Lenda da Brasília

APL 2701

Quando hoje em dia se fala em Brasilia, todos pensam imediatamente na nova e esplendorosa capital do Brasil, autêntico milagre de iniciativa e de esforço.
Mas a história que vou narrar não diz respeito à Brasilia monumental dos tempos actuais e, sim, a uma pequena terra do Norte de Portugal, que também se chama Brasilia.
E o mais curioso de tudo é que esta Brasília portuguesa é já muito velhinha... Fica lá em cima, no concelho de Vila Verde, na freguesia de Escariz (S. Martinho), distrito de Braga, em pleno coração do Minho...
Pois foi devido a uma circunstância fortuita que encontrei os vestígios da história desta Brasília bem portuguesa, a qual vou evocar aqui, precisamente, como saudação fraterna à Brasília de 1960.

Tudo começou há muitos e muitos anos já, talvez numa manhã fria e ventosa, quando os lobos uivavam na serra e o céu se tingia de ameaças de tormenta.
Nessa manhã invernal, subindo a encosta batida pelo vento, destacavam-se dois vultos lutando contra a Natureza. Um homem e uma mulher. Ambos procuravam alcançar a casa onde viviam, ali, nos arredores então quase desertos de Vila Verde.
A tormenta mal deixava que falassem. Mas falavam, apesar de tudo...
— Estamos já próximo... Mais um esforço, mulher!
Ele procurou ampará-la dando-lhe alento para o resto da jornada. Porém, ela parecia demasiadamente débil para aguentar essa arrancada final.
— Tenho medo de não poder ir mais longe... Sinto-me sucumbir...
O braço forte do homem enlaçou-a.
— Vamos, eu ajudo-te... Uma pequena corrida e estaremos em casa...
Mais num sopro de alma do que pelas próprias palavras, ela assentiu:
— Está bem, homem… Seja o que Deus quiser!
E Deus quis, segundo conta a lenda de antanho. Conseguiram alcançar a casa, vencendo o vento violento e cortante.
Quando a porta bateu atrás deles, deixando o vento lá fora, a mulher caiu extenuada sobre um banco de madeira.
Arquejando, no saldo do esforço feito, o homem olhou-a e mordeu os lábios grossos. Por remorso ou por piedade. Só ele o sabia.
Depois, atirou-se também para cima dum banco tosco.
— Uff! Até que enfim... Cheguei a pensar que desta vez não chegaríamos...
Houve uma pausa. Pausa cortada apenas pelo ranger da madeira e das telhas, ao sabor da ventania louca que continuava cavalgando pela serra.
Quase chorosa, a voz trémula da mulher fez-se ouvir então:
— Que direi eu?
Parou. Respirou fundo. E repetiu, como que um eco, para si própria:
— Que direi eu?
Os seus olhos, ainda doridos, voltaram-se para o marido.
— Foi para isto que me trouxeste lá da minha terra distante?
Ele encostou-se molemente à mesa de pinho. E a sua voz soou, também com certo acento de moleza:
— Que queres, mulher? Nem tudo pode sair à medida dos nossos desejos…
Encolheu os ombros, a sacudir as suas culpas.
— Eu bem te disse, quando casamos hei-de voltar a Portugal, à minha terra e lá teremos o nosso lar…
Mas a mulher, de súbito, encontrou forças para ironizar:
— Bonito lar, não há dúvida… Um casebre… Um bocado de terra que não dá nada… e este tempo horrível, pavoroso… Um inferno!
Agora, a ironia já sabia a lágrimas. O homem tentou contemporizar.
— Ora, Deus há-de ouvir as nossas preces. Depois da tempestade virá a bonança, acredita!
Ela abanou a cabeça. Tristemente. Desesperadamente.
— Quando estivermos mortos, não e verdade? Ou, pelo menos, quando ja não pudermos lutar…
De novo o silêncio. Depois, o vento e os lobos, lá fora. Uivando.
O homem ergueu-se. Andou uns passos para a companheira. Hesitante.
— Tem fé, mulher, tem fé como eu!... Nunca te enganei… Quando tive a sorte de te encontrar lá no Brasil, não te prometi nada que não te tivesse dado…
Foi a vez dela o olhar bem de frente. E ergueu-se, também, como uma sombra.
— Achas que me tens dado tudo o que prometeste?...
Teve uma risada curta e sarcástica.
— Onde está a terra fértil?... Onde está a nossa linda quinta, no Minho?... Onde está a nossa fortuna?...
Calaram-se os dois.
 
