Lenda da Bela Lusitana

APL 3013

Foi nos montes Hermínios que a Bela Lusitana perpetuou o seu amor numa lenda que ainda hoje se recorda. Chamava-se a jovem camponesa Fórcia, um nome estranho que a História não guarda. Ele, guardador de gado, chamava-se Auro e vivia feliz, embora sob a ameaça constante de Roma.

Clareava a manhã. Um vento fresco descia da serra. Auro e o gado subiam devagar. De súbito, ouviu o seu nome e logo reconheceu quem o chamava. Surpreendeu-se:
— Fórcia! Que vieste aqui fazer tão cedo?
Ela parecia cansada de tanto correr.
— Vim avisar-te! Penso que deves partir com os teus irmãos e os meus para terras do Douro. As legiões vão punir com a morte quem lhes desobedecer!
Ele fingiu à-vontade.
— Ouve, meu amor. Não sou eu que não quero viver no vale: são os animais. Vê como eles se sentem bem cá em cima!
— Mas os romanos querem-nos em local onde nos possam ter nas mãos! Aqui, no cimo, só traidores, como Dictaleão, podem matar o Viriato que existe ainda em cada um de nós!
O jovem acariciou a sua bem-amada.
— Tens razão. Mas, acredita: eu não sei desertar.
— Mas não será desertar! É procurar abrigo noutro canto da nossa terra. Eu também vou!
Ele empalideceu.
— Sempre vais?
— Meus irmãos assim o querem.
O jovem pastor ficou uns instantes calado. Depois disse:
— Fórcia! Eu quero-te mais do que a mim mesmo. Mas, aqui, mereço-te porque sou poderoso. Tenho muitas terras… muito gado. Porém, as terras não as posso levar comigo. E o gado... será difícil! Que serei eu depois?
— Todos nós levamos o menos possível.
— E encontraremos lá a paz desejada? O imperador enviará as suas legiões atrás de nós. Para quê, pois, fugir?
Resoluto, acrescentou:
— Não, Fórcia! Eu fico onde Viriato morreu!
— É a tua última palavra?
— É.
— E nunca mais me verás?
— Sei que te verei...
— Porquê?
— Porque ficarás comigo!
A jovem sorriu. Atirou-se-lhe ao peito. Murmurou:
— Como eu te conheço... e tu me conheces! Sim, ficarei contigo! Vinha dizer-te que os meus irmãos acabam de partir. Os homens de Sertório vêm próximo. Ao menos... vem cá para baixo. Deixa ver o que eles querem. Dizem que Sertório não é mau. Antes ele que Pompeu.
— Que sabes tu de guerras?
— Mas sei o suficiente dos homens!
Auro acariciou-lhe os cabelos.
— Tenho medo!
—Medo, tu? De quê?
— De que te levem! És bela em demasia. Se te virem, cobiçam-te! Tenho de esconder-te, como o meu melhor tesouro.
Ela riu.
— Pois esconde! Por mim te juro que só a ti pertencerei!

