Lenda da Madalena do Mar

APL 3038

Mil quatrocentos e cinquenta. Manhã de Janeiro. Funchal
Recém-desembarcado, um homem forte, largo de ombros, de olhos azuis e cabelos alourados, subia devagar as ladeiras da Conceição que iam dar às casas da aposentadoria do capitão donatário João Gonçalves Zargo
Um pouco mais atrás seguia um servo, também com ares de estrangeiro. E a curiosidade de quem os via passar depressa foi satisfeita. Dizia-se que tinham vindo nessa manhã no barco da carreira do Reino.
Mais surpreendidos ficaram, porém, ao saber que esse homem, alourado e estranho, absolutamente desconhecido na Ilha, trouxera cartas de recomendação de el-rei e do senhor Infante D. Henrique para o capitão donatário. E que este beijara a mão do misterioso visitante. Respeitosamente. Comovidamente.
E a verdade é que o homem alourado e forte, de olhos azuis e gestos fidalgos, por ali se foi deixando ficar, ao sabor do tempo que passava, enamorado da terra e do oceano. Passaram a tratá-lo por Henrique Alemão, pois assim o tratava também, desde o primeiro encontro, João Gonçalves Zargo.
Henrique Alemão devia ter decerto um segredo na sua vida. Segredo de honra? Segredo de amor? Só ele o sabia — e ele guardava segredo!
Mas o tempo continuou a passar e o encanto do estrangeiro pela hospitaleira terra do Funchal foi ganhando raízes mais fundas. Aliás, João Gonçalves Zargo, o capitão donatário, tratava-o com todas as deferências, recebia-o em casa com honras especiais e convidava-o sempre para todas as suas reuniões.
Ora, precisamente numa dessas reuniões, o ilustre e misterioso Henrique Alemão conheceu uma jovem e galante algarvia de olhos sonhadores e feiticeiros, chamada Senhorinha Anes.
Dançaram ao som de músicas dolentes. Ela não resistiu a dizer-lhe:
— Que bem dançais!
Ele sorriu, cavalheiresco.
— Lisonjas, Senhorinha... Vós é que dançais bem... e bem me fazeis dançar!
Os olhos dela brilharam mais.
— Cultivais a poesia?
O sorriso desapareceu e foi substituído por um breve rictus de preocupação.
— Falta-me o tempo para tal, Senhorinha Anes!
Curiosa, a jovem algarvia não deixou que o diálogo se partisse.
— Andais assim tão ocupado?
Ele então explicou devagar, arrastando o seu sotaque de estrangeiro:
— Sabei que sim... o senhor capitão donatário vai conceder-me a sesmaria de umas terras, para lá do cabo Girão.
Depois, com mais veemência, Henrique Alemão afirmou:
— Quero construir ali um novo mundo, Senhorinha Anes!
Ela pareceu enleada, confusa.
— Felicito-vos pela mercê do senhor capitão donatário...
E logo, fitando-o com o feitiço dos seus olhos gaiatos:
— E também pela vossa ideia de construir um novo mundo!
Deram alguns passos, agora em silêncio. E inesperadamente a pergunta caiu entre ambos:
— Ides para lá sozinho, senhor Henrique Alemão?
Foi pronta a resposta:
— Levarei comigo o meu velho servo, companheiro e confidente de todas as horas.
Novo silêncio. Mais passos. E nova pergunta, entre dois suspiros:
— Ninguém mais?
Henrique Alemão riu delicadamente, olhando-a. Olhando-a e sentindo que ela tremia nos seus braços. E ouvindo o seu coraçãozinho a bater com força.
— Quem mais desejaria arriscar-se a acompanhar-me nessa terra inóspita e desconhecida?
Tal pergunta ficou sem resposta, de momento. Resposta em palavras... Porque o resto do diálogo foi feito apenas com o olhar...
E certo é que, antes de partir para a sua grande aventura na terra desconhecida que João Gonçalves Zargo lhe dera para povoar, o misterioso e estranho Henrique Alemão casou numa igrejinha do Funchal com a jovem e galante Senhorinha Anes, cujos olhos feiticeiros o tinham conquistado para sempre...
De longe, segundo consta, o próprio rei de Portugal os abençoou, fazendo-se representar nas bodas pelo capitão donatário.
Daí a certo tempo, o grupo chefiado por Henrique Alemão meteu-se a caminho das novas terras que ficavam, de barco, apenas a seis léguas marítimas do Funchal.
E, aos poucos, assim como soubera encantar o coração do marido, também Senhorinha Anes foi captando a confiança do velho servo de Henrique Alemão.
Um dia, finalmente, ela conseguiu levantar uma ponta do véu que cobria todo o passado do misterioso estrangeiro.
Estavam apenas os dois, em frente da capela que fora o primeiro trabalho nas novas terras e que Henrique Alemão quisera dedicar a Santa Maria Madalena, passando a chamar-se logo ao local Santa Maria Madalena Junto Ao Mar.
Sim, apenas estavam os dois: Senhorinha Anes e o velho servo. O marido andava ao longe, entretido nos trabalhos do campo.
E ela perguntou de súbito:
— Achais que o vosso amo se sente agora mais feliz?
O velho enrugou os olhos num sorriso.
— Oh, Senhora, sim... Vede como ele trabalha... como aprendeu a rir, de novo...
E, num suspiro, em voz mais baixa, como que a medo, acentuou:
— Ele, que era tão jovial, tão alegre!...
Senhorinha Anes murmurou, num misto de pena e de ternura:
— Como eu gostaria de o ter conhecido antes... Talvez a esta hora já fôssemos casados há muito tempo... com uma ninhada de filhos à nossa volta...
Gargalhou contente. Mas as palavras seguintes do velho servo estilhaçaram a gargalhada.
— Não, Senhora, tal não seria possível... Antes, meu amo não poderia ter casado convosco!
