente dizia que Baltazar enriqueceu à conta da irmã da Floripes, mas muita gente dizia que não era da irmã, era da Floripes, porque poucos sabiam que existiam duas irmãs. Mas o meu avô contava que existia duas, que elas se punham à janela a pentear aqueles lindos cabelos com um pente de prata, o meu avô diz que luzia, é porque seria de prata. Portanto dizem que a irmã da Floripes enriqueceu porque não dava troco e eles tinham uma casa enorme, tinha um quintalão enorme, era um jardim, era uma coisa grande e essa gente era gente que era pobre mas que por fim vivia bem e então o avô passou ao pai a casa da moeda. O que eu resumo da Floripes, que sei com fontes seguras que isso não é historia, nem lenda, foi verdadeiro. Segundo dizem, elas apaixonaram-se por cristãos, porque o nosso Algarve era Marrocos e elas e os pais tinham aqueles sábios antigos, que faziam encantamentos e então o castigo que lhes deu foi encantarem-se, portanto só eram vistas até antes do romper do dia, mais nada. Se houvesse alguém na realidade que as conseguisse desencantar essa pessoa ficaria bem e elas voltariam à vida normal, de uma pessoa normal e voltariam naturalmente para o país delas ou para as origens reais. Portanto da Floripes é mais ou menos o que eu sei e que se passou por alguém, da minha família (…) afirmo que não é lenda, foi verdade porque se passou com a minha família.

Fonte Biblio AA. VV., - Arquivo do CEAO (Recolhas Inéditas) Faro, n/a,

Ano2008

Place of collection Olhão, OLHÃO, FARO

ColectorNadine Pescada (F)

InformanteMarcelina Machado (F), 69 y.o., born at Olhão (OLHÃO) FARO,

Narrativa

When XX Century,

CrençaUnsure / Uncommitted

Classifications