Lenda da Água que Beba Dela

APL 2710

Silêncio quase absoluto.
Beatriz bordava, sozinha na pequena sala.
Lá fora, a atmosfera pesada punha ameaças de tempestade no cérebro e no coração das gentes. Uma inquietude estranha fazia agitar com mais rapidez do que seria necessário o braço da jovem Beatriz, conduzindo a agulha com mestria. Mas o ritmo do bordado seguia com o do seu pensamento. Quanto tempo teria de estar privada de ver e ouvir o seu bem amado? Amava em silêncio, porque tudo ali, naquela casa, tinha de ser feito em silêncio. O pai achava-a muito nova para pensar em casar. A madrinha, que a criara desde pequena após a morte da sua mãe, educara-a sim, mas não lhe dera amor! Quanto ao pai, embora sempre lhe testemunhasse grande carinho, tinha os seus múltiplos problemas e achava que uma donzela já poderia considerar-se feliz se tivesse um palácio, bom nome, fortuna e um pai que a amasse...
Tanto, na verdade, ela possuía. Contudo… não se sentia feliz!
Quando, certa tarde, vira Pedro de Trava pela primeira vez, os olhos de ambos gritaram logo uma jura de amor.
Sim, Pedro amava-a também! Apenas esperava o momento que ela encontrasse propício para a pedir ao pai. Para estas coisas, nem todas as ocasiões servem. Beatriz bem o sabia. Por isso aquela espera em silêncio. Um silêncio que a atormentava.
A porta da salinha de estar abriu-se quase sem ruído. Mas Beatriz pressentiu alguém entrar e olhou. Era D. Ximena, a madrinha. Tinha algo de fulgurante no olhar e Beatriz amedrontou-se. Numa voz que procurava ser afável, D. Ximena perguntou:
— Beatriz... Que tens? Porquê tanto afã no teu bordado?
Beatriz tentou sorrir.
— Trabalho para não me aborrecer.
D. Ximena sorriu também. Um sorriso estranho, que fez paralisar o braço de Beatriz. Tentava ler no íntimo daquela que a tinha criado mas que não aprendera a amar. A dama olhou-a também, com olhar penetrante. E a sua voz soou falsa aos ouvidos da donzela:
— Beatriz, sei que a minha presença não te basta… e o teu pai tem vários assuntos que lhe roubam o tempo. Daí esse tédio a espicaçar-te os nervos. A tua idade é perigosa... Estás, precisamente, na idade de amar...
D. Ximena calou-se. Mas o seu olhar continuava fixo no rosto de Beatriz, que se sentiu corar. Para disfarçar a sua confusão tentou dizer qualquer coisa.
— Senhora, as donzelas como eu quase não sabem se devem ou não amar... se é que isso é coisa dominável.
A dama então sorriu abertamente.
— Nada mais dominável que o amor!
Beatriz olhou-a de novo, intrigada. A madrinha continuava a sorrir. Parecia satisfeita. Pousou-lhe uma das mãos num ombro.
— A tua hora chegou, Beatriz!
O coração da jovem bateu forte. Mas tentou mais uma vez disfarçar o tumulto da sua alma.
— Meu pai não será talvez da mesma opinião...
D. Ximena passou-lhe os dedos pelos cabelos, gesto que Beatriz não se lembrava de jamais lhe ter notado.
— Conheço a opinião de teu pai. Por isso estou falando contigo desse assunto, para te dizer que podes contar com a minha ajuda...
