Lenda da Dona Branca

APL 2825

Reinava então em Silves, a velha Chelb de outrora o valente rei mouro Ben-Afan, famoso pela sua inteligência e pela sua coragem.
Diz a lenda que em certa noite de tempestade, num interregno das suas lutas contra os cristãos, Ben-Afan teve um sonho extraordinário. Verdadeiramente extraordinário!
Durante largo tempo, sentiu-se delirar entre a realidade e o sobrenatural. Torcendo-se no desespero que o amargurava, Ben-Afan gritava, coberto de suor:
— Mas que sonho eu? Que vejo eu? Libertem-me!... Eu não quero mais fantasmas!... Deixem-me sair daqui! ... Deixem-me fugir!...
Mas não podia. Continuava agarrado ao pesadelo que o assaltava e zunia dentro dele como autêntico vendaval.
— Oh, vento maldito, vento infernal!... Amaina um pouco, por piedade!...
E logo, num novo acesso de perturbação, ele voltava a gritar ainda com mais violência:
— Oh, aí vêm os vampiros!... Aí vêm os vampiros que querem chupar-me o sangue!... Malditos! Malditos!... Não posso mais...
E exausto, arquejante, sentindo-se morrer em vida, Ben-Afan ficava por momentos prostrado sobre o leito, sem dizer palavra. Mas logo voltava a murmurar, com voz rouca:
— Não posso... não posso mais!... Toda a noite tenho vivido uma eternidade de sofrimento... Prefiro que me matem… que acabem comigo, duma vez para sempre!...
De súbito, o vento que o agitava em sonhos amainou. Mas não diminuiu o seu espanto. A sua voz subiu de intensidade.
— Que é isto? Que vejo eu agora?... Leves, leves formas girando, diáfanas... Parecem anjos de asas brancas... E que maravilhoso coro chega aos meus ouvidos!...
Sentia-se envolvido por eflúvios de perfume e acordes de musica. Música vinda não sabia de onde nem porquê. E não tardou que seu espanto se tornasse ainda maior.
Ao ritmo daquela divina música, parecia formar-se no espaço uma figura de mulher divinamente bela.
— Pois não estou eu vendo a mais fascinante das visões que tenho tido em toda a minha vida?...
irresistivelmente, os seus braços estenderam-se em direcção à imagem sedutora.
— Diz-me, donzela que me sorris e me fascinas!... Diz-me, donzela, quem és tu?... Sim, quem és tu? E que significa essa cruz que trazes ao peito?...
Mas logo, caindo em si, soltou um berro de furor. Um berro de ódio e de revolta:
— Maldição! Maldição! Esta é a cruz minha inimiga!
Os berros transformaram-se em gemidos.
— A cruz é minha inimiga... Mas eu adoro-te... adoro-te, linda donzela que me vieste salvar!...
O sonho desvaneceu-se. Ben-Afan ficou de borco, alagado em suor, até que o Sol o despertou, entrando por uma janela do seu alcácer de Silves.
 
No dia seguinte, ainda impressionado pelo espantoso sonho que tivera, o rei Ben-Afan procurou a boa fada Alina, que era a sua conselheira de sempre.
— Alina... Alina… por tudo te peço que me digas a verdade...
Ela sorriu docemente.
— Rei mouro, tu bem sabes... Nem sempre se pode dizer a verdade!...
Depois, inclinando-se para ele, ajuntou devagarinho:
— Mas pergunta, pergunta à vontade... Que queres tu saber?
Ben-Afan silenciou durante alguns momentos, antes de se decidir falar. Por fim, disse:
— Alina, tive um sonho espantoso, que umas vezes me parecia terrível, e outras vezes me encantava... Queres que te conte o meu sonho?
Alina, a boa fada, voltou a sorrir.
— Não é preciso, rei mouro...
Ele fitou-a sem compreender.
— Mas tu não sabes, Alina...
A boa fada interrompeu-o, em tom incisivo.
— Sei, sim, rei mouro… Sei.
E voltando ao tom natural da sua voz bonita, continuou:
— Fui eu própria que te enviei esse sonho, Ben-Afan!... Daqui em diante, a tua vida vai modificar-se por completo.
Perante o ar cada vez mais intrigado do rei mouro, Alina estendeu-lhe dois pequenos ramos.
— Olha bem para mim, Ben-Afan... Toma estes dois ramos. Vês?... Um deles tem a flor da murta. O outro, a flor do louro. Agora, escuta... A murta significa o amor. O louro representa a glória... Conforme os ramos murcharem ou florirem, tu verás qual deles deves seguir.
E como ele quedasse de olhos fitos nos dois ramos, a boa fada Alina empurrou-o docemente para a saída. E a sua voz voltou a ganhar aquele tom autoritário a que ninguém sabia resistir.
— E agora vai, segue o teu destino, rei Ben-Afan... No mosteiro do Lorvão, alguém espera por ti!
O rei mouro reagiu, como se estivesse a braços com outro sonho.
— No mosteiro?... Disseste no mosteiro do Lorvão?... Mas não é possível!... Quem poderia esperar aí por mim?
A resposta veio pausada, sem qualquer hesitação.
— Espera-te aquela que o amor escolheu para tua companheira... Chama-se Branca e é princesa de Portugal!
Como num eco, Ben-Afan repetiu, atónito:
— Branca... Princesa de Portugal...
Num gesto largo, Alma apontou-lhe a saída.
— Vamos, não percas mais tempo... Faz o que te digo. Segue o teu destino!

