Lenda da Mina de Ouro

APL 2848

Entre os terrenos que cercam a cidade de Santarém, existe um lugar um pouco mais para os lados do Alviela que, pela sua evolução natural, muitos admiram. Chama-se esse lugar Vale de Figueira. Ora, conta a lenda velhinha — tão velhinha como os próprios terrenos que serviram de cenário natural ao desenrolar deste conto dos nossos antepassados — que, certa tarde de um triste dia de Inverno, um homem e uma mulher — gente modesta mas honrada — abrigavam-se portas adentro da sua casa. O vento zunia impiedoso, ameaçando levar as janelas dos pobres casebres e os telhados improvisados. O Ti Manel da Azinhaga olhava o lume da braseira quase em cinzas. Cismava. Remoía impropérios contra os que lhe tornavam a vida difícil. Mas não dizia quanto pensava. Maria, a consorte, desgostava-se de o ouvir assim. Para o distrair, Ti Maria disse qualquer coisa:
— Como chove lá fora!
Ele franziu as sobrancelhas. E replicou:
— Lá fora... e cá dentro! A casa está velha! Precisava arranjo... mas o dinheiro não quer nada com a gente! Trabalha-se... trabalha-se... e para quê?
Maria tentou apaziguá-lo:
— Deixa lá, homem! Hão-de vir melhores dias!
— E quando? Desde que casámos que te oiço sempre a mesma coisa!
E imitando a mulher.
— Melhores dias! Melhores dias!...
A sua expressão fechou-se mais ainda. E concluiu:
— Estou farto disto tudo!
Tentando uma voz serena, pois sereno não estava o seu coração, Ti Maria continuou a tentativa de acalmar o marido:
— Nem tudo pode ser mau durante a vida inteira. Temos saúde e já é uma grande graça de Deus!
Manuel encolheu os ombros. A sua voz continuou rude, mas a sua expressão era menos colérica:
— Sabes, mulher?... Eu não tenho o teu feitio. Gosto de trabalhar e não estrago. Mas quero ver o proveito!
Numa voz triste, Maria lembrou:
— Bem sabes que o senhor Francisco não pode agora pagar-te...
E elevando os olhos ao céu:
— Deus nos livre de ter em casa os trabalhos que ele tem!
— Pois sim! E a mulher do António? Porque não te paga ela?
— Ora, coitada! Desde que a criança nasceu não mais teve saúde. Como poderá arranjar dinheiro para me pagar?
Ti Manel olhou a mulher, novamente encolerizado:
— Homessa! Se quisesse poderia dar-te um frango, leite das ovelhas... qualquer coisa, enfim! Tudo servia! E agora ouve cá: que dizes da Rosa?
— A Rosa?
— Sim, a Rosa! Foste assistir-lhe já duas vezes e nada! Já é abuso!
E dando um murro na mesita colocada junto à cadeira:
— Pois agora não sais de casa para acudires a mais ninguém! Elas que se avenham!
Ti Maria mostrou-se contristada:
— Ó homem, não digas isso! Elas têm fé em mim. As crianças nascem tão perfeitinhas!
— Pois sim... mas se caíres de cama, quem te vem acudir?
Ti Maria ia responder. Mas o tropel de um cavalo, que já se tinha feito ouvir ao longe, veio morrer junto à porta do Ti Manel da Azinhaga. Pancadas fortes soaram na porta. Maria encaminhou-se para a abrir. Mas o marido gritou-lhe:
— Onde vais? Fica onde estás!
Ela olhou-o entre receosa e senhora de si:
— É capaz de ser o marido da Felismina. Ela está à espera de uma criança.
Ti Manel gritou mais ainda:
— Pois que vá bater a outra porta! Chove muito! Há vento! Há frio!
Como se o vento quisesse fazer valer as palavras do Ti Manel, uivou mais forte lá fora, fazendo estremecer porta e janela. Mas as pancadas voltaram a ouvir-se. Maria não se conteve:
— Tem paciência, homem! Vou abrir.
