Lenda da Gruta de Peniche

APL 3024

Entre as antigas histórias de amor não são raras aquelas em que os enamorados pertencem a famílias separadas pelo ódio. Daí provém a tragédia que envolvia as suas vidas, num tempo em que os ditames do coração não faziam lei.
A lenda que vamos contar é conhecida em muitos países da Europa. Em Espanha contam-na com o título de «Passos de D. Leonor». Em França chamam-lhe «Os enamorados que o mar uniu». Na Escócia, onde abundam as lendas, chamam-lhe «Lenda de um amor de Peniche». Em todas elas se encontra a perseverança de dois enamorados que o amor atraiu mas só a morte juntou.

Antigamente, quando Peniche era uma ilha, viveram ali duas famílias poderosas que sempre se digladiavam em poderio e ambição. Eram elas a família do Outeiro e a família da Praça. Um dia, o jovem Rodrigo, pertencente à família da Praça, envolveu-se em desordem com os da Casa do Outeiro e, sem saber como, viu-se dentro dos muros da casa inimiga. De súbito, no mais renhido da luta, divisou um rosto de beleza angelical. A distracção ter-lhe-ia custado a vida se não fosse o grito da jovem Leonor que, num impulso superior a si própria, advertiu o jovem Rodrigo do perigo que corria. A luta prosseguiu e, depois de alguns ferimentos de parte a parte, Rodrigo e a sua comitiva desceram à Praça. Todavia, não mais o jovem esqueceu Leonor, nem Leonor conseguiu olvidar a figura elegante e o olhar profundo do jovem D. Rodrigo.
Poucos dias depois, estava Leonor contemplando o mar quando ouviu chamar baixinho pelo seu nome:
— Leonor...
Sobressaltou-se. Debruçou-se na varanda e viu sobre as rochas, numa posição destemida, o jovem D. Rodrigo. Leonor preveniu, aflita:
— Senhor! Podeis precipitar-vos no oceano!...
Ele respondeu cavalheirescamente:
— Se essa ideia fizer bater de receio por mim o vosso coração, darei feliz a minha vida!
Leonor sorriu.
— D. Rodrigo, não deveis expor a vida assim!
— Precisava falar-vos. E pensei que, vindo por este lado, ninguém nos incomodaria.
— Tomai cuidado! Estais só. E se os meus vos descobrem...
— Fostes vós quem eu descobri primeiro! E logo o meu coração pulsou mais forte!
— Muito me agrada ver-vos, mas não deveis ser tão audacioso. Bem sabeis que um amor entre nós está de antemão condenado!
— Talvez ele seja tão forte que mate o ódio que separa as nossas famílias!
Ela suspirou:
— D. Rodrigo! Sabeis tão bem como eu que é impossível voltar a ver-me!
O jovem teimou:
— Havemos de vencer! Voltarei amanhã aqui, ao pôr do Sol!
— Cuidado, o trajecto é arriscado! Não quero que vos aconteça nenhum mal!
— Graças, Leonor! Se soubésseis como me sinto feliz! E levei eu tanto tempo sem saber que a Leonor de quem ouvia falar era um anjo como outro igual não vi!
Ela sorriu enleada. Olhou as vagas que rugiam ameaçadoras de encontro às rochas e se desfaziam em espuma. Depois teve um arrepio de medo e murmurou:
— Ide! Voltai, mas com prudência! Se não fosse o recear por vós... seria tão feliz!
O impetuoso D. Rodrigo atirou-lhe um beijo. Depois, começou a descer lentamente pela rocha escarpada.