Aquelas palavras da mulher ficaram a doer na alma do marido. No resto do dia. Toda a noite. E nos dias seguintes.
Por fim, resolveu-se. Foi procurar o velho e bondoso padre da freguesia.
— Senhor Prior, quero que seja o senhor o primeiro a saber: eu vou voltar ao Brasil.
Os olhinhos piscos do padre abriram-se em parêntesis de espanto.
— Que dizes, homem? Que ideia é essa?
O homem torceu as abas do chapéu nas mãos rudes e nervosas.
— A minha mulher tem razão, senhor Prior... Há uma coisa, pelo menos, que lhe prometi e ainda não lhe dei: a fortuna... E essa… essa só a poderei encontrar no Brasil!
— Mas vais aventurar-te outra vez em tal viagem?...
O homem respirou forte. Forte e fundo. Como se tivesse menos dez anos:
— E isso que tem, senhor Prior? Aproveito o próximo embarque... Conheço aquilo como as minhas mãos... Voltarei rico em pouco tempo.
Arreganhou os dentes num sorriso. Sorriso de desafio e de confiança.
— Rico, senhor Prior!
O velho padre compreendeu que de nada valia tentar dissuadi-lo. Limitou-se a dizer:
— Faz o que achares melhor... e que Deus te proteja!
Depois, traduziu em pergunta uma ruga de preocupação que se lhe vincara na testa:
— Ouve lá... E com respeito à tua mulher?...
A resposta veio pronta, como que estudada e decorada há muito tempo:
— Ela ficará aqui, senhor Prior, à sua guarda.
A ruga de preocupação multiplicou-se em muitas outras rugas.
— À minha guarda?
O homem buscou uma explicação ao plano que forjara em noites de insónia:
— Sim! É como quem diz: à guarda de Deus!... O senhor Prior a livrará de maus olhados… e de más companhias. Que esta gente, quando a sentir sozinha, não a deixará sossegada. Mas posso confiar em si, senhor Prior, não é verdade?
O velho padre gostou desse tom de franqueza. Sorriu docemente.
— Podes, sim, meu filho!
O homem levantou-se, de olhar iluminado. Era o princípio da sua vitória. Da sua grande vitória. Da sua maior vitória. E tinha aleluias na voz, quando voltou a falar:
— Dê-me a sua bênção, senhor Prior… Até à volta, e que Deus me proteja!
 
Tal como dissera, o homem seguiu de novo o caminho da aventura… Nesses tempos já longínquos chamavam-se «brasílios» ou «brasileiros» àqueles que iam tentar a sorte no Brasil e regressavam depois às suas terras. O nosso homem era um desses «brasílios».
E, por isso mesmo, a sua abalada deixou toda a gente das redondezas a falar no caso, tecendo os mais variados comentários, pois não era habitual voltar à grande aventura, pela segunda vez.
 
