Lenda da Maldição de Obeidalá

APL 2838

Estava o ano mil no começo. As chuvas haviam cessado. Andava no ar um aroma a terra molhada e seiva renovadora. Brotavam do campo as primeiras flores. A Primavera não tardaria a chegar. Ali, sobre o Monte Córdova, ficava situada a antiga vila de Salas. E nesse local erguia-se um sumptuoso solar. Pertencia a Guterres Árias e à sua jovem mulher, a linda condessa D. Aldara.
Vindos de longe, chegaram ao solar alguns fidalgos que vinham de Leão. Como parenta do rei D. Afonso III de Leão, a jovem condessa D. Aldara vestira um dos seus melhores vestidos para receber os convidados. Ajudava-a a velha aia, Sancha, que vira nascer D. Guterres Árias. O Sol forçara as nuvens e viera engalanar a paisagem. D. Aldara sorriu, feliz. De súbito, perguntou:
— Sancha, qual o vestido que melhor me fica? Achais que será este? Quero que os convidados do teu amo o invejem por mim!
Sancha sorriu cortesmente.
— Senhora, qualquer vos fica bem. Sois jovem e bela. Que mais galas quereis?
Aldara remirou-se e concordou:
— Sim... sou jovem… disso tenho a certeza! Porém… não sei se serei suficientemente bela para agradar a meu esposo!
Sancha retorquiu com a liberdade que lhe dava a sua permanência nessa casa:
— O senhor conde ama-vos, Senhora. Bem o sabeis!
Quase gaiata, D. Aldara perguntou-lhe:
— Tu, que o conheces de pequenino, diz-me: ele gostou só de mim?
A velha Sancha fez um trejeito indefinido.
— Bem... gostar... gostar... foi só de vós, Senhora Condessa. Porém outras fidalgas bem o desejaram, mas ele... desde que vos viu...
D. Aldara, esquecendo as distâncias, abraçou a velha aia. E declarou, com o entusiasmo do seu amor e da sua juventude:
— Sancha, sou tão feliz! Agora só desejo dar-lhe um filho, um filho varão!
Ensombrou-se o rosto da velha aia. Os seus olhos pequenos encheram-se de lágrimas. E murmurou, a disfarçar a emoção:
— Deus vos oiça, Senhora Condessa!
A jovem voltou-se. Fitou com surpresa a expressão da velha aia. E indagou, subitamente séria:
— Sancha! Que disse eu de estranho? Porque ficaste assim transtornada? Não me achas capaz de ser mãe?
Sancha concordou:
— Sim, Senhora Condessa! Mas...
— Mas o quê?
Sancha mostrava-se aflita. D. Aldara insistiu:
— Fala! Passa-se algo que preciso de saber!
Aos olhos da aia afloraram mais lágrimas.
— Senhora Condessa... não sei se deva contar-vos...
A alegria de D. Aldara desaparecera, dando lugar à ansiedade.
— Sancha! Tenho o direito de saber! Julgas que não poderei te filhos?
Sancha guardou silêncio. D. Aldara insistiu:
— Como o sabes? Alguém conhece o meu destino? Só Deus! E porque havia Deus de negar-me um filho? Sou jovem, saudável, amo e sou amada por um homem forte, belo, poderoso. Porque não hei-de ser mãe?
Sancha fazia esforços para não chorar. D. Aldara pegou-lhe numa da mãos:
— Sancha! Conta-me o que sabes!
A velha aia olhou a jovem condessa por entre as lágrimas que deslizavam, de mansinho, pelo seu rosto moreno. Murmurou quase:
— O meu amo… nunca vos falou da maldição de Obeidalá?  
A jovem franziu as sobrancelhas:
— Maldição? Não, nunca me falou em tal. De que se trata?
Sancha encolheu os ombros e olhou a ponta dos seus sapatos:
— O senhor conde é assim... Nunca ligou importância a essas coisas...
E olhando de frente a jovem condessa:
— Mas elas acontecem, Senhora! Acontecem!
D. Aldara enervou-se.
— Sancha! Conta-me por uma vez o que se passou!
A velha aia suspirou fundo. Concentrou-se, fechando os olhos como quem vislumbra o passado, olhando para dentro de si própria. E começou:
— Foi já há muitos anos. Obeidalá era um guerreiro mouro, novo e forte. Desceu de Toledo para trazer uma mensagem ao chefe lusitano. Mas ele amava loucamente a linda Zaida. Como não quisesse deixá-la só na sua terra, trouxe-a com ele em segredo. Para isso vestiu-a como se fosse um homem. Como ela não falava para não se denunciar, espalhou que el-rei de Leão lhe tinha mandado cortar a língua.
Sancha calou-se a tomar fôlego. D. Aldara perguntou, curiosa ou incrédula:
— Mas esse casal mouro circulava à vontade dentro do nosso território?
— À vontade, não. E daí é que veio o mal. Certa tarde, chegaram aqui a Salas. O senhor conde era muito pequeno e eu brincava com ele para o distrair. De súbito ouvi grande algazarra. Corri ao balcão. Ali, em baixo, um tio do senhor conde cruzava a espada com um homem com vestes da mourama. As suas feições não enganavam, também, quanto à sua proveniência. Ambos pelejavam. Então, a sorte começou a ajudar o tio do meu amo. O mouro ia ser apanhado por um golpe mortal, quando outro homem chegou. Correndo e atirando o manto por terra, meteu-se de permeio, recebendo uma estocada em pleno peito que se destinava ao adversário do senhor de Sales.
D. Aldara suspirou.
— Os homens matam-se por qualquer ninharia!
Sancha continuou com ânimo:
— O mouro que acabava de chegar caiu por terra. Mas logo o outro abatia o tio do senhor conde com uma ferocidade inacreditável.
— Foi assim que morreu o tio do meu esposo? E quem o matou?
— Obeidalá! O mouro da maldição! O companheiro era a sua querida Zaida, que se sacrificara para o salvar. Ora Zaida estava para ser mãe. E Obeidalá, antes de cravar um punhal no seu próprio peito, amaldiçoou todas as mulheres que avistassem esse monte, tornando-as estéreis, assim como todas as mulheres da família Árias.
A jovem condessa parecia petrificada. Compreendia agora a aflição de Sancha quando ela falara no desejo de ser mãe. Quase a medo, indagou:
— E a maldição... verificou-se?
— Sim, Senhora Condessa! Os homens daqui vão casar com as mulheres das outras terras e não as trazem para Salas senão depois de serem mães!
D. Aldara ficou-se a olhar as suas mãos brancas e frias. Falava como sonâmbula:
— Estéril... Que maldição pavorosa! Mas Guterres nunca me falou disso…
— Nem falará!
— Porquê?
— Diz que só Deus é suficientemente poderoso para determinar o destino de cada um!
— E as outras? Não dizes que nunca mais as mulheres daqui tiveram filhos?
— É verdade. E já lá vão muitos anos!
D. Aldara suspirou:
— Talvez seja crendice.
— Talvez... Mas, por Deus, não diga ao senhor conde o que lhe contei!
D. Aldara não respondeu. Tocou amigavelmente no ombro da velha aia e encaminhou-se para a porta.
Sancha disse-lhe ainda:
— Senhora Condessa! Ides muito triste!
D. Aldara sorriu-lhe. E a sua linda expressão gaiata voltou a animar-lhe as feições.