Obedecendo ao mando profético de Alina, Ben-Afan, rei mouro, tomou irresistivelmente o rumo do mosteiro do Lorvão, onde as religiosas se despediam de uma companheira, muito jovem ainda. Era a princesa Dona Branca, filha d’el-rei D. Afonso III de Portugal.
Segundo reza a tradição, para poder entrar no mosteiro, Ben-Afan teve de disfarçar-se de eremita.
Reunidas no coro, as monjas entoavam o cântico de despedida. E a princesa Dona Branca mais sobressaía, em beleza e juventude, emoldurada pelo carinho emocionado das irmãs.
Maravilhado, Ben-Afan pensou de si para si:
— Será possível que o amor tenha escolhido para mim jovem tão bela e tão pura?!...
Aproximou-se mais, para a ver melhor. E o seu olhar turvou-se de espanto.
— É a mesma… a mesma que eu vi em sonhos!... E lá está a cruz... Lá está a cruz pendendo do seu peito, tal qual como eu a vi...
Baixou a cabeça. Estremecia de emoção. E murmurou:
— Pobre de mim!... Pobre dela!...
O cântico chegara ao final. Ao abandonar o coro, a jovem Dona Branca reparou naquele peregrino, mergulhado em puro êxtase.
Estacou, para dizer às monjas que a acompanhavam:
— Irmãs, olhem aquele homem... Que eremita maravilhoso!... Parece estar longe de todos nós, entregue apenas às suas orações...
Soltou um suspiro. Ben-Afan ergueu a cabeça. Nesse instante os seus olhares cruzaram-se. Encontraram-se. E essa troca de olhares uniu-os para sempre!
 
Finda a cerimónia, o rei mouro, mais excitado do que nunca, correu a reunir-se aos seus fiéis companheiros, que o esperavam na cerca, prontos a intervir em caso de perigo. E com eles se escondeu por detrás de um alto monte, junto da estrada que conduzia a Coimbra.
Ben-Afan preparara cuidadosamente o seu plano. Estava seguro do resultado. E ansiava pelo momento do triunfo.
Deu as ultimas ordens:
— Quando eu gritar: «Real, Real, por Branca Rosa, Flor de Portugal», lançai-vos sobre o séquito da princesa… O resto é comigo!
 
Escondidos atrás do monte, a meia encosta, dominando o caminho, os companheiros de Ben-Afan esperaram durante algum tempo. Todos estavam impacientes. Eles gostavam da luta — e não da expectativa, do silêncio, da quietude…
Foi com alegre alvoroço que ouviram aproximar-se o tropel dos cavalos e das mulas que compunham o séquito da princesa. E logo um brado correu os espaços, subindo o monte e estendendo-se pelos vales:
— Real, Real, por Branca Rosa, Flor de Portugal!
Tudo se passou com fulminante rapidez. Quase sem dar por isso, sem saber ao certo o que se estava a passar, a jovem Dona Branca sentiu-se arrancada das andas em que seguia e pousada na garupa de um cavalo que partiu veloz como o vento, dominado pela mão segura do tal eremita misterioso que ela vira no mosteiro.
Esperava-os do outro lado do monte um castelo encantado, que a boa fada Alina fizera surgir de propósito... Aí se refugiaram então, conforme o povo conta e acredita, o rei mouro Ben-Afan e a jovem Dona Branca infanta de Portugal...
 