Estas entrevistas de amor foram-se repetindo, cada vez com maior entusiasmo. Rodrigo e Leonor trocaram juras de fidelidade que nem a morte poderia romper. Mas, um dia, o velho senhor do Outeiro, informado dos amores de sua filha, correu à varanda para a surpreender. Vendo-a, gritou-lhe:
— Não esperes quem não te merece!
Leonor assustou-se.
— Senhor meu pai!... Na verdade... Rodrigo demora...
E numa expressão dolorosa:
— Fizeram-lhe algum mal?
Vendo-a tão aflita, o pai ficou desorientado.
— O quê? Tanto significa para ti esse homem?
Leonor rojou-se-lhe aos pés, confessando:
— Senhor... amo Rodrigo irremediavelmente!
O pai gritou-lhe, colérico:
— Assim ultrajas o nome da nossa família!
Entre soluços, a donzela exclamou:
— Como esta gente se odeia! E nós que tanto gostamos um do outro!
Levantou-se, rosto molhado pelas lágrimas, suplicando:
— Dizei-me, senhor meu pai: que fizeram de Rodrigo que não apareceu hoje?
O pai sossegou-a:
— Nada... porque a minha gente não o encontrou. Mas consta-me que os outros também foram informados da vossa traição. E o pai dele é mais cruel do que eu, que te amo bastante!
Sentindo um ponto fraco, Leonor tentou demovê-lo.
— Senhor, tende compaixão de nós, que somos jovens e amamos a vida! Esse ódio é feito de um passado que já vai longe. Ajudai-nos, senhor meu pai!
O senhor do Outeiro meneou a cabeça.
— Filha, esquece esse homem! Mesmo que eu vos deixasse partir, os outros nunca o consentiriam! Lembra-te das minhas palavras.
— Rodrigo é homem e valente!
— Mas deve obediência a seu pai. Obrigá-lo-ão a esquecer-te.
— Nunca! Jurámos amar-nos mesmo para além da morte!
— Pois que se amem, mas que se não vejam!
— Juramos romper com tudo quanto tentasse separar-nos!
— Que dizeis, Leonor?
— O que acabastes de ouvir, senhor meu pai!
— Isso é verdade?
— Acreditai que sim.
— Muito expedita vos encontro, Leonor, desde que falais com esse homem! Pois, embora muito me pese, de hoje em diante ficarás encerrada na torre até te sentires curada! E que Deus nos proteja!
 
A partir desse dia, Leonor ficou encerrada na torre mais alta da Casa do Outeiro. Era chamada a Torre das Pombas, porque servia de ninho às pombas das redondezas. A prisioneira chorava mais por não saber de Rodrigo do que por estar isolada do mundo. Ora, D. Rodrigo não aparecera nessa tarde porque antes de iniciar o passeio costumado o pai lhe ordenara que fosse falar-lhe. Mal viu o filho, o senhor da Casa da Praça vociferou:
— Infame! És indigno de usar o meu nome!
D. Rodrigo compreendeu logo a causa de tamanha excitação. E tentou ganhar tempo, lembrando:
— Senhor, estais a ser precipitado no vosso julgamento.
O velho fidalgo ainda mais se exasperou:
— Pois ousas falar-me assim? Achas pouco andar de amores com uma mulher do Outeiro?
Tão sereno quanto possível, Rodrigo retorquiu:
— A mulher a que aludis é a jovem D. Leonor, rosto e alma de anjo, vítima como eu de um ódio insensato!
— Que dizeis? Falas em insensatez, tu que namoricas a filha do algoz de muitos dos teus amigos e parentes?
— E de quantos amigos e parentes de Leonor sois o algoz?...
Um berro cortou a palavra a D. Rodrigo:
— Ingrato! Como ousas falar-me assim?
— Fortalecido pelo amor de Leonor!
— Pois esquece-a, se queres ter liberdade!
— Não mais a poderei esquecer! Amo-a para a vida e para além da morte!
— Pois será como se tivesses morrido!
E chamando, colérico:
— D. Rui!
Um homem que Rodrigo bem conhecia e exercia como que o cargo de chefe da polícia entre os da Praça, surgiu por detrás de um reposteiro. Já ali devia estar desde o início do azedo diálogo.
— Senhor, que ordenais?
O senhor da Praça perguntou:
— Está tudo pronto?
— Tudo, senhor.
— Pois levem-no!
A um gesto de D. Rui, mais dois homens se acercaram de D. Rodrigo. Perplexo, o jovem perguntou:
— Para onde me levais?
Foi o pai quem respondeu:
— Já que não cedeis à razão, tereis de ceder pela força. Decidi que sejas encerrado imediatamente no mosteiro da Berlenga.
E num tom mais brusco ainda:
— Desarmem-no e levem-no! Porque esperam?
Sentindo-se desarmado, D. Rodrigo exclamou:
— Senhor! Que ao arrancar-me a espada não me leveis também a honra! Porque a vida, separando-me de Leonor, vós ma tirais!
E dando costas deixou-se conduzir sem aparente revolta.