Três anos passaram. O conde D. Guterres Árias andava triste. D. Aldara perdera também a sua alegria. A maldição de Obeidalá era sombra negra a pôr em fuga a felicidade de um lar outrora tão alegre. Os esposos evitavam olharem-se de frente. Ambos escondiam o segredo da sua desdita. Ambos tentavam em vão esquecer o que sabiam.
Certa manhã, porém, o conde procurou a esposa sem a encontrar. Aflito, chamou a velha aia:
— Sancha! Onde está tua ama?
Perturbada, Sancha lembrou:
— Talvez… no jardim...
O conde franziu as sobrancelhas. Endureceu a voz.
— A estas horas matutinas?
— Talvez na igreja...
D. Guterres abanou a cabeça:
— Bem sabes que vai sempre contigo. São essas as minhas ordens!
E mais ríspido:
— Porque baixas o teu olhar, Sancha? Sabes onde está tua ama? Responde!
Tremia, a velha aia.
— Senhor... não vos amofineis! Vossa esposa sofre! E está a tentar quebrar a maldição.
— Que dizes? Explica-te!
Mas Sancha viu que sua ama se dirigia já para casa. Indicou-a ao conde.
— Ei-la, meu senhor! Aí tendes vossa esposa.
D. Aldara chegou diante do conde. Vinha com trajes simples e descalça. D. Guterres olhou-a numa estupefacção. A jovem dama tentou sorrir-lhe:
— Bom dia, senhor meu esposo!
O conde pegou-lhe numa das mãos.
— Aldara! Donde vindes a estas horas e assim trajada?
Ela desviou o olhar. Ele obrigou-a a olhá-lo de frente.
— Não volteis o rosto! Quero ver-vos bem! Chorastes? Vindes pálida e cansada! Onde fostes?
A resposta surgiu sumida.
— Fui cumprir uma promessa!  
— Que promessa?
— Subir descalça ao Monte Córdova durante nove dias...
Ele afligiu-se.
— Enlouquecestes, Aldara? Isso mata-vos! O monte é alto e de difícil acesso! Além disso tem imensas covas! É um perigo!
Ela sorriu-lhe docemente.
— Meu querido esposo! Se fosse fácil, a minha penitência não teria grande valor! Foi a um Árias que a maldição de Obeidalá foi dirigida. Pois será uma Árias que tentará levantá-la, com a Misericórdia de Deus!
O conde suspirou fundo. A sua voz traduzia ansiedade quando perguntou:
— Há quantos dias dura esse suplício?
— Há cinco. Faltam ainda quatro. Não desejo quebrar a minha promessa!
O conde Guterres olhou a esposa. Uma expressão de angústia mostrava a sua indecisão. Por fim condescendeu:
— Seja! Segui até ao fim a vossa promessa, mas que Sancha vos acompanhe!
D. Aldara sorriu docemente. E informou com humildade:
— Terei de ir sozinha, meu querido esposo!
— Sozinha? E se cairdes? Se alguém vos fizer mal? Quem vos acudirá?
— Entrego-me nas mãos de Deus! Estou cheia de esperança. Tende, também vós, confiança!
Suspirou de novo, o jovem conde.
— Seja como dizeis! Mas acreditai que estes quatro dias serão de angústia para mim.
Ela acenou com a cabeça.
— Acredito, senhor meu esposo! E perdoai-me se vos faço sofrer. Mas foi o muito amor que vos tenho que me ditou esta resolução!
O conde acariciou o rosto da jovem esposa. Depois, reparando de novo no seu traje:
— Aldara! Ide já mudar de roupa e calçar-vos. Não posso ver esta imagem de penitente em quem tanto amo!  
Feliz, D. Aldara desprendeu-se dos braços do marido e encaminhou-se para os seus aposentos.