Tinham nascido um para o outro. Aquele era o destino de ambos — dissera a boa fada Alina, e esta nunca se enganava.
Tomando-a nos braços, o rei mouro dizia à infanta cristã:
— Agora sabes quem eu sou e já me perdoaste, não é verdade?
E ela, afagando-lhe os cabelos, respondia:
— Perdoei, sim... Desde o momento em que te vi pela primeira vez, senti que algo de estranho me atraía...
O rosto de Ben-Afan iluminou-se.
— Era o amor, Branca... Era o amor!
E os dois, unidos no mesmo arroubo de paixão, mais se amaram ainda.
— Já se viu coisa mais singular?... Uma princesa de Portugal, uma princesa cristã… perdida de amores por um rei mouro!...
Riram-se. E os risos soaram a beijos.
— Mais singular ainda é ver um rei mouro perdido de amores por uma princesa cristã...
Tornaram a rir. Mas agora com menos alegria. Com menos entusiasmo. Como se dentro de cada um deles algum pensamento os inquietasse.
Ben-Afan mostrou-lhe os dois ramos que recebera das mãos de Alina.
— Vês, Branca?
— Vejo. Que ramos são esses?
O rei mouro explicou:
— Deu-mos Alina, a fada que me aconselha. Este é um ramo de murta, que simboliza o amor... E este, um ramo de louro, que simboliza a glória... Olha bem para eles, Branca!... Vê o que lhes acontece...
A jovem infanta de Portugal não conseguiu evitar um estremecimento.
— Meus Deus!... O ramo de louro está quase seco... E o ramo de murta mostra-se viçoso...
Ben-Afan caiu de joelhos diante dela e beijou-lhe voluptuosamente as mãozinhas delicadas.  
— É isso mesmo, minha linda princesa!... A fada Alina tinha razão. É o amor que triunfa… e é a glória que se acaba!
 
Durante alguns meses, Ben-Afan e Branca, loucamente enamorados, viveram o seu amor no palácio encantado, esquecidos do mundo e do tempo. Mas um dia chegou a má nova de que el-rei D. Afonso III se preparava para atacar também a portentosa cidade de Silves. E Ben-Afan o rei mouro, sentiu que era chegado o momento derradeiro do seu amor.
— Branca, minha Branca! Tenho de partir... tenho de lutar!
Ela agarrou-se desesperadamente ao bem-amado, num impulso de paixão e no desespero de um negro pressentimento.
— Não, não vás!... Por tudo te peço!... Não vás, meu amor, porque a morte te espreita! Não vás!
Tristemente, Ben-Afan olhou-a uma vez mais. Abraçou-a uma vez mais. Beijou-a uma vez mais, e disse com amargura:
— Bem quisera não ir, meu amor. Mas irei!
E partiu, montado no seu corcel veloz, enquanto a jovem Dona Branca ficava chorando de desespero e de saudade...
Já os portugueses, levando os mouros de vencida, eram senhores do campo e do castelo de Silves, quando Ben-Afan apareceu em pleno combate, indómito e ousado como sempre. Do alto da sua montada, ele gritou aos seus, num arranco de coragem:
— Não se rendam! Aqui estou eu!... É o Rei do Algarve que vos vem salvar!
Mas logo um cavaleiro cristão surgiu na sua frente, rindo de escárnio.
— Pois guarda-te de mim, tu, que dizes ser ainda rei do Algarve!... Era só por ti que eu esperava, para a nossa vitória ser completa!
— E tu quem és, que assim ousas provocar a minha cólera?
O outro voltou a rir, num ar de desafio.
— Olha bem para mim, último rei mouro do Algarve!... Tens na tua frente o Mestre de Sant’Iago, e aqui te juro, Ben-Afan, que a tua cólera me não mete medo…
E é tradição secular que todos deixaram de combater, para que os dois se defrontassem sozinhos.
O choque dos dois contentores foi brutal. Ambos fizeram prodígios de bravura. Mas Ben-Afan, atormentado pela saudade de Dona Branca, amolecido pelo amor, não era o mesmo invencível guerreiro que já fora. E o Mestre de Sant’Iago acabou por sair vencedor, derrubando o adversário com um golpe fatal.
Atirado por terra, sentindo a morte aproximar-se vertiginosamente, Ben-Afan ainda conseguiu murmurar algumas palavras, entrecortadas pelo estertor da agonia:
— Branca... meu amor... vou morrer!... Não mais te verei, minha Branca... Adeus!... Adeus, meu amor!
E nesse momento, em que os próprios inimigos lhe prestavam honras pela sua coragem e valentia, alguém viu nas mãos ensanguentadas de Ben-Afan dois pequenos ramos: um de murta e outro de louro. E o de murta, que era o do amor, murchava suavemente... E o de louro, que era o da glória, tomava-se mais fresco e mais belo do que nunca.

Fonte Biblio MARQUES, Gentil Lendas de Portugal Lisboa, Círculo de Leitores, 1997 [1962] , p.Volume III, pp. 125-130

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When XIII Century,

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