Beatriz olhou a madrinha bem de frente, receosa de que fosse ilusão ou pura brincadeira. Notou-lhe uma estranha expressão de triunfo, mas confundiu-a com a de sincera alegria. Levantou-se e tomou-lhe a mão, num gesto quase infantil.
— Ai, minha madrinha, como estou contente! Pedro é bom... valente... nobre...
Num gesto seco, D. Ximena sacudiu a mão de Beatriz. A sua voz era agora áspera. O sorriso desaparecera-lhe.
— Pedro?...
Aturdida, Beatriz murmurou, já a medo:
— Sim...
D. Ximena baixou a voz, sibilando quase:
— Referes-te... ao conde Pedro de Trava?
Cada vez mais assustada, Beatriz concordou:
— Sim... refiro-me a Pedro de Trava... Não era a Pedro que desejáveis ajudar?
A resposta veio breve e seca:
— Não!
— Então... não compreendo o vosso desejo de ajuda... Como quereis ajudar-me?
— Vou explicar-te: é meu intento casar-te com meu sobrinho, o nobre Raimundo de Toscana. E casar-te quanto antes!
Beatriz olhou-a com horror.
— Não, a senhora não fará isso!... Nem sequer conheço o vosso sobrinho...
D. Ximena encolheu os ombros.
— Terás tempo de sobra para o conhecer.
Beatriz mordeu os lábios, para evitar a fraqueza de chorar. Queria mostrar-se forte.
— Meu pai não quer casar-me por enquanto!
D. Ximena encolheu de novo os ombros.
— Não me aflige a vontade de teu pai. Vive agarrado às suas terras e ao seu dinheiro. Mas é tempo de ir pensando no teu dote… que deve ser avultado...
Beatriz olhou com desprezo a dama que lhe falava. Sentiu-se de súbito fortalecida.
— É então o meu dote que está em causa?...
O rosto de D. Ximena tornou-se lívido.
— Como ousas falar-me assim? Ouve o que tenho a dizer-te. Não sei quando nem como conheceste Pedro de Trava. Também não me interessam as juras que tenham trocado. Deliberei casar-te com Raimundo e casarás com ele, mesmo que o teu coração neste momento não lhe pertença! Falaremos com teu pai, amanhã de manhã. Quando o Sol voltar a nascer, terá mais uma incumbência: anunciar o teu primeiro dia de noivado!
E sem mais acrescentar nem querer ouvir, D. Ximena saiu da salinha — onde Beatriz ficou, por momentos, como petrificada. Encostou-se depois a um móvel, tentando acalmar o seu espírito em confusão. Mas já a sua dama de companhia corria ao seu encontro:
— Estais bem, D. Beatriz?
A jovem recuperou um pouco mais a lucidez.
— Aproxima-te, Juliana. Preciso de ti. Viste a minha madrinha?
— Sim… via-a quando saía... Ia tão apressada, tão pálida, tão nervosa, que me assustei!
— Ouve, Juliana: ela quer casar-me com o sobrinho, D. Raimundo!
A rapariga abriu os olhos num espanto.
— Aquele gorducho que só faz o que ela manda?
— Sim, esse.
— Ó céus! E que havemos de fazer?
— Vai imediatamente ao castelo dos Travas e pede para falares com o jovem conde. Vê lá, não te enganes! Só falarás com Pedro! E conta-lhe tudo.
— Sim, D. Beatriz, assim farei. Mas terei de sair daqui sem ser vista.
— Arranja-te como puderes. E diz mais: é necessário que Pedro venha amanhã de manhã pedir-me a meu pai!

