Lenda da Castelã de Salir

APL 2839

Será a história da origem do nome de uma das mais belas e pitorescas vilas do Algarve, terra de encantamentos. Separada do Alentejo pela ribeira do Vascão, a linda e poética vila de Salir — a antiga Castalar — ergue-se preguiçosamente ao longo da ribeira que tem nome igual ao seu.
E a lenda, que não pode faltar onde existam coração e cérebro, lá está perpetuando a recordação do seu castelo agora em ruínas, e dos seus arredores maravilhosos donde se desfrutam panoramas de feitiço, desde a Cruz da Assumada até ao Cerro da Pena.
Dessa lenda milenária, onde a realidade se mistura com o sobrenatural, tão ao gosto do nosso povo, surgiu precisamente a transmutação do nome de Castalar em Salir.
É uma história de guerra em plena Primavera…
 
Sim, estava-se em plena Primavera. Cada flor era um grito de alegria, um hino de louvor à Natureza. O Sol brilhava a grande altura, fazendo refulgir as cotas de malha e os capacetes dos guerreiros no arraial. O exército cristão estava a postos. A luta ia recomeçar!
A terra algarvia era já quase toda terra portuguesa. Faltava Loulé e pouco mais. Tavira acabara de cair. E ali, nas terras fronteiriças ao castelo imponente da então vila de Castalar, D. Paio Peres Correia, o infatigável conquistador do Gharb, esperava apenas a chegada d’el-rei D. Afonso III para atacar um dos últimos redutos da mourama.

 
Do alto das ameias, o alcaide do castelo, Aben-Fabilla, olhava atónito para o exército forte e disciplinado que se espraiava pela planície em frente e que ele sabia de antemão não poder vencer. A raiva e o desespero enchiam-lhe o peito. Quase sufocava.
Para mais, sentia que a confusão começava a estabelecer-se em seu redor. Não havia possibilidade de resistência. Quando muito, havia possibilidade de fugir. E, mesmo assim, seria necessário não perder tempo...
Aben-Fabilla cerrou os olhos. Com força. Com ódio. Até fazer doer. Não conseguia coordenar as ideias em desalinho. Sim, a batalha estava perdida, ainda antes de começar. Alguns dos seus homens tinham já começado a debandada. Que esperava ele, então?
Decidiu-se. Voltou costas ao mar alto de guerreiros que inundava o plaino e reentrou nos seus aposentos.
Assim que o viu, sua filha, — que era também o seu grande amor — correu para ele.
— Que faremos, senhor meu pai?
Aben-Fabilla baixou a cabeça. Vencido. Desanimado. Impotente.
— Parece bem grande a provação que nos espera, minha filha! Decerto é desejo de Alá que percamos este castelo e toda esta terra!
— Acha que não os poderemos vencer?
Ele limitou-se a abanar tristemente a cabeça. E a limpar os olhos doridos de não quererem chorar.
Depois suspirou fundo, a retomar a sua decisão:
— Só nos resta fugir!
— Fugir?
A palavra encheu a sala. Mais pesada que o ar. Mais triste que o desânimo.
— Sim, minha filha, fugir. Fugir! É essa a ordem que eu desejaria não dar mas que se impõe de momento.
A bela moura ergueu os olhos lentamente. E lentamente murmurou:
— Que se cumpra a vontade de Alá!
Fitaram-se. Sem palavras. Comungando no mesmo sentimento. Na mesma derrota.
Porém o alcaide depressa voltou à realidade.
— Filha! Corre aos teus aposentos, junta as tuas jóias e vai reunir-te às outras mulheres que estão já a sair em direcção ao monte. É a nossa única possibilidade de salvação. Lá nos encontraremos depois.
E não a olhou mais. Se a tivesse olhado, ficaria com medo. A expressão da filha era demasiadamente estranha...

