Lenda da Conquista do Pé Nela

APL 2840

Quando el-rei D. Afonso Henriques soube o que se passara, deu largas à sua cólera.
— Pois que é feito dos meus valentes homens de armas, que assim se deixam vencer pelos mouros?
Bem tentaram explicar ao primeiro rei de Portugal que a conquista dos dois castelos tinha sido conseguida devido à grande superioridade numérica das forças muçulmanas e, mesmo assim, com pesadas perdas da parte deles. Mas o monarca não se convenceu.
— Calai-vos? Acaso, alguma vez os portugueses, quando lutam, querem saber quantos são os adversários? Isso não importa! O que importa, sim, é reavermos o mais depressa possível esses dois castelos!... Vamos, saí, e deixai-me pensar!
 
E o jovem monarca, então nos alvores da sua saga triunfal, pensou de facto maduramente no desaire que os guerreiros portugueses tinham sofrido. Havia que reconquistar os dois castelos. Mas como, se, para mais, os mouros se dispunham a fazer deles dois baluartes inexpugnáveis, que impedissem o avanço das hostes portuguesas?...
 
A verdade — embora pareça estranha — é que o pensamento de D. Afonso Henriques só se concretizou vinte e um anos depois! 
Tal como a História regista, desde 1127 — ano em que os mouros se apossaram dos dois castelos — até ao ano de 1148, andou o rei português empenhado noutros planos de conquista. Mas ele não era homem para esquecer os seus compromissos. E assim, ainda que vinte e um anos depois, chegou o dia em que chamou os seus homens mais fiéis. E entre eles escolheu D. Antão Gonçalves para a missão que decidira.
— Ide e levai os vossos cavaleiros. O castelo de Sobral encontra-se quase desguarnecido de defesa. Será fácil assaltá-lo e conquistá-lo. Não o deixeis nas mãos do inimigo!
— Farei o que puder, meu rei e senhor. Que Deus nos proteja!
— Há-de proteger, descansai!
E assim aconteceu!
Sem dificuldades de maior, D. Antão Gonçalves apossou-se do castelo do Sobral, que vinte e um anos antes fora reconquistado pelos Mouros. 
— Falta agora apenas o outro castelo, Senhor!
El-rei D. Afonso Henriques ergueu a cabeça e atirou o olhar para longe.
— É verdade, mas esse é mais difícil de tomar. Contudo, pára nós, a sua posse tem grande valor.
D. Antão Gonçalves avançou alguns passos.
— Se permitis, Senhor meu rei...
— Dizei.
O moço cavaleiro olhou em redor e prosseguiu, baixando a voz:
— A filha do governador desse castelo é a moura mais linda que eu conheço...
— Sim? Já a vistes?
— Bastantes vezes, Senhor... E ela também já me viu...
D. Afonso Henriques olhou-o com mais insistência.
— Estou a compreender-vos, Antão Gonçalves... Estais apaixonado por ela, não é verdade?
— Sim, meu Senhor...
— Então, qual é o vosso plano?
— Senhor, farei de conta que sou um cristão renegado, e que por amor da bela moura me quero converter à religião de Mafoma. Ela acreditará. Estou certo de que acreditará. E eu poderei entrar livremente no castelo e preparar o assalto como melhor me parecer.
— Orgulho-me de vós, Antão Gonçalves — disse o rei, sorrindo. — Mas parece-me demasiado o risco que ides correr.
— Oh, meu Senhor! — retorquiu o cavaleiro sorrindo também. — Que risco poderá ser demasiado para empresa tão grande e necessária?
E logo ali ficou assente entre ambos, no maior segredo, que o jovem Antão Gonçalves tentasse a ousada aventura.