A roda do tempo continuou a girar. Passaram os quatro dias de penitência que faltavam à jovem condessa para cumprir a promessa que fizera. Ficara cansada, mas animada pela esperança de ser ouvida por Deus. Quarenta dias passaram depois que ela subira pela primeira vez ao Monte Córdova. E nesse dia foi D. Aldara que espontaneamente procurou o conde Guterres. Ele assustou-se:
— Que tendes? Estais excitada!
Ela entregou-lhe as mãos, para que ele as apertasse nas suas.
— Guterres! Não ledes nos meus olhos a felicidade?
— Sim! Que se passa?
— Chamai depressa um físico! Quero saber confirmada a minha suspeita: vou ter um filho!
O conde apertou a esposa de encontro ao peito. Voltou a olhar-lhe o rosto. Não sabia que fazer nem dizer. Exclamou, por fim:
— Aldara, minha doce Aldara! Será possível? Se assim é... eu serei o homem mais feliz do mundo!
Ternamente, a jovem condessa pediu:
— Meu esposo, se a suspeita se confirmar, teremos de fundar no ponto mais alto do Monte Córdova um mosteiro para beneditinos!
Solene, ele sentenciou:
— Cumpriremos a promessa!

E conta a lenda, sempre de braço dado com a História, que passado alguns meses nasceu um filho varão ao feliz casal. Um filho que Deus enviou sob a sua bênção e se tornou santo. O mosteiro foi logo começado a erigir. Assim se quebrou para sempre a maldição de um mouro em terra de cristãos — a maldição de Obeidalá!

Fonte Biblio MARQUES, Gentil Lendas de Portugal Lisboa, Círculo de Leitores, 1997 [1962] , p.Volume III, pp. 247-252

Place of collection-, SANTO TIRSO, PORTO

Narrativa

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