Um desconhecido entrou, mal a porta foi aberta. Com ele entrou também uma rajada de vento e frio. Trazia um belo capote empapado em chuva. O homem tirou o chapéu. Maria cumprimentou-o.
— Salve-o Deus! Quem sois?
Como resposta, apenas uma frase seca:
— Precisam de si, senhora Maria.
— Mas quem? A Felismina?
— Não. Alguém que não conhece.
Manuel olhou o desconhecido. Era ainda novo. Rosto bastante moreno. Feições correctas. Olhos grandes, negros, brilhantes. Jamais tinha sido visto por aqueles lugares. Então, Ti Manel da Azinhaga declarou:
— Hoje a minha mulher não sai de casa.
O desconhecido olhou Maria como se não tivesse ouvido o dono da casa e perguntou:
— Vem comigo?
Gritando quase, Ti Manel tomou:
— Já lhe disse que ela não sai de casa!
O outro continuou, indiferente à voz de Ti Manel:
— Vim buscá-la para que salve uma criança e uma mulher.
Maria olhou o marido.
— Manel! Não devo negar-me.
Ti Manel voltou-se para o desconhecido:
— Mas… quem é o senhor?
Serenamente, o homem respondeu:
— Alguém que já viveu nestas terras e não sabe separar-se delas.
Ti Manel resmungou:
— Ficamos na mesma! Donde veio?
— Daqui perto. Vivo mesmo à beira do vosso Tejo.
Ti Manel voltou a olhá-lo minuciosamente. Fez um trejeito de desconfiança. E replicou:
— Traz sobre os ombros um bom capote para viver em choupanas como as nossas!
— Não vivo em choupanas.
Ti Manel fitou-o admirado:
— O quê? Pois olhe que à beira do Tejo não temos casas!
Como o homem silenciasse, Maria tentou intervir:
— Manel, não faças mais perguntas! Este senhor pode ter razões para não nos querer dizer onde mora.
O desconhecido sorriu ligeiramente:
— É isso mesmo, minha senhora.
Ti Manel voltou a zangar-se:
— Ouve lá, mulher! Tu queres sair numa tarde destas, com um desconhecido e sem que eu saiba para onde vais? Ah, não! Mulher minha não anda assim à toa!
O desconhecido deu o primeiro sinal de impaciência.
— Minha senhora, não temos tempo a perder. Duas vidas dependem de nós.
Maria afligiu-se:
— Tem razão, senhor, tem razão! 
E voltando-se para o marido:
— Manel, tem paciência... Eu vou desobedecer-te!
Ti Manel fez-se muito corado. Gritou:
— O quê? Tu vais com ele?
Deu novo murro na mesa.
— Pois se saíres essa porta com esse desconhecido não entrarás mais aqui!
Maria olhou-o numa aflição crescente.
— Desconheço-te, homem! Tu não estás em ti. Eu sei que me receberás. Não vou praticar nenhum crime!
— Pois some-te depressa da minha vista antes que me arrependa! Mas se adoeceres com a chuva que vais apanhar, sempre quero ver quem te acode!
Serenamente, o desconhecido sentenciou:
— O bem ou o mal que fizermos ficará sempre registado no grande Livro da Vida!
E voltando-se para Maria:
— Venha, minha senhora. Seguiremos no mesmo cavalo.
Ouvindo isto, Ti Manel teve nova explosão de cólera:
— És louca, Maria? Vais, assim, com um homem qualquer, num só cavalo?...
O desconhecido pôs termo à discussão:
— Não há tempo a perder.
E dando passagem a Maria, encaminhou-se para a porta e saiu atrás dela.
Em frente da porta, estava um cavalo de raça, muito bem ajaezado. O desconhecido voltou-se para Maria.
— Vamos. Eu ajudo-a a subir.
De olhos pasmados, Ti Manel viu o desconhecido embrulhar Maria no seu próprio capote, colocá-la sobre o cavalo, subir também e partir num galope desenfreado. Rouquejando, Ti Manel gritou-lhe:
— Terás de dar contas da minha mulher!
E o vento, como a arremedá-lo, gritou mais alto a sua raiva de tempestades...

