Lenda da Bezerra de Monsanto

APL 2787

Nesses tempos que se perdem nos longes da memória, era assim mesmo: o somatório dos anos não cansava os homens que se entregavam abnegadamente à defesa dos seus ideais...
Por isso, Monsanto, ali bem perto da Idanha-a-Velha, a famosa Egitânia de então, aguentava estoicamente, havia sete anos, um cerco brutal posto pelo cônsul romano Lúcio Emílio Paulo. Sete anos de tragédia, de luta selvática, de ansiedade e de dúvida. E, igualmente, sete anos de fé, de esperança, de fidelidade. E de arreigado amor à terra-mater!
Tinham passado tormentos e amarguras. Tinham morrido os entes queridos. Tinham visto destroçadas as suas próprias cabanas. Tinham sofrido misérias e desgraças e dores.
Mas não se rendiam!
Diante dos olhos amortecidos que o fitavam, o velho chefe lusitano voltou a falar mais uma vez.
— Custe o que custar, temos de resistir ao invasor... Nós não nos renderemos, nem que nos continuem a sitiar por mais outros sete anos! Mesmo que vamos todos, um por um, morrendo à fome... Enquanto um de nós existir, esta terra será nossa!
E as vozes dos outros repetiram, em tom ainda vibrante e desesperado:
— Esta terra será nossa!
 
Esse velho chefe, que assumira o comando dos sitiados, já vira morrer sua mulher e os seus três filhos mais velhos. Restava-lhe apenas uma filha, ainda muito jovem, e que era agora a melhor companheira de seu pai.
Assim, ele temia ansiosamente pela sua existência.
— Oh, minha filha, não te exponhas!... Tenho tanto medo por ti... Acredita: se um dia eles te descobrem, são capazes de matar-te, como já mataram os teus irmãos!
Mas a jovem sorria, com a valentia irreverente própria da juventude.
— Não pense nisso, meu pai... Onde estiver, estarei sempre a seu lado. A luta não me amedronta!
E inclinando-se para ele, num sussurro de confissão:
— Lembre-se que foi isso que eu jurei, quando a mãe foi assassinada por eles!
O pobre velho baixou a cabeça. Para esconder as lágrimas. Para tentar ser mais austero.
— Lembro-me, sim, minha filha... Mas lembra-te, tu também, que és o único bem que me resta na vida. E eu preciso de ti!
Fez-se um silêncio entre ambos. Mas não durou muito. O coração do pai falou mais alto que a sua própria vontade.
— Ah, se ao menos eu te pudesse salvar… se conseguisse levar-te para o outro lado do monte, minha filha!... Aí serias certamente mais feliz, com as tuas ovelhas e as tuas bezerras!
A rapariga ergueu-se e alisou os longos cabelos que lhe caíam até às costas.
— Deixe-se de sonhos, meu pai, por favor!... Bem sabe qu ficarei aqui, enquanto o pai aqui estiver. E o rebanho ficará comigo. O pai bem sabe que os homens precisam do rebanho... Cada vez mais!
O velho chefe fitou a filha com um olhar triste, muito triste, e voltou a baixar a cabeça.
— Tens razão. Os homens precisam do rebanho... e cada vez mais!
Pouco tempo passara sobre este breve diálogo, quando o velho mandou chamar a filha à sua mísera tenda de combate, que mal se conseguia aguentar de pé, depois de ter sofrido tantas intempéries da Natureza e dos homens.
— Escuta, minha filha... Tens de fugir!
Altivamente, ela encarou-o. Frente a frente. Olhos com olhos. Vontade contra vontade.
— Já disse que não fugiria daqui, meu pai!... Fiz um juramento, devo cumpri-lo!
O velho chefe suspirou fundo e agarrou a jovem pelos ombros.
— Mas isto vai de mal a pior!... Todos se têm sacrificado... E para quê, minha filha?... Para quê, se nós acabaremos por ser vencidos?
Num gesto brusco, quase de revolta, ela libertou-se das mãos do pai.
— Cale-se, por favor!... Que ninguém o oiça!... Pois o pai esquece-se de que é o chefe, que os homens e as mulheres que restam confiam plenamente em si?
Num crescendo de entusiasmo, a rapariga ergueu os braços ao céu.
— Vamos, meu pai! Fale aos seus homens e levante-lhes o ânimo!... Eles estão habituados às suas palavras de coragem, de fé, de esperança na vitória final...
E inclinando-se para ele, como que a querer transmitir-lhe o seu próprio entusiasmo:
— Não esqueça... A esperança na vitória final!
Mas desta vez enganava-se. O pai não reagia. Estava visivelmente desmoralizado, perante a crescente brutalidade do assédio. E confessou amargamente:
— Oh, minha filha, minha única filha, então não compreendes? Não vês a miséria que nos oprime? A fome e a sede que nos atormentam?
— Tentaremos arranjar mais alimentos… mais água...
Num suspiro de dor e de cansaço, o velho chefe abanou a cabeça.
— Impossível, minha filha!... Os romanos descobriram as últimas passagens secretas e já as bloquearam por completo... Nada nos resta!
Foi a vez dela se sentir desesperada.
— Mas... então...
E ele confirmou em voz lenta, arrastada, como que pesando todo o peso da sua enorme angústia:
— Eu próprio… já perdi a coragem... a fé... e a esperança... Agora, daqui em diante, acredito que todos os sacrifícios serão absolutamente inúteis... Os romanos não deixarão vivo um único de nós!
E calou-se. Porém, no ar estranho e quente parecia pairar ainda o eco das suas palavras. Até que a rapariga, num rompante de nervos, conseguiu rasgar o véu da impotência que já os envolvia.
— Não! Não pode ser assim, de modo algum!
E erguendo a voz, autoritária e solene como nunca o fora, gritou para seu pai:
— O senhor é o chefe… o nosso chefe! Porte-se, portanto, como um verdadeiro chefe!
Tão persuasivo era o tom da sua voz, que o homem se sentiu chicoteado na sua própria consciência.
— Sim, sou o chefe!... Não posso nem devo pensar apenas em nós dois! Tenho de pensar também nos outros que confiam em mim!
— Isso mesmo, meu pai! É dessa maneira que eu gosto de o ouvir falar, que todos nós gostamos de o ouvir! E agora, diga-me: que vamos fazer para não morrermos de fome?
O velho chefe, reencontrando a sua perdida e gasta energia, apontou para fora, energicamente:
— Vai, minha filha!... Vai e sacrifica o nosso último rebanho. É a última reserva que nos resta. Divide o rebanho pelos homens, pelas mulheres e pelas crianças. Pelo menos poderemos aguentar mais uma semana... Depois, veremos! Será o que Deus quiser!
E a rapariga, persignando-se, repetiu como num eco:
— Será o que Deus quiser!
Mas a semana depressa passou. Noites e dias sumiram-se num verdadeiro crescendo de aflição. E a tragédia começou a rondar cada vez mais perto, cada vez mais perto...
Até os soldados romanos davam mostras de perceber a dramática situação. A fome deve ter também um cheiro que anda nos ares…
O cônsul Lúcio Emílio Paulo resolveu aproveitar o ensejo e gritou para o alto do monte:
— Sois imbecis ou insensatos? Pois não vedes que é só por teimosia de um velho egoísta que prolongais o vosso sofrimento?
E logo, lá do alto, começou a voz do velho chefe, das fraquezas fazendo forças:
— Calai-vos, Lúcio Emílio Paulo, cônsul sanguinário e indigno!... Sou eu, eu, o velho egoísta, que estou a responder-vos. Os meus homens não sofrem nem querem render-se. Ouvistes bem? Aqui não entrareis, lobo romano, enquanto um de nós estiver vivo!
Houve uma breve pausa. Como que a ganhar alento para gritar mais forte. E os berros do cônsul romano subiram ao monte, como ameaça de morte.
— Então sois ainda mais imbecis do que eu pensava!... De que serve a vossa impertinência?... A fome não perdoa! E vós morrereis todos de fome!... De fome!
 