Chamava-se Alina, a filha do governador. E era realmente muito bela. Deliciosamente bela.
A linda moura já dera pela presença do jovem cristão rondando o castelo e olhando-a de longe. Porque não confessá-lo? O seu coração ainda virgem de amor pulsara mais forte e mais apressado, quando o viu. Mas ele era cristão e ela era moura...
Nessa noite, Alina, recostada no seu varandim, olhava o céu escuro. Como faziam falta as estrelas!... Como preferia as bonitas noites de Primavera a essas pesadas noites de Inverno!... Em todo o caso, a brisa que corria, acariciando-lhe os cabelos, sabia-lhe bem. Dava-lhe uma suave sensação de prazer. Quase uma sensação de sonhar acordada...
Foi talvez por isso que não se assustou muito quando viu surgir aquele vulto diante de si. Parecia-lhe que continuava a sonhar...
Porém o vulto falou, e o sonho desfez-se.
— Não vos assusteis...
E agora, sim, ao olhá-lo de frente e ao reconhecer nele o ousado cavaleiro cristão, ela assustou-se de verdade. Tremia. A sua voz mal se ouviu.
— Que quereis daqui, senhor?... Fugi depressa, que vos podem matar!
Ele sorriu meigamente.
— E causar-vos-ia pesar a minha morte, Senhora? Oh, como vos agradeço do coração!
Inquieta, sem saber que fazer ou dizer, Alina, a bela princesa moura, inquiriu de novo, ainda mais trémula:
— Mas que desejais daqui, senhor?
— Apenas falar convosco.
E sem que ela pudesse opor-se, o jovem cavaleiro cristão confessou-lhe todo o seu enorme tormento. Como a conhecera e desde logo se apaixonara por ela... Como vivera ardendo no desejo de lhe falar... Como resolvera abandonar os seus companheiros para sempre, e ir oferecer-lhe o seu amor devotado e fiel.
— Acreditais em mim, Alina?
— Acredito… e agradeço a Alá ter-vos enviado ao meu encontro!
Ele baixou os olhos. Timidez? Embaraço? Remorso? Só ele o sabia. Depois, Alina confidenciou:
— Ide falar com meu primo Ibdne-Salat e dizei-lhe que eu lhe peço para vos arranjar abrigo esta noite. Amanhã falarei com o senhor meu pai.
Cavalheirescamente, D. Antão Gonçalves ajoelhou-se e beijou-lhe a mãozinha delicada e trémula. E esse beijo soube a perfume. Soube a lábios. Soube a amor!
 
Gostando como gostava de sua filha, o velho governador também acreditou em tudo o que ela lhe disse. De modo que o jovem D. Antão Gonçalves, transformado em mouro, passou a ser o noivo da bela princesa. Mas embora sinceramente enamorado, ele não se deixava prender apenas pelos devaneios. Logo na noite seguinte, depois de Alina adormecer, tão habilmente como entrara saiu do castelo. E dirigiu-se ao acampamento dos portugueses, que se encontravam bem perto, aguardando o sinal para o assalto...
Mal entrou no acampamento, usando as senhas previamente combinadas, Antão Gonçalves correu a dar notícias a D. Afonso Henriques. 
— Então?... Tudo bem?
— Graças a Deus!
E o jovem capitão português descreveu ao rei como estava organizada a defesa do castelo. E informou-o de que na manhã seguinte os mouros iriam sair até à ribeira próxima, para dar de beber ao gado.
Os olhos de D. Afonso Henriques brilharam com mais fulgor.
— Que dizeis? Repeti!
Antão Gonçalves repetiu o que acabara de anunciar. E o primeiro rei de Portugal ergueu-se, tomado de alegre alvoroço.
— Eis a ocasião que eu procurava, Antão Gonçalves!... Chegou a hora de conquistarmos o castelo. Escutai...
E em segredo — de forma a que nem a brisa da noite pudesse ouvir as suas palavras — o rei expôs ao cavaleiro o seu plano de ataque. E à medida que escutava, Antão Gonçalves sorria.
— Amanhã, o castelo será nosso, Senhor meu rei!
— Se Deus quiser, será, Antão Gonçalves!
 