A noite começou a cair lentamente. Beatriz não viu mais a sua dama de companhia. Em dado momento, D. Ximena perguntou por ela. Beatriz sobressaltou-se. E mentiu:
— Foi arranjar-me linhas para o meu bordado. Deve andar por aí.
A dama franziu as sobrancelhas e ficou um momento estática. Depois saiu da sala. Quando voltou, vinha colérica.
— Encontrei Juliana, mas justificou sua ausência com o arranjo de um vestido teu... e estava totalmente esquecida das linhas. Para castigo de tanta impostura, vais já para a cama... sem a ajuda de Juliana!
Beatriz obedeceu, sorrindo. Juliana já voltara e o facto de poder estar agora sozinha com os seus pensamentos era para a jovem mais apetecível do que a companhia da velha dama. Ao entrar no quarto, Juliana apareceu-lhe de repente.
— D. Beatriz! Dei o recado e o senhor conde diz para ficardes descansada. Ele virá de manhã falar com o vosso pai.
E, dando meia volta, a rapariga desapareceu nos corredores, veloz como uma gazela.

Beatriz não dormiu toda a noite. Como eram longas as noites de espera! Jamais o Sol lhe viria a parecer tão preguiçoso. Mas quando ele chegou, cheio de força e de beleza, a inquietude de Beatriz não serenou. Todo o seu pensamento estava preso na decisão do pai. Se ao menos o tivesse visto… lhe tivesse falado! Mas D. Ximena afastara-a dele. Propositadamente, bem o sabia. Oh! que espécie de mulher era a que fora escolhida para a educar e criar!
O tempo parecia arrastar-se como serpente no chão. Nem D. Ximena, nem Juliana apareciam. Teria acontecido alguma coisa à rapariga? Talvez D. Ximena a tivesse castigado, quando se vira em face do outro pretendente à sua mão. E qual seria a decisão do pai? Qual seria?
Foi até à porta para tentar saber o que se estava passando. Porém, a porta estava fechada. A revolta assediou-a. Presa! — pensou. D. Ximena mantinha-a em clausura. Porquê? Porque Pedro de Trava viera, decerto! Daí o seu ódio, o seu desejo de agir mais livremente.
Bateu com os punhos na madeira. Bateu loucamente, como quem deseja fugir ao perigo. Ouviu passos apressados. Depois, a porta abriu-se e o pai entrou, sozinho. Estava visivelmente contrariado.
— Que alarido é este?
Beatriz amarfanhou no peito toda a sua ansiedade.
— Senhor! Queria sair... e a porta não se abria!
— Que ideia! Abri-a sem esforço. Onde está Juliana?
— Ainda hoje a não vi.
— E a tua madrinha?
— Estive sempre só, meu pai.
— Que dia estranho!
Fez uma pequena pausa. Passou a mão pelas barbas esguias e olhou a filha de frente.
— Beatriz! Acabo de receber dois pedidos de casamento para a minha única filha. Dois pedidos... e quase à mesma hora!
O coração de Beatriz batia aflitivamente. Perguntou a medo:
— E... que respondestes, meu pai?
O fidalgo voltou a cofiar as barbas já grisalhas. Sorriu, intimamente satisfeito.
— Respondi um sim à minha maneira.
Foi a vez de Beatriz ficar intrigada.
— Um sim… aos dois?
O pai continuava a sorrir...
— Pois é verdade: um sim aos dois!
Alarmada, julgando não ter ouvido bem, Beatriz exclamou:
— Mas é impossível!
Uma risada ecoou no aposento.
— Claro que é impossível! Mas nenhum dos teus pretendentes poderá dizer que o excluí! Serão eles os primeiros a desistirem...
Beatriz arriscou:
— Senhor… mas esse processo...
— Que processo?
— De... dizer sim a dois...
O fidalgo riu de novo. Os seus olhos piscos fitaram a filha com malícia.
— Usei um velho ardil.
— Um ardil?
— Ora, estes pedidos de casamento surpreenderam-me bastante. Confesso que não esperava fazer-te sair já da minha tutela. Todavia… se houvesse entre os pretendentes alguém que pudesse portar-se à altura de te merecer...
O fidalgo fez um ligeira pausa. Beatriz parecia nem respirar. Ele continuou:
— Enfim, livrei-me deles dizendo que cederia a mão de minha filha Beatriz àquele que primeiro desse cumprimento a um destes meus dois desejos: um dos pretendentes, à escolha, teria de colocar, sozinho, a cúpula na igreja desta terra; o outro, de trazer a água da levada de S. Romão até à vista deste solar.
Beatriz sentou-se numa cadeira.
— Mas o primeiro é inteiramente impossível!
O fidalgo riu.
— O que elimina já um dos concorrentes! Quanto à levada, não marquei tempo... e até lá...
— Qual deles escolheu a levada?
O fidalgo sorriu com desprezo.
— A tua madrinha exigiu essa cláusula para Raimundo de Toseana. Mas está furiosa comigo. Acha-a abominável!
Riu de novo, alto, não reparando sequer na palidez de Beatriz.
Ela interrogou ainda:
— E... o outro?
— O outro? Oh! É decerto um visionário. Em vez de desistir, agradeceu-me a grande honra que lhe concedia e... aceitou!
Beatriz sentiu o coração bater-lhe ainda mais forte. Mas já o pai lhe passava o braço pelos ombros e a fazia descer até ao salão, dizendo:
— Vamos passear um pouco. Precisamos de ar puro!
 