O velho chefe já não respondeu. Sentia que, de facto, tudo chegara ao fim. Ao extremo dos extremos. E limitou-se a dizer aos que o olhavam num apelo e numa ansiedade:
— Nada mais nos resta, amigos... Os romanos já sabem que estamos a morrer de fome, que não podemos continuar a resistir… E nós já somos tão poucos!...
Calou-se, numa breve indecisão acerca do que ia dizer mais. Mas as palavras escaldavam-lhe o cérebro e o coração. E não fugiu a dizê-las:
— Penso que o melhor é entregarmos as armas.
Os homens baixaram a cabeça. As mulheres abafaram os soluços. Mas uma voz ergueu-se inesperadamente.
— Nunca, meu pai! Nunca permitirei que se faça uma coisa dessas!
Todos olharam na direcção da rapariga. O velho chefe avançou um passo. Ainda perplexo e duvidoso.
— Pois tu... tu, minha filha... atreves-te a discutir publicamente uma ordem que eu dou?
Foi a vez de ela avançar um passo. Com calma. Com segurança. Com altivez.
— Meu pai, aqui eu sou um soldado como todos os outros. Não falo com o pai... Falo com o chefe. E creio que estou a falar em nome de todos eles... Nós não nos queremos render!
Um clamor de vozes coroou as suas últimas palavras. Os homens e as mulheres passaram imediatamente para seu lado. Concordavam com ela. Estavam com ela.
O velho chefe ainda quis defender o seu ponto de vista, embora sentindo que perdia autoridade.
— Sois nova, minha filha, muito nova ainda… Olhai para essas caras... Vedes esses olhos sem brilho, esses braços sem forças, esses corações que mal podem bater, de tanta fraqueza... Achas que vale a pena continuar?
A resposta veio, pronta e franca:
— Acho que sim, meu pai! Acho que vale a pena!
Novo clamor de vozes rompeu. O entusiasmo voltava a retomar os homens e as mulheres. Sentiam-se renovar para a luta! E, pedindo a todos que se aproximassem, a rapariga falou então em voz baixa, quase em segredo.
— Eu guardei uma bezerra para este momento! Esta gorda e anafada...
Mais espantado se mostrou o velho chefe. Dolorosamente espantado.
— Uma bezerra?... Estais louca, com certeza! Pois para que nos serve uma miserável bezerra, para todos nós, se ela é pouca para um só?...
Num meio sorriso, a rapariga explicou:
— Perdão, meu pai… A bezerra que eu guardei não é para nenhum de nós!
— Que dizeis?... Que ideias são as vossas?
A rapariga abraçou todos com um olhar.
— Se não se importam, meus amigos eu terei primeiramente de falar com o meu pai... em segredo!
O velho chefe encolheu os ombros, como que resignado.
— Em segredo? Oh, meu Deus!... Minha filha enlouqueceu, certamente… Uma bezerra… e um segredo! Enfim, meus amigos, voltai aos vossos lugares... Eu irei escutar o que minha pobre filha tem para me dizer!
 
