Lenda da Benquerença

APL 2716

Há histórias populares que valem, na verdade, como símbolos de amizade e de fé. Esta é uma delas. Conta a voz da tradição que existiam outrora no sopé da serra de Santa Marta três pequenos povoados, os quais rivalizavam entre si pela sua importância e pelas suas festas.

Num desses três povoados vivia um homem chamado Simão, que era tido e havido como muito sabedor nas coisas da vida. Dizia-se que ele chegara a estudar para doutor. E embora não tivesse acabado o curso, por falta de dinheiro, aprendera muito, lá na cidade distante...
Aliás, Simão não negava a ideia dos seus conterrâneos e confessava:
— Sim, meus amigos!... Não há segredo que eu não conheça... Foi para isso que estudei... para descobrir aquilo que os outros não sabem… Por isso eu fico até altas horas da noite a ler os meus alfarrábios... E para saber mais, meus bons amigos!
E sorrindo, rematava com um conceito muito seu, que também aprendera na cidade:
— Quanto mais a gente sabe, mais quer saber...
Por tudo isso, Simão era um motivo de orgulho para o povoado, de que nem sequer se invocava o nome.
Dizia-se apenas: «É a terra do Doutor Simão»...
 
Noutro dos três povoados, havia uma rapariga que tinha grande fama de bondade. Era a protectora de todos os pobres que por ali apareciam. Dava-lhes de comer, agasalhava-os e falava-lhes docemente.
— Tenho tanta pena de vós outros!... Lembro-me sempre do meu santo avozinho... Tinha umas barbas enormes, muito negras, e um olhar doce, assim como alguns de vós tendes também... E agora, ides para muito longe ainda?... Se quiserdes, podeis levar mais pão. Eu vivo sozinha, não preciso de nada. Irei acompanhar-vos até ao fim da estrada. E espero que volteis, um dia... Bem sabeis: quando quiserdes, aqui estou às vossas ordens...
E quando se falava nesse povoado, as pessoas davam-lhe um nome curioso: «A terra da Boa Rapariga»...
 
Finalmente, no terceiro povoado destacava-se o forte Guilherme, que tinha sido soldado e agora era ferrador. Robusto, atlético, fazendo da força a sua melhor arma e a sua maior virtude, Guilherme gozava da simpatia geral. Estava sempre pronto a auxiliar quem precisasse dele. E costumava dizer:
— Pois claro... A gente nasceu para se ajudar uns aos outros. Eu cá sou assim mesmo... Tenho uns braços fortes, lá isso tenho. Mas, graças a Deus, os meus braços nunca fizeram mal.
E batendo com violência no peito, alto e saliente, ele apregoava bem à sua maneira:
— Cá o Guilherme ferrador tem muita prosápia do que vale... Mas é uma boa alma, acreditem!

Conforme se conta, de tal modo se propagaram de terra em terra as virtudes da Boa Rapariga, do Doutor Simão e do forte Guilherme, que os dois homens acabaram por ter curiosidade de conhecer aquela que não negava um sorriso ou uma palavra de conforto a quem quer que fosse.
Guilherme, o ferrador, foi o primeiro a tomar a iniciativa.
— Eh, rapazes!... Vocês agora tomem conta disto, sim?... E livrem-se de fazer asneiras!... Eu vou aqui ao povoado vizinho… tratar de negócios...
Sorriu, em reflexo de qualquer pensamento íntimo, e continuou, num tom de voz mais alegre e decidido:
— Espero não demorar muito... E... enfim... talvez venha acompanhado...
Os outros, que já tinham descoberto o segredo, riram-se abertamente. Mas, apesar de desconfiado, o forte Guilherme não se atrapalhou.
— De que se riem vocês?... Bem sabem que uma mulher faz bastante falta nesta terra... Bem, cuidado com o trabalho... e até à volta!
Entretanto, o Doutor Simão, mais ou menos por essa altura, também se despedia dos seus conterrâneos.
— Meus bons amigos... Um assunto de certa gravidade obriga-me a ir até ao povoado vizinho.
Suspirou fundo e acentuou:
— Eu sou como S. Tomé, meus amigos... Ver para crer... Nada há melhor do que isso!
Fez logo um gesto largo, a acalmar os mais receosos pela sua partida.
— Descansem… não mudarei de terra! De qualquer modo, hei-de voltar em breve.
Tossiu, hesitou um pouco e disse depois, com voz menos segura:
— E possível que venha acompanhado... Há muito tempo que sonho com uma companheira... Vamos a ver!... Vamos a ver...
 