Na manhã seguinte, tal como estava previsto, um grupo de mouros saiu do castelo para ir dar de beber ao gado na ribeira vizinha.
Antão Gonçalves (que não conseguira sequer ter tempo para dormir) andava por ali, espreitando tudo e todos como se nada fosse com ele. O primo de Alina, Ibdne-Salat, fora o escolhido para chefiar o grupo que saíra, e isso deixou o jovem Antão Gonçalves mais à vontade.
Ele viu a abalada dos homens e do gado, no meio de grande alegria. Depois, aguardou calmamente que Alina se levantasse e, como de costume, fosse catar seu pai no bonito varandim situado junto às ameias.
Sorriu-lhe de longe, acenando-lhe meigamente; e, correspondendo à chamada que ela fazia, apressou-se a subir. 
— Que Alá esteja convosco...
O governador olhou-o.
— Sentai-vos aqui, mancebo... Temos de combinar com minha filha Alina a festa nupcial. 
Os dois jovens olharam-se e sorriram. Olhar de amor. Sorriso de amor. Entretanto, o velho governador desenvolvia o seu projecto para uma festa sem par nas redondezas...
Assim o tempo foi passando, até que Alina deu pelo regresso grupo que saíra.
— Vede, meu pai... Enfeitaram o gado com grandes ramos... Vede que bonito efeito isso faz!
O velho governador espreitou sem grande interesse e voltou a recolher-se à sombra, entregando a cabeça aos cuidados de Alina.
— Cata, minha filha, cata...
Para Antão Gonçalves, aqueles instantes eram de sofrimento. Ele sabia que tudo aquilo fazia parte do plano de D. Afonso Henriques. E só esperava o momento de actuar.
A certa altura, fixando melhor o grande grupo que se aproximava, Alina perguntou ingenuamente:
— Meu pai, as moitas podem andar?
O velho governador riu e não respondeu. Mas Alina estava confusa. De facto, além do gado vir enfeitado com ramadas, ela tinha a impressão de que no meio dos animais se deslocavam autênticas moitas de arvoredo.
— Oh, meu pai, vede bem... As moitas estão a andar!
Antão Gonçalves pôs-se alerta. Mas o velho governador voltou a soltar uma alegre risada e a dizer:
— Ora, minha filha, estás doidinha, com certeza!...
Porém Alina tomou a insistir.
— Pois eu vejo as moitas a andar, no meio dos animais, meu pai!
Estranhando a insistência, o velho governador abriu os olhos e fixou-os no grupo, que atravessava nesse momento a porta do castelo.
— Moitas a andar? Que loucura!
Mas de repente deu um salto, tão ágil como se tivesse menos idade, e exclamou:
— Tens razão! As moitas andam!... Fomos traídos!
Logo o grito de alarme soou pelas ameias, chamando todos às armas. Mas era tarde. Muito tarde! Encobertos pelas ramadas das árvores e de mistura com os animais (cujos guardas tinham sido mortos junto à ribeira, segundo o plano de D. Afonso Henriques), os guerreiros cristãos saltavam sobre os inimigos desprevenidos, matando-os sem dó nem piedade.
E o jovem D. Antão Gonçalves, perante o olhar espantado da bela Alina, correra a abrir outra das portas do castelo, gritando a plenos pulmões:
— Avancem!... A praça é nossa!... Estamos com o pé nela! 
E logo o próprio rei D. Afonso Henriques e os seus homens mais desenvoltos, aproveitando a porta aberta por Antão Gonçalves — que para sempre ficaria depois a ser chamada a Porta da Traição — entraram no castelo, que nunca mais deixou de ser português. E dizem que foi da exclamação do moço prometido de Alina — que ele traiu pelo seu rei — «Estamos com o pé nela!» — que derivou o nome de Penela, dado ao castelo e à povoação.

Fonte Biblio MARQUES, Gentil Lendas de Portugal Lisboa, Círculo de Leitores, 1997 [1962] , p.Volume III, pp. 263-267

Place of collection-, PENELA, COIMBRA

Narrativa

When XII Century,

CrençaUnsure / Uncommitted

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