O que se passou entre pai e filha, ninguem soube… Somente na manhã seguinte, viram que o velho chefe, parecendo criar novas forças nas suas pernas já trôpegas, subia ao ponto mais alto do monte, levando a acompanhá-lo a sua jovem filha e uma bezerra bem robusta.
Depois, lá de cima, com a maior energia que lhe era possível, a voz do velho chefe caiu sobre o acampamento inimigo.
— Oh, grande Lúcio Emílio Paulo, a quem chamam o Macedónio pelas tuas brilhantes vitórias na Macedónia, escuta o que vou dizer...
De baixo vieram gargalhadas fortes, antes de soar a voz do próprio cônsul.
— Estou a ouvir-te, velho idiota!... Penso que compreenderam finalmente a inutilidade dos vossos esforços. Querem render-se, não é verdade?
E o velho chefe, a plenos pulmões, respondeu:
— Não, Lúcio Emílio Paulo, nós não nos queremos render! Nós poderemos resistir até que vós para aí apodreçais de fome, de frio e de aborrecimento!
Novas gargalhadas. E, no meio das gargalhadas, uma pergunta irónica:
— E vós… que fazeis?
Seguras e vibrantes, as palavras do velho chefe encheram de pasmo os lutadores de ambos os lados:
— Nós... temos tudo o que desejamos! E como prova do que digo, cônsul Lúcio Emílio Paulo, aqui te oferecemos esta bezerra que sobrou do banquete de ontem à noite!
E no mesmo instante, a um gesto do velho chefe, a rapariga resolutamente lançou para baixo a bezerra gorda e anafada que guardara avaramente para tal efeito.
Por entre o tumulto de vozes provocado pela estranha e inesperada oferta, ainda se ouviram as palavras finais do velho chefe:
— Que vos faça bom proveito essa bezerra, cônsul Lúcio Emílio Paulo!... E se quiserem mais, é só dizer!
Na tarde desse mesmo dia voltou a ouvir-se, de repente, a voz do cônsul Emílio, vinda lá de baixo, da planície. Mas já sem a arrogância habitual. Como que despeitada e aborrecida.
— Guardai as vossas outras bezerras, que nós um dia as viremos buscar... Agora, chamam-nos de Roma e já perdemos aqui demasiado tempo... Mas nós voltaremos!
Quase correndo, tropeçando aqui e além, louco de alegria, mal podendo acreditar no que seus ouvidos escutavam, o velho chefe voltou a subir ao mais alto do monte. E a gritar, numa renovação das próprias energias:
— Pois voltai, voltai, que nos encontrareis à vossa espera!... E haverá sempre uma bezerra a mais para vos oferecer!
Risadas fortes emolduraram as suas palavras. Porém, desta vez, não eram os soldados que riam: eram os sitiados, que rodeavam a jovem filha do velho chefe, dando largas à sua alegria e aos seus brados de vitória final!...
E assim, enganados pelo estratagema, julgando que os sitiados possuíam bastantes alimentos, os soldados romanos se retiraram...
Ainda hoje se comemora esta tradição em Monsanto — proclamada em 1938 «a aldeia mais portuguesa de Portugal»... No dia da festa, os monsantinos, ao som de adufes e cantares, lançam das muralhas do velho castelo lindos cântaros enfeitados, que simbolizam a bezerra do cerco de Monsanto...

Fonte Biblio MARQUES, Gentil Lendas de Portugal Lisboa, Círculo de Leitores, 1997 [1962] , p.Volume II, pp. 219-225

Place of collection Monsanto, IDANHA-A-NOVA, CASTELO BRANCO

Narrativa

When Century,

CrençaUnsure / Uncommitted

Classifications