Lenda da Bezelga

APL 2706

Era uma noite de luar. Noite de poesia. Noite de Primavera. Tínhamos parado ali, em caravana alegre e ruidosa. Regressávamos de uma linda festa de jogos florais na cidade de Viseu. Talvez por isso mesmo o ambiente parecia-nos ainda mais poético.
Estávamos em pleno Ribatejo. À nossa volta tudo era verdura. Um poema de verdura e de encanto, plantado à margem duma pequena ribeira.
 
Procurei saber o nome da ribeira e do sítio. Disseram-me que ambos se chamavam Bezelga. Seria da minha imaginação ou esse nome, na verdade, também me cheirava a poesia?
Havia tempo para descansar e eu procurei estabelecer conversa com os meus amáveis informadores da região.
— Esta terra tem alguma história?
Que sim, que sim, afirmaram eles imediatamente. E o mais velho, de barba rala e olhar bondoso, apontou com a mão, enrugada pelo tempo e pelo trabalho, para um pequeno monte que se via ao longe.
— Olhe... olhe aquele outeiro, meu senhor... Dizem que é sinal de que houve aqui uma cidade muito importante... Até lhe chamam o «Outeiro da Cevedade».
Olhei melhor. Batido pelo luar, o monte parecia-me estranho e atraente. Quase sem querer, dei por mim a comentar:
— Até parece que brilha!
— Isso mesmo, meu senhor! Pode ter a certeza que brilha...
— Por causa das pepitas de ouro que estão enterradas na terra...
— Em noites assim, é quando o tesoiro se vê melhor!
E os três homens bons e amigos não mais me deixaram. Queriam contar-me a história. Que, verdade verdadinha, eu também não os deixaria sem que me contassem a história...
A eles, aos três humildes narradores dessa bela noite de luar, aqui ofereço e dedico a minha versão da lenda que me ensinaram, completando-se uns aos outros, e zangando-se até, às vezes, por via de qualquer pequena variante.

