Lenda da Casa do Bom Pastor

APL 2900

Corria o ano de 1610 e reinava em Portugal D. Filipe II (terceiro de Espanha). E se em Espanha havia certa confusão na corte em virtude dos altos cargos vendidos a peso de ouro, em Portugal a confusão não era menor, embora por motivos diferentes. O luxo reinava na alta sociedade. Sucediam-se as festas, para tentar calar a lamúria do povo, que não esquecia a sua condição no berço português. E alguns fidalgos a quem eram concedidas mercês por parte do governo de Filipe, atordoavam-se com orgias para abafar a voz da consciência.
Ora, segundo conta a lenda, existia nessa altura nos subúrbios de Lisboa uma casa de bela arquitectura, com luxuosos salões onde a fidalguia se deleitava em esplendorosas festas, que duravam até alta noite. Possuía essa casa um formoso jardim de frondosas árvores, que a encobria dos olhares pouco amistosos da populaça descontente. Mas o que de marcante existia nessa casa, por cima do portão e num arco bem delineado, era a imagem do Bom Pastor, com a assinatura de um pintor espanhol de nomeada. Era recente, essa imagem, e estava constantemente alumiada, dia e noite, por velas colocadas em castiçais de prata e cristal. As velas serviam de guia aos transeuntes que passavam por ali na noite escura. Aos devotos serviam ainda para mostrar a face do Bom Pastor e lhes lembrar pedir a Sua protecção para a caminhada.
Não muito longe dali estavam espalhadas algumas casas modestas, de gente que vivia mercê do seu trabalho quotidiano. Uma dessas casas era habitada pelo mestre carpinteiro João e sua filha Inês. Tendo ficado órfã de mãe aos três anos de idade, Inês encontrara reunidos no pai o amor que pai e mãe deveriam dedicar-lhe. Era linda, a jovem Inês. Tão linda que poetas haviam já cantado os seus cabelos doirados e o seu rosto de marfim.
Ciosamente, mestre João escondia o seu tesouro. Queria-a casada, sim, mas com gente que os compreendesse. Gente que fosse simples como ele. E trazia a filha quase prisioneira. Todavia, diz a lenda que a jovem foi descoberta por um vizinho, um tal Filipe de Brito, dono da Casa do Bom Pastor. E que ele conseguira avistar-se com a jovem Inês, propondo-lhe casamento, embora sem intenção alguma de cumprir a promessa.
Encontravam-se de fugida, sempre às ocultas. O tema da conversa era sempre o mesmo: levar Inês a abandonar o pai para fugir com ele, o belo e elegante Filipe de Brito, que a aguardaria numa encruzilhada próxima.
Muitos dias a pobre Inês soube resistir às tentadoras promessas do seu apaixonado. Porém, certa manhã, a sua vontade fraquejou. Filipe insistiu com mais ímpeto e ela acedeu. Ficou tudo marcado para essa mesma noite. Ela escreveria uma carta, que deixaria ao pai. E partiria em busca do amor.
Assim aconteceu. A hora aprazada chegou. Meia-noite. Escuro na estrada. Não passava vivalma. O silêncio enorme sobrepunha-se à própria noite. Pé ante pé, Inês deixou o quarto onde ficara a sua carta de despedida, e saiu como ladrão da sua própria casa. Batia-lhe o coração no peito, descompassadamente...
 
Quem tem cuidados não dorme — diz o rifão. Foi o que aconteceu nessa noite ao mestre João. Sentiu bater ao de leve a porta da rua. Ergueu-se do leito, com a respiração contida. Seriam ladrões? Eram tão pobres! E se fosse algum maroto que tentasse apoderar-se de Inês? Essa, sim, constituía a sua grande riqueza. João não era pobre, não: era rico com a honra e a beleza da filha!
Saltou da cama. Correu ao quarto de Inês. Chamou por ela enquanto acendia uma vela.
— Inês! Inês, minha filha!
A luz bruxuleante iluminou tragicamente o aposento vazio. O homem vacilou. A luz incidiu sobre a carta. Apanhou-a convulsivamente. Colocou a vela numa pequena mesa e leu a carta com os olhos húmidos de dolorosa surpresa. Dizia assim: «Perdoe-me, meu Pai. Parto a caminho do amor. Espero ser feliz. Inês.»
Nem um ponto de referência para a descobrir.
«Parto a caminho do amor!...»
O homem leu alto, novamente, como louco, a frase fatídica. E gritou mais:
— Louca! Louca, que não conheces a vida!
Apagou a vela, e saiu correndo para a noite escura. Mas dirigiu-se para o lado da cidade, oposto ao caminho que levara Inês. Correu sem cessar, olhando, de olhos bem abertos no escuro, o que lhe parecia um vulto a esconder-se. Mas era apenas alucinação. Correu sempre, falando alto, chorando alto. E encontrou, de súbito, uma porta larga. Era a de uma igreja. Estava fechada ainda. Mas ele deixou-se cair de encontro à porta, soluçando. Orava. Orava a Deus, a Sua Mãe Santíssima, ao Bom Pastor que encaminha as Suas ovelhas para fora da tempestade e do alcance dos lobos. Orava para que Ele trouxesse a casa mais essa ovelhinha desgarrada que havia saído de noite, ao encontro de algum lobo faminto da sua honra e da sua beleza. Orava e chorava simultaneamente, o bom do mestre João. De repente, sentiu como se alguém o tivesse acariciado, lhe tivesse passado um braço sobre os ombros curvados para o lagedo do adro da igreja. Olhou sobressaltado. A noite era ainda rainha. Ninguém a seu lado. Apenas ele e a escuridão. Mas tinha a certeza de não estar só. As lágrimas secaram-se-lhe. Ergueu-se. E com a esperança e a fé na alma, já sem palavras nem choros, retomou o caminho de casa, que havia deixado sem sequer fechar a porta.