Alguns dias passaram. Dias de ansiedade e solidão para Beatriz. Juliana — segundo lhe haviam dito — fora a casa dos pais tratar de um deles que adoecera. E D. Ximena parecia demasiado ocupada com outros assuntos e não encontrava tempo livre para fazer companhia à afilhada. Quanto a Pedro, só na véspera lhe enviara um estranho recado pelo tratador dos cavalos. E o recado repetia-o ela, vezes sem conta, no mais íntimo do seu ser: «Só Deus nos poderá ajudar amanhã.» Confiava no seu bem-amado. Mas que poderia ele fazer? Esse «amanhã» acabava de chegar e nada de novo vinha até ela.
De súbito, D. Ximena entrou, cortando-lhe os pensamentos. Vinha mais altiva e agreste do que nunca. Foi logo direita ao assunto:
— Beatriz! D. Raimundo começou já a dar provas do seu grande amor por ti! Um fidalgo como ele, cavando, sozinho, a terra dura, para ter direito à tua mão, é na verdade enternecedor!
Beatriz replicou:
— Pelo menos, dá provas de uma cega obediência!
A dama olhou-a, empertigada:
— Obediência?... A quem?
Altiva, a jovem respondeu:
— A vós… minha madrinha!
D. Ximena falou com mais rispidez:
— Pensas então que ele age por obediência? Enganas-te. Ele ama-te, Beatriz! Enquanto o outro nada faz para merecer-te!
Beatriz sentiu-se ferida. Revoltou-se.
— O outro, como a madrinha diz, irá em breve à nossa igreja colocar a cúpula, na presença de fidalgõs amigos da nossa casa.
A dama alarmou-se:
— Como o sabes? Quem te disse essa patranha?
— O meu coração que não falha!
— Louca! Colocar a cúpula! Bem sabes que isso é humanamente impossível. Teu pai exigiu duas provas para que só um fosse beneficiado. E o primeiro a escolher a única realizável foi o meu sobrinho e teu noivo!
Beatriz mordeu os lábios antes de responder.
— A levada ainda vem longe!
— Mas ele trabalhará sem descanso! E chegará aqui! Enquanto o outro, nem hoje nem nunca colocará a cúpula na igreja!
— A Deus nada é impossível! Ele e eu acreditamos que o Senhor nos ajudará... para confundir os ambiciosos!
— Decerto estás louca e ofendes-me! Esquece esse homem... porque já é tarde para pensares nele!
— Nunca é tarde quando Deus quer! Pedro é bom e leal. Nós confiamos em Deus!
— Não estás em teu juízo! Porque repudias Raimundo, o único que poderá ser teu esposo?
Beatriz tremia de desespero:
— Deixai-me só! Preciso orar!
D. Ximena riu com nervosismo.
— Orar! Orar! Que pode Deus fazer neste caso?...
 
No corredor surgiram então passos apressados. As duas mulheres calaram-se, olhando ansiosamente a porta de entrada. E o velho fidalgo surgiu, com uma expressão de espanto no olhar. Dirigiu-se à filha:
— Beatriz! O conde Pedro de Trava acaba de colocar a cúpula na igreja, perante numerosa assistência! O caso não tem precedentes! Dei-lhe a tua mão!
A jovem caiu nos braços do pai, soluçando. E D. Ximena, praguejando entre dentes, saiu espavorida.
Sós, pai e filha ficaram assim largo tempo abraçados. Depois, meigamente, ele falou:
— Como poderia supor que amavas tanto esse homem e que ele te amava tanto? Dei-lhe para realizar um cometimento que julguei impossível. Mas ele, depois de orar largo tempo, colocou sozinho a cúpula, sem demonstrar grande esforço. A jovem conseguiu falar:
— Louvado seja Deus! E onde está Pedro?
— Na igreja. Voltou a prostrar-se de joelhos. Mais logo será recebido aqui, com as honras que ele e tu merecem. Convidei vários amigos. Espero que sejas feliz!
Beijando as mãos do pai, Beatriz exclamou:
— Serei a mais venturosa das mulheres!
 
Entretanto D. Ximena corria como louca direita à levada que já vinha próxima. Ao chegar junto do sobrinho, gritou-lhe com fúria:
— Que fazeis, imbecil!
Ele suspendeu o seu árduo trabalho e tentou explicar.
— Falta já pouco! Dentro de algumas horas estarei à porta do solar! Vede como corre a água!
— Pois beba dela, seu pateta! Beba dela porque o outro já colocou a cúpula!
Raimundo sentou-se com desânimo no próprio chão molhado. Alguns populares riam à socapa e repetiam a frase de D. Ximena.
— Que beba dela!... Que beba dela!...
E assim, andando de boca em boca, nasceu o nome de Bobadela à pitoresca povoação pertencente ao concelho de Oliveira do Hospital.

Fonte Biblio MARQUES, Gentil Lendas de Portugal Lisboa, Círculo de Leitores, 1997 [1962] , p.Volume I, pp. 157-164

Place of collection Bobadela, OLIVEIRA DO HOSPITAL, COIMBRA

Narrativa

When

CrençaUnsure / Uncommitted

Classifications