Mas o alcaide só pensava em esconder a sua fortuna, enterrando-a antes de abandonar o castelo. Um dia voltaria para recuperar esse tesouro que não podia agora levar consigo...
Entretanto, lá em baixo, na planície, registava-se movimento desusado. Os cristãos tinham descoberto já a fuga dos mouros e D. Paio Peres Correia dera ordem para atacar sem mais delongas.
A escalada do castelo começou imediatamente, no meio de alarido e confusão. Subia com os cristãos o clamor da vitória!
Mas quando transpuscram as ameias do castelo, uma grande surpresa os aguardava. Conforme nos conta a lenda: não viram um único mouro!
 
Apenas havia uma linda moura, ajoelhada, orando fervorosamente, como que alheada de tudo e de todos. Era a filha de Aben-Fabilla. A única pessoa que ficara no castelo, esquecida dos que fugiam em doido alvoroço.
O jovem e valoroso D. Gonçalo Peres, um dos homens mais corajosos das hostes portuguesas, foi o primeiro a vê-la. Correu para ela.
— Senhora! Que fazeis aqui?
A filha do alcaide ergueu-se serenamente. Olhou-o sem pestanejar. E falou, numa voz ainda distante e vaga:
— Estava orando, senhor.
A presença da jovem moura tinha algo de sortilégio. A sua beleza era gémea da sua altivez. E ambas pareciam filhas do sonho e da poesia desse fim de tarde nostálgico.
D. Gonçalo não reprimiu o receio que o assaltara num instante.
— Senhora, escutai-me... Castalar é nossa. Todos os vossos companheiros fugiram. Não quiseram lutar... Preferiram sair.
Entredentes, a moura murmurou, num misto de desolação e de raiva:
— Salir! Salir! Foi essa a ordem que lhes deram... É tudo o que sabem dizer...
Ele apiedou-se.
— É o que vós tendes a fazer também, senhora! Sair... ou salir, como vós dizeis. Mas não percais tempo... Sereis capturada ou morta, se vos apanharem! Compreendeis?
Cabeça erguida. Rosto imperturbável. Uma única resposta:
— Prefiro morrer... a salir!
Então, o jovem cavaleiro português enervou-se.
— Sois ainda muito nova para morrer. Muito nova e muito bela. Fugi, também! Saí por essa porta grande que dá para o monte… por essa porta por onde os outros saíram... Mas depressa, senhora, depressa!... Dentro em breve os meus companheiros estarão aqui!... E poderão pensar que eu fiquei encantado diante de vós!
— Encantado?
A pergunta soou como um desafio. E ela ergueu os braços. Numa atitude de prece, ou talvez de vitória.

Conta a lenda que nesse preciso momento, transtornado pela falta da filha que não encontrava em parte alguma, o velho Aben-Fabilla subiu ao ponto mais alto do monte onde se refugiara e avistou ao longe a sua figura delicada, batida pelos restos do sol da tarde, no alto da torre do castelo. E ela defrontava um cavaleiro português! Era preciso agir. Depressa Muito depressa!
E o velho alcaide não hesitou um só momento. Com a mão direita traçou no espaço o signo Saimão em direcção ao vulto da filha. Depois disse umas palavras misteriosas — e tudo se consumou no mesmo instante…
 
D. Gonçalo Peres já não sabia que dizer nem que fazer. Na sua frente a jovem moura murmurava apenas, naquele tom de voz que mais parecia suspiro:
— Não sóis vós que estais encantado... Sou eu que fico encantada.
E olhara-o insistentemente. Profundamente. Depois ficara-se na mesma posição, hirta como uma estátua. D. Gonçalo ouviu o barulho do que chegavam.
— Porque demorais tanto?
— Que fazeis aqui?
— Encontrastes algo de novo?
— Precisais de nós?
Tudo perguntas sem resposta. Surpreendido, estupefacto, o jovem D. Gonçalo olhava para a mulher que tinha na sua frente.
— Que bela estátua! — gracejou um.— Até parece viva!
— E não estará mesmo viva? — perguntou outro, em ar de brincadeira.
Foi a vez de D. Gonçalo Peres reagir:
— Calai-vos! Pois não vedes que ela é de pedra?
A sua voz, porém, tremia. Os outros entreolharam-se admirados.
— Nunca vi nada semelhante na minha vida! — confessou um deles.
— Deve ser uma das tais mouras encantadas! — sentenciou outro, a medo.
D. Gonçalo respirou fundo e voltou-se para eles:
— Deixemo-la em paz... É uma castelã de pedra... Temos de revistar o resto do castelo... Vamos!
A ordem não admitia réplica. Seguiram-no. Lá fora, a vozearia aumentava a cada momento. E a cada momento também, mais portugueses entravam no castelo conquistado.
Entretanto o Sol morria no seu ocaso, deixando na penumbra toda a paisagem dos arredores…
 