Tudo começou, afinal, no dia em que certa princesa chegou de visita à cidade remota que ali se erguia, imponente e sumptuosa, em frente do local onde existe hoje apenas o pequeno «Outeiro da Cevedade»...
Em sua honra, fizeram-se festas e realizaram-se combates. Mas um desses combates foi terrível, pois transformou-se quase em luta de vida ou de morte. E isso porque os dois combatentes tinham resolvido jogar entre si a conquista da bela princesa...
Ela chamava-se Bezulce. Dos dois rivais, um tinha o nome singular de Elga, e era extraordinariamente rico; o outro denominava-se Flavius, e era extremamente pobre.
O vencedor foi Flavius. E a formosa Bezulce chamou-o logo à sua tribuna.
— Quero felicitar-vos por tão brilhante vitória...
Os olhos azuis do triunfador luziram de alegria.
— Senhora, nada mais pretendi do que agradar-vos.
Ela sorriu. Lisonjeada e surpreendida.
— Então... e a vossa valentia não conta?
O azul dos olhos tornou-se ainda mais doce.
— Que pode valer a minha valentia… como dizeis... ao pé da vossa beleza?
Ela pareceu compreender a intenção de tais palavras. Mas, discretamente, mudou de assunto.
— Dizei-me, Flavius... Que prémio desejais para tão grande vitória?
Ele ergueu a cabeça. Tomou-se mais forte e mais alto. E atreveu-se a dizer:
— Senhora, perdoai-me a ousadia... mas só um prémio posso desejar: o vosso coração, Senhora!
Houve um silêncio. Ela, a pensar. Ele, a fitá-la. Depois, a Princesa Bezulce, como se tivesse levado tempo a escutá-lo, perguntou, em ar de fingida surpresa:
— Que dizeis, Flavius?
Mas o cavaleiro já compreendera que não era indiferente à formosa princesa. E apressou-se a confessar, com a veemência da sua juventude — e do seu amor, principalmente:
— Digo... que estou apaixonado por vós, Senhora!... E agora... aguardo apenas a vossa sentença.
Bezulce sorriu. O sorriso era uma esperança. Porém, diante dos outros fidalgos da corte que a olhavam, ela quis parecer severa e justa.
— Pacientai, Flavius!... Tenho outras pessoas a atender... Entre elas o vosso adversário de há pouco, o nobre e rico Elga.
— Cuidado com ele, Senhora!
As palavras fugiram-lhe dos lábios, sem as conseguir reter. Sentiu-se envergonhado por ter feito tal confissão em voz alta. E sem nada mais dizer, retirou-se rapidamente.
Bezulce ainda fez um gesto para o reter. Hesitou, porém. E quando se decidiu já era tarde. Na sua frente erguia-se a figura altiva e arrogante de Elga.
— Princesa… se me permitis, desde já vos declaro que não gosto de esperar... por outros que me são bem inferiores!
Bezulce acusou a censura com um olhar irritado. E não lhe perdoou.
— Elga! Quem acabou de sair foi o vosso vencedor!
O nobre e rico fidalgo limitou-se a encolher os ombros.
— Ora, um simples acaso... Juro-vos, Senhora, que Flavius, o humilde Flavius, não mais me vencerá!
Por momentos, olharam-se apenas. Cada um com a sua expressão. Cada um com o seu pensamento.
A Princesa teve então um gesto largo, a indicar que ela e os seus acompanhantes esperavam que Elga expusesse o assunto que ali o levara. E como ele não se decidisse, insistiu:
— Que pretendeis de mim, Elga?
O nobre e rico fidalgo teve um sorriso triunfante. Os seus olhos relampejaram soberba. E anunciou, em voz clara e forte, como se fosse o próprio arauto do reino:
— Quero que sejais minha esposa, Princesa!
— Elga...
Ele interrompeu-a, num novo arremesso de vaidade e poderio:
— Posso oferecer-vos tudo o que quiserdes!
Sem a deixar falar, perante o ar surpreso dos outros, apontou para o outro lado da cidade.
— Vedes aquele outeiro, Princesa? Pois eu posso oferecer-vos, por exemplo.., um outeiro assim, repleto de pepitas de ouro!
E, numa gargalhada de satisfação, perguntou enfaticamente:
— Que mais podereis desejar?
Devagarinho, a Princesa Bezulce baixou os seus olhos azuis para o campo onde se realizara o torneio. E respondeu, com ar pensativo, num reflexo do que lhe ia na alma:
— Penso que posso desejar... talvez… mais um pouco daquilo que a fortuna não nos pode oferecer: o amor!
O rosto do fidalgo alargou-se numa expressão de espanto.
— Que dizeis, Princesa?
Mas ela manteve-se calada. Olhando-o...
O rico e nobre Elga explodiu numa crise de cólera:
— Acaso quereis dizer, Princesa Bezulce, que preferis o amor à riqueza?
— E porque não? A riqueza pode desfazer-se dum momento para o outro, mesmo quando é verdadeira... Mas o amor... O amor, se é verdadeiro... torna-se eterno!
Ele sentiu vontade de lhe bater, de a ensinar para sempre. Mas não podia. Resmungou apenas:
— Palavras, nada mais!... Eu poderia dizer-vos também que o amor nunca consegue sozinho alcançar a felicidade... Mas a riqueza.., oh, a riqueza, quantas vezes a conquista!
— Ou compra!...
Era demais para os nervos impulsivos do violento Elga. Preferiu despedir-se a continuar ali e ter de acabar por ser grosseiro, mesmo com uma senhora. Mesmo com uma princesa jovem e bela como Bezulce.
— Pois bem, retiro-me... Mas não me digais que ides casar com o mísero Flavius!
Irritada, de novo a Princesa olhou-o de frente.
— Bem sabeis, senhor... que a Flavius lhe sobra em valentia o que lhe falta em riqueza!
Então, um brilho mau passou pelo olhar de Elga. Um brilho cruel. Um brilho de ódio.
— Tendes razão, Princesa Bezulce... Sobra-lhe alguma coisa... mas talvez não lhe sobre por muito tempo.
Sem mais qualquer palavra, sem mais qualquer gesto de cortesia, Elga abandonou a tribuna. Tal como entrara. Precipitadamente.

Em vão a Princesa aguardou que Flavius voltasse. Ele desaparecera. como por encanto...
E Bezulce sentiu a amargura dum amor não correspondido. Por sua culpa talvez. Amargura feita de incompreensão, e de tristeza, e de saudade...
Aos seus mais íntimos ela confessou, quando as lágrimas de desilusão o permitiram:
— Que tola eu fui em mandá-lo aguardar!... Outra donzela dalguma terra próxima o terá conquistado certamente... Porque não acreditei eu logo no seu amor?... Agora, só me resta esperar…

E esperou. Mais tempo. Muito tempo.
Nem novas nem mandados de Flavius, o cavaleiro valente. Pelo contrário, foi Elga, cada vez possuidor de maior fortuna e importância, que voltou à carga.
— De nada vos serve chorar, Princesa formosa, por aquele que tão cobardemente vos abandonou...
E tomou-se solícito e carinhoso, até onde lhe foi possível.
— Porque não aceitais a minha oferta?... Eu, sim, eu poderei fazer-vos feliz… dar-vos tudo o que é necessário a uma princesa bela e jovem como vós... Acreditai que vos amo!
E tantas vezes disse, tantas repetiu as mesmas palavras, que a Princesa Bezulce, já desenganada por completo acerca do regresso de Flavius, acabou por aceitar!