Mas quis a Desgraça — a Desgraça ou o Destino, com os seus caprichos — que nessa mesma época chegasse àquelas paragens uma terrível epidemia...
E uma das primeiras vítimas — pois, abnegadamente, expôs a sua vida para salvar muitas outras vidas — foi a Boa Rapariga.
Ela sentiu-se sucumbir e despediu-se de todos que a rodeavam:
— Eu morro... porém, morro tranquila... Não vos importeis comigo!... O que é preciso é salvar os outros...
Soergueu-se um pouco, a ganhar forças e a tentar respirar melhor.
— Quanto a mim, deixai-me tal como estou... Já não me posso salvar!
Mas do grupo dos presentes destacou-se imediatamente um homem alto e forte, que exclamou:
— Engana-se, menina... Eu cá não vou deixá-la morrer... Hei-de salvá-la!
A rapariga pareceu ficar atónita.
— Mas... quem sois?... Não vos conheço...
— Sou o Guilherme... aqui do povoado vizinho!
Ela fez um esforço, a concentrar-se.
— Ah, já sei... Aquele a quem chamam Guilherme, o ferrador, não é verdade?... Tenho ouvido falar de vós, da vossa força...
Guilherme arreganhou os lábios grossos num sorriso.
—Vê? A menina também me conhece... Pois eu estou aqui para a salvar. Nem a morte se atreve a lutar comigo!
Um tom de tristeza passou pela voz da rapariga.
— Não deveis falar assim, senhor Guilherme!
Ele alargou os ombros e encheu o peito de ar, numa atitude de poderio.
— Já lhe disse, menina. Vim cá para levar vossemecê comigo, para o meu povoado... E hei-de levá-la, custe o que custar!
Então, outro homem destacou-se igualmente do grupo dos circunstantes, e avançou solenemente até ao leito da enferma, dizendo:
— Perdão!... Quem a vai salvar, sou eu!... E quem a vai levar... sou eu também!
Mais atónita ainda, a rapariga volveu o olhar para o novo visitante.
— Oh, meu Deus!... E vós… vós… quem sois?
Com um ar muito digno, o homem respondeu apenas:
— Meu nome é Simão... Simão, aquele a quem chamam o Doutor!
Depois passeou o olhar sobre os presentes, lentamente, e disse com voz segura:
— Preciso de inocular-lhe sangue novo nas veias para a poder salvar, senhora... Mas para tal necessito também de encontrar rapidamemente sangue forte, sangue bom...
Guilherme, o ferrador, avançou logo para ele.
— Ah, lá para isso aqui tem já o meu!... Tire quanto quiser... Não há melhor em todas as redondezas! Mas olhe que ponho uma condição para dar o meu sangue...
Houve um momento de expectativa.
— Uma condição? Qual?
— Ora, quem depois vai levar a rapariga… serei eu!
O Doutor Simão sorriu. Um sorriso dúbio. E limitou-se a sentenciar:
— Depois veremos… Ela própria resolverá!
 
Durante dias e noites, os dois homens lutaram contra a morte, incansavelmente, para salvar a Boa Rapariga…
E acabaram por vencer!... A sabedoria dum ligada à força do outro conseguiram pôr a rapariga sã e salva.
Ela própria reconheceu essa vitória extraordinária, que julgara completamente impossível.
— Obrigada, meus amigos... Obrigada de todo o coração!... Nem sei como agradecer-vos!
Guilherme, o ferrador, adiantou-se, torcendo o chapéu largo nas sua mãos calosas e grandes.
— Espero que se resolva a ir comigo, menina… No meu povoado já a esperam!
Mas logo o Doutor Simão, com a dignidade habitual, avançou também.
— Espero que preferireis acompanhar-me, Senhora!
Ela olhou, ora para um, ora para outro. Depois sorriu. Sentou-se no meio de ambos e declarou:
— Meus queridos amigos, pedis uma coisa impossível. Pensai bem, por favor! Enquanto a epidemia durar, eu não posso, eu não devo sair daqui... Toda esta gente precisa de mim.
Houve um silêncio. E a rapariga acentuou:
— Ide para as vossas terras, bons amigos. Infelizmente, a epidemia também chegará até lá. E os vossos conterrâneos precisarão de vós, assim como os meus precisam de mim!

E tudo aconteceu, de facto, como previra a rapariga. A epidemia propagou-se de modo brutal por todas as terras vizinhas, semeando a morte, o luto, a desolação.
Foi então, segundo se diz, que a Boa Rapariga teve uma ideia maravilhosa. Mandou chamar os seus dois salvadores e disse-lhes:
— Guilherme... Simão... Sabeis o que pensei? Não podemos nem devemos continuar a viver nestas terras amaldiçoadas. A morte não mais sairá daqui. E por isso mesmo lembrei-me que poderíamos juntar os nossos três povoados num só, noutro local... Que achais?
Eles entreolharam-se, antes de responder. Foi Guilherme, o ferrador, quem falou primeiro:
— Mas... e a menina… com qual de nós ficará?
O Doutor Simão foi mais directamente ao fim:
— Acho bem, Senhora... desde que caseis comigo!
Mas a Boa Rapariga ergueu as mãos num gesto de paz.
— Pois não compreendestes, bons amigos? Ficaremos todos juntos, percebeis?... Em vez do amor, criaremos a amizade... a benquerença de todos nós.
Guilherme deixou-se logo contagiar pelo entusiasmo da rapariga.
—Tem razão, menina. Se formos todos bons amigos, poderemos fazer uma grande terra!
Depois, o Doutor Simão baixou a cabeça, filosoficamente, dando a sua aprovação:
— Também concordo. A minha sabedoria, a vossa bondade, Senhora, e a força do Guilherme... serão um autêntico símbolo de amizade!
Feliz, sorridente, a rapariga rodeou com os braços os ombros dos dois homens, e proclamou para o futuro:
— Melhor do que isso, amigos... Sabedoria, bondade e força serão os símbolos de Benquerença, a nossa nova terra!

E assim nasceu, segundo contaram e recontaram os antigos até aos dias de hoje, da fusão de três povoados, ali no sopé da serra de Santa Marta, a doze quilómetros de Penamacor, a actual e pitoresca freguesia de Benquerença.

Fonte Biblio MARQUES, Gentil Lendas de Portugal Lisboa, Círculo de Leitores, 1997 [1962] , p.Volume I, pp. 215-219

Place of collection Benquerença, PENAMACOR, CASTELO BRANCO

Narrativa

When

CrençaUnsure / Uncommitted

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