D. Paio Peres Correia escutava satisfeito os ecos da vitória que a brisa trazia até ele. Castelar estava em poder dos Portugueses. Agora, restava apenas Loulé, que ficava a dois passos. Depois, o Algarve ficaria definitivamente cristão.
De súbito, o jovem D. Gonçalo passou ao alcance dos seus olhos. Sorrindo, D. Paio Peres Correia chamou-o:
— Escutai! Corre por aí a notícia que a filha do alcaide Aben-Fabilla ficou encantada no castelo... Que me dizeis?
D. Gonçalo teve um gesto de incompreensão. De incompreensão ou de dúvida:
— Senhor! Eu falei-lhe… falei-lhe antes de que isso acontecesse!
D. Paio Peres Correia ergueu-se. A sua sombra projectou-se sobre o jovem cavaleiro.
— E tendes a certeza de que isso aconteceu? Não teria sido uma visão? Indicai-me onde ela está!
Caminharam rapidamente, seguidos por mais alguns curiosos. Mas, de súbito, D. Gonçalo estacou e fê-los estacar. A sua voz soava a sobressalto:
— Senhor... Senhor!... Ela desapareceu!
E absorto, em voz sumida, repetiu:
— Ela desapareceu! A castelã de pedra... desapareceu!
D. Paio Peres Correia abanou a cabeça lentamente.
— Enganais-vos, amigo! Daqui, ninguém podia ter fugido, depois de nós entrarmos. As nossas sentinelas têm estado sempre alerta!
— Mas, senhor... Eu toquei-lhe com estas mãos... Estava dura e fria como pedra... E antes tinha falado com ela... Ela própria me disse que ia ficar encantada!
Então, paternalmente, D. Paio Peres Correia poisou o seu braço forte no ombro do jovem D. Gonçalo. Voltou a sorrir e aconselhou:
— Ide descansar. Deveis estar fatigado... A campanha tem sido violenta... Precisais de um pouco de repouso...
Depois, voltou-se para os outros, que os acompanhavam, e esclareceu:
— Não há dúvida: foi tudo uma ilusão. Antes de chegarmos, já ela tinha fugido também. Saiu com os outros para o cerro grande onde agora estão penando e onde nós iremos apanhá-los. De nada lhes serviu salir...
Passou a mão pelo rosto e baixou a voz, como que a falar consigo próprio.
— Salir… Salir era o grito de todos eles... Pareciam loucos a correr para a serra. Sim... Salir seria talvez um bom nome a dar a esta terra, de futuro, como lembrança da fuga precipitada dos últimos mouros do Algarve... Salir!
Prosseguiram o caminho em silêncio. Apenas o jovem D. Gonçalo ficou parado a olhar em sua volta.
A olhar e a pensar:
— Meu Deus, teria eu sonhado? Teria sido tudo uma ilusão? Não, mil vezes não!... Eu falei-lhe... Eu toquei-lhe... Ela deve ter ficado aqui encantada para sempre!... .
E, devagarinho, tomou o rumo dos outros. Mas hesitante. Desconfiado. Sentindo o mistério que o rodeava...

Fonte Biblio MARQUES, Gentil Lendas de Portugal Lisboa, Círculo de Leitores, 1997 [1962] , p.Volume III, pp. 255-259

Place of collection Salir, LOULÉ, FARO

Narrativa

When XIII Century,

CrençaUnsure / Uncommitted

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