O rosto de Senhorinha Anes tornou-se grave e sério.
— Porquê... Dizei-me... Porquê?
O pobre homem viu-se em situação aflita.
— Senhora, já falei demais... Perdoai-me! Bem sabeis... que esta sua vida começou no dia em que ele desembarcou no Funchal!
Era uma aflição sincera. Ela bem o compreendeu, mas resolveu aproveitar a oportunidade.
— Dizei-me apenas donde vinha meu marido... De Portugal?... da Espanha?... da França?... da Itália?
O velho servo, olhando desconfiado em redor, respondeu apressadamente, interrompendo-a:
— De mais longe, Senhora, de muito mais longe!
E, numa súplica de olhar, afirmou:
— É tudo quanto posso dizer-vos... Não me pergunteis mais nada!
Ela fez um gesto — um gesto de autoridade e decisão.
— Não compreendo as vossas palavras de há pouco. Se eu o amasse e ele me tivesse amor, fosse em que terra fosse, porque não poderíamos nós casar? Vamos... Ao menos, respondei-me a isto! Ou pretendestes enganar-me?...
O homem acusou o toque. Endireitou-se, quanto as forças lhe permitiam, e falou pausadamente, como que a estudar as palavras antes de as dizer:
— Escutai, Senhora... É preciso que penseis bem nisto: meu amo não foi um homem qualquer... Meu amo foi muito poderoso! Tão poderoso... que o amor para ele não podia existir.
Suspirou fundo e continuou, mais nervoso, mais trémulo, mais excitado:
— E por isso mesmo o amor não existiu... nem sequer quando ela o ameaçou!
— Ela?
O grito de Senhorinha Anes petrificou o velho servo.
— Ela?!... Ela, quem?... Dizei imediatamente!... Exijo uma explicação, ou irei eu própria falar com meu marido a tal respeito!
O velho percebeu que perdera a partida. A sua voz traía extrema aflição.
— Senhora, não o martirizeis, pelo amor de Deus!... Eu conto-vos o resto, sob promessa de não me perguntardes nada mais.
— Contai, então...
Apertando as mãos com desespero, o velho servo confidenciou:
— Chamava-se Madalena!
— Madalena?... Mas Madalena é o nome que deu a esta terra!... Não se tratava apenas de Santa Maria Madalena...
Como se não a ouvisse, o outro continuou:
— Amou o meu amo, como só se pode amar uma vez na vida... Mas desesperada por ele... enfim... por ele ter desafiado o seu irmão para uma guerra de vida ou de morte... atraiçoou-o e lançou-lhe uma terrível maldição.
— E qual foi essa maldição?
— Ninguém o sabe, Senhora!
De súbito, a sua voz mudou. Tornou-se suplicante.
— Oh, desculpai... vem aí o meu amo... Por tudo vos peço que vos caleis!... Por tudo, mas principalmente por ele... e por vós!
A partir de então, nem mais uma palavra ela conseguiu arrancar ao velho servo. Por sua vez, Henrique Alemão furtava-se a todas as perguntas indiscretas, entregando-se noite e dia ao trabalho de explorar as novas terras. E estas iam crescendo e progredindo.
Santa Maria Madalena Junto Ao Mar era agora um modelo de povoamento. João Gonçalves Zargo bem se podia orgulhar do sesmeiro que escolhera para essa região do cabo do mundo.
Mas, em certa manhã bonita, um emissário da corte portuguesa chegou de propósito para falar com Henrique Alemão. Este recebeu-o com a amabilidade de sempre e mais cauteloso que nunca.
— Vindes então da Corte para me falar? E que novas me trazeis? 
— Boas novas, Senhor! El-rei D. João II de Portugal envia-vos seu muito saudar, com o pedido urgente de que o sesmeiro destas terras me acompanhe a Lisboa, por via de negócio de extrema gravidade.
Henrique Alemão ficou pensativo. Depois murmurou, num ar de dúvida e de curiosidade:
— Não compreendo o desejo d’El-Rei. Que interesse lhe posso eu merecer?
— O interesse que pode merecer todo aquele que tem um passado de nobreza e de glória como o vosso!
Ele ergueu-se precipitadamente, olhando em redor para ver se alguém escutara tais palavras.
— Calai-vos, que não sabeis o que estais dizendo!
E logo, numa vénia de desculpa, adoçou o tom da voz para inquirir:
— A que passado voz referis?
O emissário ergueu-se também.
— Permiti, Senhor, que vos diga apenas uma coisa: o desejo d’EI- Rei nasceu depois de ter recebido a visita dum grupo de fidalgos polacos... 
O rosto de Henrique Alemão empalideceu de súbito.
— Que dizeis? Pois é possível que, apesar de tudo...
O mensageiro de D. João II sublinhou a resposta:
— Sim, é possível terem descoberto o vosso paradeiro, apesar de tudo!
E baixou a voz para ajuntar:
— Mais vos digo, Senhor, porque tal me pediram para vos dizer: Madalena também sabe onde estais.
Por instantes, Henrique Alemão deu a ideia de que ia cair com uma vertigem. Mas sentou-se pesadamente e apenas repetiu:
— Madalena também sabe! Ela ainda!... Sempre ela!
Como que aturdido, olhou o fidalgo que o fitava e ergueu-se imediatamente. Parecia outro, agora inquieto e rude.
— Não percebo a quem vos referis! Que fidalgos são esses?... Que Madalena é essa?
Cavalheirescamente, o interlocutor baixou a cabeça.
— El-rei D. João II aguarda-vos, Senhor, o mais rapidamente possível. Está uma nau à vossa espera no Funchal. 
Henrique Alemão pareceu concentrar-se, com o rosto fechado nas mãos. Quando voltou a olhar o fidalgo, estava decidido:
— Pois bem! Já que El-Rei deseja a minha presença, irei convosco. Podeis seguir para o Funchal. Dentro de dias lá estarei também.
— Às vossas ordens, Senhor!