Os esponsais de Bezulce e Elga foram espantosamente sumptuosos. Logo de início, o nobre e rico fidalgo deu a grande novidade:
— De hoje em diante, Princesa minha bem amada, já não vos chamareis Bezulce... e, sim, Bezelga... para que os nossos nomes fiquem ligados para sempre!
E no final da cerimónia, tal como prometera, Elga levou a esposa até junto do outeiro fronteiro ao palácio.
— Eis a minha promessa cumprida... Aqui tendes para vós, Senhora, um outeiro coberto de pepitas de ouro!
Estavam os dois sozinhos. Deslumbrada, a Princesa segurou o braço do fidalgo seu marido.
— Sois maravilhoso! Quase me parece inacreditável...
Ele riu, vaidoso e dominador.
— Eu não vos dizia?... Aí tendes a prova do que eu poderei fazer por vós!
Mas nesse mesmo instante, embora ali estivessem apenas os dois, soou uma terceira voz. E a voz disse:
— Não acrediteis nele, Princesa... Isto é o máximo que vos dará... E para o conseguir teve de deixar o povo na miséria!
Imediatamente, a Princesa abandonou o braço do marido.
— Que voz é esta?
Ele quis disfarçar.
— Não deveis dar importância... São alucinações que temos às vezes...
De novo, a voz soou, mais cavernosa ainda:
— Calai-vos tirano!... Bem sabeis que me mandastes matar e enterrar aqui mesmo!
O medo da Princesa transmutou-se em desconfiança.
— Será possível?
O rico e nobre Elga segurou-a impetuosamente.
— Vamos embora!
Mas ela voltou a libertar-se.
— Não! Agora não quero ir... quero ouvir tudo!
E gritou, num impulso de energia:
— Falai, voz misteriosa!
Como se esperasse apenas essa ordem, a voz d’além-túmulo fez-se ouvir. Agora mais clara. E mais dorida, também.
— Ele comprou a minha morte com o dinheiro… para que eu não vos voltasse a ver e a falar, Senhora... Mas esqueceu-se de que a alma é imortal!
O rosto da Princesa perdeu a calma aparente e tornou-se feroz.
— Dizei-me, Elga... É verdade o que acabámos de ouvir?
Embaraçado, o nobre e rico Elga tentou explicar:
— Bem vedes… tive de agir... Ele era meu rival... Só um de nós poderia casar convosco, minha bem...
Um grito felino cortou-lhe a palavra. A Princesa parecia demoníaca. Os seus olhos azuis estavam negros de rancor.
— Calai-vos, monstro! E ficai sabendo que eu também tenho grandes poderes... Mas os meus poderes só uma vez poderão ser utilizados... Pois serão hoje mesmo! Agora mesmo!
Elga começou a tremer. Quis fugir para longe dali. Mas já não teve tempo. A Princesa lançou-o a terra e disse umas palavras mágicas. Aterrado, impotente, Elga sentiu que começava a transformar-se em pedra...
Depois, a própria Princesa caiu também no solo. Chorando. Chorando.
E as suas lágrimas foram deslizando pela terra e formando caudal.
Entretanto, por poder mágico, tudo ali se modificava num instante. Em vez das pepitas de ouro que enchiam o outeiro, passaram a existir apenas calhaus e pedregulhos...

Mas o povo das redondezas acredita que o tesouro do rico e nobre Elga continua lá, no «Outeiro da Cevedade», à espera de ser desencantado um dia...
E diz-se que, no meio das pedras simples, existem três pedras que representam o rosto belo de Bezulce, o rosto enamorado do pobre Flavius e o rosto colérico do nobre e rico Elga…
Além disso, a terra passou a denominar-se a Terra de Bezelga... A ribeira nascida das lágrimas da Princesa era chamada (e continua a chamar-se) a ribeira Bezelga!

Fonte Biblio MARQUES, Gentil Lendas de Portugal Lisboa, Círculo de Leitores, 1997 [1962] , p.Volume I, pp. 119-124

Place of collection-, TOMAR, SANTARÉM

Narrativa

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