Deixando o galope, o cavalo começou a trotar, guiado pela mão firme do misterioso cavaleiro. Dirigia-se para a margem do Tejo.
Maria sentia-se levada como se fosse o próprio vento que a conduzisse. Sentia o coração oprimido e pedia silenciosamente a Deus que a protegesse.
Uma neblina caía sobre o rio. Agora o andamento serenara. Iam quase a passo. Mas não havia casas em volta. O cavaleiro deixou a estrada. Iam em direcção ao rio. Maria assustou-se. Quis fazer perguntas. Mas o cavaleiro não mais falara, ela conservava-se também em silêncio. De súbito, o cavalo estacou. E o homem falou, por fim:
— Vamos descer.
Com voz sumida, Maria indagou:
— Chegamos?
— Sim, chegamos.
Ela olhou em volta. O coração bateu-lhe com violência.
— Mas... senhor… onde é a vossa casa?
— Já vai ver.
E encaminhando-se para uma pedra rochosa tocou-lhe com a mão. A pedra rodou. Maria olhou o homem, aflita:
— Mas... isso é um alçapão!
Com a serenidade de sempre, ele retorquiu:
— É uma porta como outra qualquer.
— Pode ser um covil de ladrões!
— E... se fosse... recusava-se a salvar duas vidas?
Maria olhou o homem que a fitava numa ansiosa interrogação. Suspirou:
— Tem razão, senhor. Irei. E seja o que Deus quiser!
O homem sorriu. A sua expressão tornou-se mais leve. A sua voz, quase cariciosa.
— Cuidado! Daqui para diante encontrará muitas coisas que hão-de parecer-lhe estranhas. Não faça perguntas, nem tente fixar o que vai ver. Lembre-se que tem por única missão assistir ao nascimento de uma criança.
Maria fez um sinal afirmativo com a cabeça e, vendo à sua frente umas escadas, indagou:
— Desço por aqui?
Ele elucidou:
— Não precisa de descer. A própria escada a levará.
Sorrindo, acrescentou:
— Não se assuste com o que vir. Faça de conta que está sonhando.
Surpreendida, Ti Maria murmurou quase:
— E estarei eu mesmo sonhando?...
Ali, desaparecera a voz do vento e a impiedade da chuva. Lá em baixo, ela via salões fantásticos de luxo e riquezas. Homens de turbantes na cabeça passavam como se ela não existisse. Mulheres vestidas com mantos e véus.
Maria parara no meio do salão, como que deslumbrada. O desconhecido tocou-lhe num ombro.
— Vamos?
Maria deixou-se encaminhar. Vivia um conto d’As Mil e Uma Noites! E lembrava-se das histórias de fadas e mouras encantadas que a avó lhe contara à lareira. Tudo ali era irreal! Tudo parecia um sonho!
 