Henrique Alemão aprontou-se rapidamente para a viagem. Os seus últimos conselhos foram para o velho servo e para Senhorinha Anes.
— Olha por ela, meu bom amigo... Bem sabes como a estimo!
— Ficai descansado, Senhor. Servirei a minha ama como vos tenho servido a vós!
Depois, ele voltou-se para a esposa:
— Adeus, Senhorinha... Não deixeis de pensar em mim!
Com os olhos rasos de lágrimas, tentando esconder a tortura que a feria, ela limitou-se a desejar:
— Que Deus vos acompanhe, senhor meu marido!
Henrique Alemão partiu em direcção ao barquito que o esperava para rumar ao Funchal. Partiu sem olhar para trás. Partiu sem olhar mais essas terras que ele tanto amava e tanto fizera progredir.
Mas no seu olhar havia um brilho estranho, que não passou despercebido aos olhos atentos do velho servo fiel. Por isso mesmo, este insistiu em acompanhá-lo até ao barco. E, somente na última despedida, perguntou:
— Senhor... tivestes más notícias?
Henrique Alemão olhou-o docemente e acenou com a cabeça.
— Sim, bom amigo: já me descobriram! Ela... também já me descobriu!
Uma onda de pavor rolou pelos olhos do velho.
— Meu Deus!
E Henrique Alemão, já a entrar no barco, gritou-lhe uma ordem:
— Silêncio, compreendes? Silêncio!... Além de nós, só Deus o sabe!
 
Daí a momentos o barco fez-se ao largo. O mar estava calmo. O céu, sereno. Não havia vento. A viagem parecia destinada a decorrer na maior tranquilidade. E já ia em mais de meio, passada a Câmara de Lobos, a chegar em frente do cabo Girão, quando de súbito, como que movido por qualquer força oculta, o mar se ergueu doido, gigante, varrido por um vendaval diabólico.
A bordo do pequeno barco, os homens sentiram-se perdidos. O mar em fúria fez do barquito um joguete insignificante. E então, de mistura com o turbilhão das águas e o ribombar dos trovões que logo se seguiram, pareceu soar uma voz de mulher:
— Jurei que a minha maldição cairia sobre ti, onde tu estivesses... É a Madalena que te fala... A Madalena que te fala... A Madalena que tu traíste e que te traiu também... Jamais te poderei perdoar!
E logo no mesmo instante, igualmente como prodígio diabólico, um pedregulho enorme soltou-se do alto do cabo Girão e veio desabar sobre o pequeno barco, batendo em cheio na figura de Henrique Alemão, que caiu ao mar, para não mais se ver.
Acalmaram-se as ondas e os céus. Desapareceu o vento. Veio a bonança. A nado, os tripulantes do pequeno barco conseguiram-se salvar todos. Só não se salvara o estrangeiro alourado e misterioso que dava pelo nome de Henrique Alemão, amaldiçoado para sempre pela mulher que o amara como só se ama uma vez na vida...

Fonte Biblio MARQUES, Gentil Lendas de Portugal Lisboa, Círculo de Leitores, 1997 [1962] , p.Volume V, pp. 299-304

Place of collection-, FUNCHAL, ILHA DA MADEIRA (MADEIRA)

Narrativa

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