Entretanto, pela rua escura e estreita, Inês tentara descobrir o vulto do seu bem-amado. A espera começava a ser longa. Nunca estivera assim, sozinha. O medo começara a cercá-la. Medo das sombras indecisas da noite escura e medo das sombras que a dúvida fizera surgir dentro dela. Filipe não chegava. Ter-se-ia esquecido? Mas se lhe pedira tanto! Que teria havido? Iria ao seu encontro. Ao encontro da sua bela casa, onde talvez dormisse um sono tranquilo. Ou onde talvez não estivesse, porque algum baile em Lisboa solicitasse a sua elegante presença. Sim, Filipe era um grande senhor. Bonito, elegante, rico, de boas falas. Filipe não era, de facto, marido para ela, tão pobre e quase sem família. Porque havia acreditado? Ele troçava do seu amor, da sua inocência, da sua credulidade! Sentia-se desamparada, aturdida. Escarnecida! E o pai? Que golpe duro lhe vibrara! Agora tinha o castigo da sua leviandade. Só lhe restava morrer. Morrer para não sofrer a afronta do sorriso cínico de Filipe, chamando-lhe — como às vezes o fazia — pobre tontinha!
A morte! Como a desejava Inês! Mas antes que o dia chegasse! Antes que a luz do Sol descobrisse aos vizinhos a sua vergonha. Para casa do pai já não podia voltar!
Lembrou-se Inês da Casa Grande, onde havia um poço no jardim. Era isso mesmo: iria afogar-se no poço. Desatou a correr, a correr como uma louca, pois sã não estava a sua razão. Dobrou a esquina. Continuou correndo. Via já as luzinhas que indicavam a Casa do Bom Pastor. Estava perto! Bastava um pouco mais de esforço e tudo ficaria calado! Continuou correndo. As luzes ficavam cada vez mais próximas. Distinguia já a imagem, de um suave colorido. Baixou a cabeça para não ver aquela expressão que parecia interrogá-la. Passou debaixo dela sem se deter. Mas, nesse preciso momento, uma voz máscula e doce obrigou-a a suspender a fuga:
— Pára e escuta! Que vais fazer, Inês?
A rapariga julgou-se presa de uma alucinação. Olhou em volta. Não viu mais do que a imagem do Bom Pastor, que parecia paralisá-la com a sua firme mas doce expressão. Caiu de joelhos, chorando. Não sabia  que dizer. Não podia articular palavra. Por ela, dizia-as o seu coração. Palavras de perdão, de acção de graças, de esperança, de conforto, de entrega total. Pedia o amparo divino. E chorava, chorava, soluçando...
Os cães de guarda, alarmados com a presença de uma desconhecida, dir-se-iam loucos de fúria. Pelo jardim corriam já o guarda, a mulher deste e os cães. Ao avistarem a rapariga de joelhos e chorando, o guarda e a mulher ficaram atónitos. Os cães abrandaram a fúria. E a mulher abaixou-se e levantou, docemente, a donzela.
— Que tens, minha filha?
Chorando ainda, embora com menos intensidade, a rapariga não pôde esconder a verdade que a consumia:
— Ia afogar-me no poço...
— Afogar? Mas porquê? Que te aconteceu?
Inês explicou toda a sua desdita e contou como ouvira a voz do Bom Pastor que a detivera.
A boa mulher acariciou Inês, e aconselhou-a a regressar a casa, oferecendo-se para a acompanhar.

Sentado em frente da porta da rua, mestre João esperava nem ele sabia bem porquê. Algo dizia dentro dele que antes que o sol penetrasse pelas janelas, outro sol mais forte o viria aquecer. E não se enganava, mestre João. De súbito ouviu passos. Conheceu a voz da filha, chamando:
— Pai!... Meu pai!...
Sem bem saber como, sentiu-se nos seus braços. Ambos choravam. Discretamente, a boa guardiã da Casa do Bom Pastor esperava afastada. Por fim, mestre João perguntou:
— Foi o Bom Pastor quem trouxe a minha ovelhinha desgarrada?
Inês, com os olhos marejados de lágrimas, perguntou surpreendida:
— Como o soube?
Foi a vez de mestre João mostrar surpresa.
— Então... foi mesmo… o Bom Pastor?
Aproximando-se, a boa guardiã da casa apalaçada contou a história a que havia assistido. E contou o tormento da jovem Inês. Comovido, mestre João narrou o que lhe acontecera desde que ouvira bater a porta de casa, à meia-noite.
Quando o homem terminou a sua narração, Inês sorria. Declarou:
— Pai, não se atormente mais por mim. Na estrada, quando Ele me deteve, eu formulei um voto: consagrar-me ao Divino Pastor. Vou tomar o hábito — se não se opõe — no convento da Encarnação.
E conta ainda a lenda velhinha que o tal Filipe de Brito, sabendo do acontecido pela mulher do guardião de sua casa, se enchera de remorsos e voltara para a Índia, donde trouxera toda a riqueza que o rodeava.

Fonte Biblio MARQUES, Gentil Lendas de Portugal Lisboa, Círculo de Leitores, 1997 [1962] , p.Volume IV, pp. 369-372

Place of collection-, LISBOA, LISBOA

Narrativa

When1610

CrençaUnsure / Uncommitted

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