Quando a criança chorou, Maria olhou-a com ternura, apertando-a nos braços. Arrancara-a à morte. E apenas com o seu saber e a sua paciência. Num leito de madeira rosa e dourada, uma mulher lindíssima olhava-a feliz, cheia de reconhecimento. Mas nem uma palavra pronunciara ainda.
Concluído o seu trabalho, o desconhecido que a trouxera voltou a falar-lhe:
— Prestou-nos um grande serviço. Não o esqueceremos. Agradeço-lhe a sua boa vontade. Já podemos voltar a subir.
De súbito, Maria viu-se junto da pedra rochosa, já cá em cima. A seu lado estava o desconhecido que lhe sorria.
— Foi corajosa e boa!
— Fiz o que devia.
— Fez mais do que pensa ter feito!
— Porquê?
— Se recusasse, mataria duas pessoas.
— Por isso fiz apenas o meu dever.
— Mas de hoje em diante duas pessoas ficarão livres.
Maria surpreendeu-se a perguntar:
— Livres de quê?
— Do seu encantamento.
— Encantamento?
— Pois onde pensa que esteve?
— Não sei. Parecia um palácio de mouros e mouras encantadas!
— E é. Mas, desses mouros, dois já estão livres. E foi a senhora que teve a coragem de os libertar. 
Maria ia responder, mas o homem havia desaparecido. A seu lado via-se um cesto. Maria mirou-o surpreendida:
— Que é isto? Parece um cesto cheio de carvão! Talvez seja a paga dos meus serviços. Mas como poderei levar isto para casa? Felizmente que já não chove... Ora deixa-me cá ver!
Levou as mãos ao cesto e tentou erguê-lo. Murmurou para si mesma:
— Uf! É muito pesado! O melhor é deixar aqui metade e vir depois buscar o resto.
Começou a aliviar o cesto. Mas alarmou-se, vendo o rio a subir:
— O pior é que as águas vão chegar aqui enquanto vou e venho, e vão levar-me o carvão!
Maria estremeceu. Uma voz já sua conhecida elucidou-a:
— Não é carvão o que tem no cesto e nas areias!
Maria olhou para todos os lados.
— Onde estais, senhor, que não vos vejo? 
O desconhecido que a fora buscar a casa voltou a falar sem se mostrar:
— Leva o que puderes para casa. Foi ouro o que te dei. Ora repara...
Maria olhou melhor. Abriu os olhos num espanto. Era mesmo ouro o que estava no cesto e o que ela já havia depositado nas areias! Murmurou:
— Devo estar sonhando! Acorda-me, Manuel!
De novo, a voz do desconhecido se fez ouvir.
— O seu marido já vem perto. Procura-a. Mas não esqueça que tudo isto foi um sonho!
Ela perguntou:
— E o ouro?
— O ouro... foi descoberto por acaso, nestas areias. Pode servir-se dele, mas não diga como ele nasceu! De contrário não conseguirá mais encontrar o ouro disperso nas areias do Tejo.
Não longe, uma voz soou:
— Maria! Maria! Que fazes aí? Foi ele que te deixou no rio?... Fala, Maria! Ele fez-te mal? Era um louco? Um selvagem?...
Maria não respondia. Ti Manel chegou, ofegante, junto dela:
— Responde, mulher! Não fiques a olhar para mim com esse espanto! Que te fez ele?
Respirando mal, tal a sua comoção, Maria respondeu:
— Deu-me este ouro! Todo este ouro em paga dos meus serviços...
— Que dizes?
Maria sobressaltou-se. Compreendeu que estava a trair a promessa feita! Emendou:
— Bem... devo dizer-te que ele me deixou aqui. Mas... sobre estas areias... o vendaval fez-me descobrir uma mina de ouro! 
— Uma mina?
— Não vês?
— Sim… isto é ouro! Ou estaremos a sonhar?
Maria sorriu:
— Talvez estejamos a sonhar! Mas vamos para casa e levemos o que pudermos!
 
Conta ainda a lenda que Maria vinha de vez em quando à margem do rio, sozinha. De longe viam-na falar, gesticular e tomavam-na por louca. Mas a sua choupana, outrora miserável, estava agora reconstruída. Era uma bela casa, simples mas confortável. Tinha sempre dinheiro para os necessitados. E o povo começou então a acreditar em algo de estranho. Apertado com perguntas, Ti Manel da Azinhaga dizia apenas: 
— Sei lá o que é isto! Só sei que a Maria encontrou certa tarde de invernia uma barra de ouro nas areias do Tejo! Às vezes voltamos lá. Mas eu não encontro nada! Não sei explicar mais. Ela parece-me tão estranha! Talvez ande doente. De noite tem pesadelos... Fala em mouros e mouras encantadas!... Que esquisito tudo isto me parece!
Assim pensava também o povo. E corria a rebuscar nas areias do rio a tal mina de ouro que Maria dizia ter encontrado. Mas nada! Não havia nada!
No entanto, ainda hoje há quem fale na mina de ouro que outrora existiu nas areias do rio Tejo...

Fonte Biblio MARQUES, Gentil Lendas de Portugal Lisboa, Círculo de Leitores, 1997 [1962] , p.Volume III, pp. 329-336

Place of collection Vale De Figueira, SANTARÉM, SANTARÉM

Narrativa

When XX Century,

CrençaUnsure / Uncommitted

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