Entretanto o tempo foi passando, correndo, fugindo. E, tal como nos conta a velha história quase desfeita pelos séculos, não voltou a haver notícias do homem que tornara ao Brasil. Mais cansada, mais triste, mais desiludida, a mulher queixava-se amargamente:
— Senhor Prior, que posso eu fazer aqui, sozinha… se meu marido me abandonou?
Que podia ele responder, senão o que lhe ditava a própria consciência?...
— Não te abandonou, minha filha… Foi apenas tentar conquistar a fortuna que te prometera.
Ar de contrição:
— Para quê? Sim, para quê?... A fortuna estava aqui ao nosso alcance… Ele tinha razão… Esta era a terra que Deus guardava para nós… Mas agora… agora… que posso eu fazer, senhor Prior?
De mãos unidas, como em oração, a pobre mulher erguia-se diante do velho padre. O sacerdote percebeu que a hora era decisiva. Ou ela se salvava ou ela se perdia. E deliberou atacar o problema de frente…
— Tens de tratar da terra, como se ele estivesse a teu lado… Tens de criar a quinta com que ele sempre sonhou!... Sabes lá, minha filha, se o teu marido não voltará um dia?
Palavras oportunas e justas. Cada uma delas acertou no alvo. E o alvo era o coração.
— Está bem, senhor Prior! Assim farei.
A partir de então, a mulher atirou-se valentemente ao trabalho. Das fraquezas fazendo forças. Transformando a fragilidade em ousadia, ganhando entusiasmos com o próprio esforço.
Naquele lugar quase deserto e abandonado, começou a surgir uma quinta maravilhosa, como que abençoada por Deus!
Porém a mulher tudo fizera por uma inspiração febril. E quando a febre se esgotou diante da obra consumada, ela ficou mais gasta, e mais triste, e mais soturna do que sempre.
Lentamente, voltou ao encontro do velho padre.
— Senhor Prior, creio que cumpri o meu dever...
O sacerdote (também mais gasto, e mais triste, e mais soturno) elevou os olhos ao céu.
— Deus te abençoará, minha filha!
Mas ela não procurou delongas. Foi direita ao fim:
— Creio que não poderei durar muito mais tempo, senhor Prior... Sinto-me esvaída... Acredite!... Talvez me falte o calor do amor...
Respirou fundo, a recobrar alentos, e prosseguiu:
— Sim... Que vale uma espera destas, sem marido?
Parou, travada por um pensamento qualquer. E sorriu suavemente. E confidenciou, num murmúrio:
— Quer saber uma coisa, senhor Prior?... Uma noite destas, sonhei com o meu marido... Vi-o tal e qual como no dia em que ele abalou... Mas já não estava na Terra... Tinha subido ao Céu...
Olhou o padre. Ele nada disse. Então a mulher elevou a voz:
— Eu também me sinto morrer, senhor Prior! E só peço a Deus que me junte de novo ao meu marido!
Passou entre ambos um pequeno silêncio. Silêncio feito de saudade e de evocação. E o velho padre disse, pausadamente:
— Decerto que sim, minha filha... A tua vida exemplar, toda devotada ao respeito e ao sacrifício, bem o merece!
Por instantes, a mulher ficou inebriada pela bênção. Mas, de seguida, um outro pensamento lhe afluiu ao cérebro:
— E esta quinta, senhor Prior?... Este lugar?... Para que servirá tudo isto, depois de eu morrer?...
O sacerdote velhinho cruzou as mãos sobre o crucifixo. Cerrou os olhos e respondeu com toda a força do seu íntimo:
— Servirá para mostrar a tua história e mostrar o teu exemplo!
 
De facto, segundo se conta e eu reconto, depois do sonho que tanto a impressionou, a mulher não durou muito mais tempo, como ela própria supusera. E dizem que morreu sorrindo. Sorrindo e de olhos em êxtase. De olhos em êxtase e murmurando:
— Lá está ele... Ele, o meu marido... Vou para junto dele... Para junto do meu brasílio... pois eu sou a sua brasília!
E toda a população dos arredores foi ao último adeus. Nesse dia, a quinta parecia ainda mais bela e maior.
Embora muito velho e vacilante, o senhor Prior não quis faltar. De mistura com as flores que depunham na campa da mulher, ele deixou cair também uma rosa desfolhada pelos dedos trémulos. E disse, com o que lhe restava da eloquência habitual:
— Sim, meus filhos! Vocês que tanto falaram do brasíio, quando ele voltou à aventura, só têm agora que falar bem da mulher do brasílio. Peço-lhes, meus filhos, que este novo lugar, em homenagem ao esforço de quem o criou, fique a chamar-se para sempre, tal como vocês já lhe chamam — o lugar da Brasília!
 
Na verdade, lá está desde há séculos, na freguesia de Escariz (S. Martinho), no concelho de Vila Verde, do distrito de Braga, em pleno coração do Minho, o Lugar da Brasília ou apenas Brasília, como se designa hoje em dia.
E quem sabe se foi daí que nasceu precisamente a ideia do anónimo deputado paulista, anterior ao projecto de José Bonifácio de Andrada e Silva que finalmente se transformou em realidade esplendorosa no ano de 1960?...
Quem sabe?

Fonte Biblio MARQUES, Gentil Lendas de Portugal Lisboa, Círculo de Leitores, 1997 [1962] , p.Volume I, pp. 71-76

Place of collection Escariz (São Martinho), VILA VERDE, BRAGA

Narrativa

When

CrençaUnsure / Uncommitted

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