Um ano passou. Dozes meses cheios de preocupações. Auro fora recrutado para as legiões como soldado lusitano vencido. E, com grande mágoa do jovem e de Fórcia, partiu para a Grécia. Homens como Auro eram perigosos na Lusitânia!
Só, Fórcia saiu do seu esconderijo. Precisava de obter notícias do noivo, pois ele era toda a razão da sua existência. Mas um dia a notícia chegou: Auro encontrara a morte, longe da sua pátria e da sua bem-amada, lutando por um ideal que nem era o seu. Fórcia julgou morrer. Chorou noites e dias consecutivos. Mal se alimentando, teria morrido se não fora a sua forte compleição. Vendo que resistia e incapaz de se dar à morte, deixou de se esconder. Ia à fonte buscar água para as legiões. Ia e vinha em silêncio como bela estátua de mármore. Ninguém lhe via um sorriso ou lhe ouvia um queixume. Dir-se-ia serena. Mas o olhar, embora arredio, continuava dando à sua expressão uma beleza estranha, inconfundível.
Cedo os romanos começaram a reparar na rapariga triste que ia à fonte. Cortejavam-na em vão. E entre todos esses homens havia um chamado Lupo que a desejava ardentemente. Certa tarde, depois de várias perseguições, resolveu barrar-lhe o caminho com a ajuda de um amigo. Vendo-os, Fórcia resistiu. Mas Lupo imobilizou-a, segurando-lhe os pulsos.
— Sei que te chamas Fórcia e não ignoras o meu nome. Também calculas quanto te amo. As outras raparigas procuram-me. Porque me repudias?
Pela primeira vez ela falou:
— Porque não poderei amar-te.
— Mas porquê? Porquê? És nova… és bela… eu serei em breve centurião!
— Nem que fosses o próprio imperador!
— Não cabe então o amor dentro do teu peito?
— Arde em chama alta, como vulgarmente acontece quando é verdadeiro.
— E então?
— Amo alguém que já não existe!
— Não existe?
— Morreu na Grécia, ao serviço do teu imperador.
— Pois estás livre para amares outro homem!
— Tão pouco entendes tu do que é o amor? Quando nos queremos como eu e Auro, jamais poderemos permitir que alguém se meta de permeio!
— Mas se o teu noivo morreu... porque esperas?
— Que a morte venha também buscar-me! E agora que já sabes o que me atormenta, deixa-me em paz e escolhe uma dessas muitas que te desejam!
Fórcia dispunha-se a continuar o caminho. Lupo fez sinal ao amigo para que os deixasse e agarrou a rapariga por um braço.
— Ouve! Eu sei quem era o teu namorado. Algumas das tuas companheiras falaram-me dele. Era alto e forte como eu. Dizem que se parecia comigo. É verdade?
Fórcia olhou o soldado com tristeza. Depois elucidou-o:
— Na verdade, pareces-te com ele. Mas Auro era incapaz de perseguir como tu uma mulher que o não amasse. Tinha dignidade. É o que te falta.
Lupo sentiu-se ferido. E ripostou:
— Não confundas dignidade com cobardia!
— São inconfundíveis.
— Eu luto pelo que quero e consigo tê-lo. Ele abandonou a luta para se entregar às nossas legiões!
Fórcia olhou o soldado como se o qüisesse trespassar com lança invisível. A respiração alterou-se-lhe.
— Se eu fosse homem, matava-te por essas palavras! Sabes lá o que Auro era capaz de fazer! O que ele te faria se fosse vivo e te encontrasse neste momento!
— Então porque partiu?
— Jamais seria capaz de fugir com os nossos irmãos. Ficou na ânsia de ver liberto este solo sagrado. Porém… não poderá ser ainda, porque ficámos poucos e a traição matou Viriato!
O soldado romano insistiu:
— Mas porque partiu ele? Se eu tivesse uma noiva como tu, nunca a abandonaria!
Fórcia respirou fundo. As lágrimas inundaram-lhe os olhos.
— Fui eu a culpada! Se ele ficasse… seria outro Viriato. E os traidores... existiram sempre e sempre hão-de existir. Se ficasse, pensei que o veria morrer. Sertório pareceu-me honesto. Fui falar com ele...
Lupo interrompeu-a:
— Falaste com Sertório?
Falei.
— Aqui?
— Não, bem o sabes. Porque o perguntas? Julgas que te minto? Falei com Sertório e ele falou com Auro. Convidou-o a partir, pois sabia-o irrequieto. Se voltasse... o que seria dentro de dois anos... se voltasse, Sertório concedia-nos uma liberdade relativa. Ele é dos romanos que mais se parecem com Viriato. O único que possui a minha simpatia. Quando Auro morreu, mandou chamar-me e quis que eu ficasse no seu palácio. Recusei. Não por soberba. Mas para reviver aqui o tempo que passámos antes da vossa vinda. Mas ai daquele que tentar roubar-me o meu sossego! Deixem-me só com as minhas recordações! Sai do meu caminho e esquece-me!
Lupo avançou em vez de recuar.
— Não te deixarei mais! Hás-de esquecê-lo!
Ela teve um trejeito de troça.
— Como? Se fisicamente te pareces com ele — facto que mo faz recordar cada vez mais —, no espírito estás bem longe do que ele era. Perde as esperanças e deixa-me!
O romano rneneou a cabeça.
— Fórcia! És a lusitana mais bela que vi até hoje! Amo-te e não poderei viver sem ti!
— Pois eu jurei que só a Auro amaria e cumprirei a minha jura, nem que para isso tenha de recorrer a Sertório.
— Serias capaz de tanto?
— Serei capaz de tudo!
— Pois experimenta!
— Verás!
E forçando a passagem, Fórcia correu pela serra a caminho da sua tenda.
No dia seguinte, não a viram no lugar. Deitaram as culpas ao jovem romano, que jurava não lhe ter tocado. Pouco tempo depois, era Lupo chamado para as tropas de Sula. Quando lhe deram a notícia, teve apenas um comentário:
— Isto é obra da Bela Lusitana!
E quando Sertório morreu na cilada que lhe prepararam, entre as mulheres que o choravam sentidamente uma havia que se distinguia pela palidez extrema do seu rosto e pela tristeza infinita do seu olhar: a Bela Lusitana.

Fonte Biblio MARQUES, Gentil Lendas de Portugal Lisboa, Círculo de Leitores, 1997 [1962] , p.Volume V, pp. 123-127

Place of collection-, SEIA, GUARDA

Narrativa

When I Century,

CrençaUnsure / Uncommitted

Classifications