Tal como Romeu e Julieta, em face da tirania paterna os dois jovens sentiram aumentar o amor que os dominava. As pombas que faziam ninho na torre do Outeiro começaram a servir de mensageiras. E um dia Rodrigo soube que a sua amada teria facilidade em falar-lhe nessa noite, numa gruta que ficava junto à torre, por intermédio de uma aia compadecida do seu sofrimento. Rodrigo arranjou também maneira de sair do mosteiro, altas horas, com a ajuda de um barqueiro a quem pagava bem para ir falar a Leonor.
O encontro entre os dois enamorados foi emocionante. Ficaram enlaçados minutos seguidos, sem nada poder dizer. Depois, começaram a fazer planos para o futuro. Todavia, Leonor recomendou prudência. Melhor seria encontrarem-se assim durante algum tempo, enquanto os ânimos serenavam. Tentariam, a bem, resolver a situação.
Na noite seguinte, Rodrigo esperava impaciente na gruta. Leonor tardava. Alteou a pequena fogueira que marcava o local para onde Leonor se deveria dirigir. Ele sofrera torturas para atravessar o mar revolto numa pequena embarcação. Ela teria de saltitar de rocha em rocha no negrume da noite e exposta ao vento. Ambos arriscavam a vida para se encontrarem por duas ou três horas.
O mar rugia ameaçador. O vento uivava, lúgubre. A noite era escura. As labaredas da fogueira dançavam macabramente. Às vezes pareciam mesmo extinguir-se. De súbito, Rodrigo ouviu vozes. E uma delas chegou mais alta, trazida pelo vento. Era a do senhor do Outeiro.
— Leonor! Leonor, vem cá! Para onde vais?
Num lamento, a voz da sua amada soou já próximo da gruta:
— Adeus, meu pai! Fui descoberta, Rodrigo. Foge, porque virão para matar-te! Apaga a fogueira, Rodrigo!
Rodrigo tentou localizar Leonor. Viu-a então, envolta num manto branco, saltitando de rocha em rocha. Perseguiam-na. De repente ouviu-se um grito. Leonor escorregou e caiu nas águas inquietas que a tragaram, como esfomeadas.
Rodrigo levou as mãos à cabeça. Gritou, desesperado:
— Leonor! Minha Leonor!
Só o vento, o mar e o vozear excitado dos que perseguiam a donzela fizeram coro na resposta. Então, alucinado, Rodrigo gritou ainda:
— Espera por mim, Leonor! Espera por mim, porque vou ter contigo! Foi isso o que jurámos! Unidos na vida e na morte!
E perante o olhar espantado do barqueiro e dos que já estavam perto, Rodrigo atirou-se ao mar, que o levou num remoinho...
Dias depois, o mesmo mar devolvia os cadáveres dos dois amantes. E ainda hoje, em Peniche, existem o «Painel das Pombas», os «Passos de D. Leonor» e a «Gruta de D. Rodrigo», a atestar a evocação de um amor que nem a morte nem o tempo conseguiram destruir.

Fonte Biblio MARQUES, Gentil Lendas de Portugal Lisboa, Círculo de Leitores, 1997 [1962] , p.Volume V, pp. 201-205

Place of collection-, PENICHE, LEIRIA

Narrativa

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