Lenda da Moura de Alfátema

APL 2841

Quanto da noite estendera-se sobre a serra. Suavemente. Lentamente. Agora havia apenas uma moldura de céu. Mas o jovem Ataúlfo não se importava. Combinara encontrar-se com a bela princesa Fátima, a mais linda moura daquelas redondezas, e nada o poderia impedir. Nem a noite. Nem os mouros. Ele sentia-se forte e feliz!
E quanto tempo fora necessário para convencer a formosa Fátima!... De princípio, ela escusara-se por completo. Que não! Nunca faria isso a seu pai, o poderoso emir de Manteigas. Dar ouvidos às falas aliciantes de Ataúlfo, um cavaleiro ousado, já era muito. Porém, fugir com ele, isso nunca!
Mas Ataúlfo insistiu. Nos fins de tarde, quando a apanhava solitária e se podia acercar, ele cantava-lhe o seu amor, prometendo-lhe um futuro risonho e maravilhoso. Um futuro de felicidade plena.
Fátima escutava-o e amolecia a pouco e pouco. Ficava imaginando o que seria essa vida alegre e graciosa, lá longe, nas terras dos cristãos, entre cantigas e danças de prazer. E um dia, quando seu pai, o emir de Manteigas, a descobriu em pleno idílio, e a arrastou pelos cabelos, fazendo-a sofrer e gritar, a bela Fátima pensou que talvez Ataúlfo tivesse razão.
No entanto, levou ainda longo tempo a reflectir e não cedeu logo. Todavia, perante a insistência de Ataúlfo, cada vez mais enamorado e também cada vez mais destemido para a ver, ela acabou por concordar:
— Irei contigo, sim!... Na primeira noite em que a Lua se esconder, podes vir buscar-me!
— Assim farei, minha bem-amada! — gritou Ataúlfo, radiante de alegria. — Mas porque tens tu de esperar que a Lua se esconda?
Ela hesitou ainda. Mas logo confessou, ingenuamente:
— Porque a Lua é a minha madrinha… e eu não a quero envergonhar.
Ataúlfo não soube que responder. Partiu, pois, levando na alma a esperança de uma próxima noite com a Lua escondida...
 
Assim acontecera nessa noite. Logo que deu pelo facto, Ataúlfo montou ligeiro e meteu-se a caminho. Todo ele ardia em ansiedade. Aquilo representava para ele uma dupla vitória: conquistava a mulher amada e simultaneamente convertia à fé de Cristo mais uma linda princesa agarena.
Aliás, ela deixava raptar-se na melhor altura. Ataúlfo bem sabia que as hostes lusitanas estavam prestes a conquistar toda a serra. Manteigas não podia resistir... 
Ataúlfo esporeou a sua montada. Não podia haver demoras. A ideia de Fátima ser raptada numa noite sem Lua tinha, afinal, muitas vantagens. Assim, estaria mais à vontade, tudo se passaria em plena escuridão sem possibilidade de qualquer alarme. Mas não poderia haver a muita demora...
Pressentindo que a bela Fátima já o esperava, preparada para a fuga, o jovem Ataúlfo espicaçou o cavalo ainda mais, correndo à desfilada pelo caminho que bem conhecia, agradecendo à Lua a sua protecção.

Porém, Ataúlfo enganava-se por completo, ao pensar que a Lua escondida o estava a proteger. Mal podia ele adivinhar que se tratava apenas de uma emboscada.
A fada da Lua, madrinha da princesa Fátima, descobrira tudo facilmente. Vira as tentativas de aproximação do jovem Ataúlfo. Compreendera que Fátima não ia resistir muito tempo aos galanteios do cavaleiro cristão. E acertara! Depois, seguira passo a passo o idílio vivido entre Fátima e Ataúlfo, ambos sedentos de amor. Assistira também à violenta intervenção do poderoso emir de Manteigas, pai de Fátima, e ouvira este aceder ao seu rapto... mas só numa noite em que a Lua estivesse escondida.
A fada sorrira... E logo preparara também o seu plano. Descera a montanha e convocara o conselho dos Velhos Deuses.
— Preciso mais uma vez da vossa ajuda... A minha afilhada Fátima, e princesa de Manteigas, quer fugir com um jovem cavaleiro cristão. Que devemos fazer?
Os velhos deuses entreolharam-se. Com espanto. Com mágoa. Com desalento.
— Que podemos nós fazer, querida fada?
— Os Lusitanos estão a escorraçar todos os mouros destas terras.. Depois será a nossa vez.
— Nada e ninguém se pode opor à fúria dos invasores!
— Eles são protegidos pelo Deus verdadeiro, contra o qual somos impotentes.
— E trazem à frente um rei invencível!
— Nada há a fazer, boa fada!
Mas ela não se deu por vencida nem convencida.
— Pois se vós, velhos deuses, já não sabeis pensar... eu pensei por vós!
Mais espanto. Mais mágoa. Mais desalento.
— E que podereis vós pensar?
Ela inclinou-se para diante e obrigou-os a fazer um círculo em seu redor.
— Escutai, então! Fazei com que dois dos mais fortes guerreiros mouros saiam ao caminho de Ataúlfo... Ele poderá vencer um... mas dois ser-lhe-ão sempre superiores. É necessário que Ataúlfo fique no caminho!... Compreendeis? Depois eu me encarregarrei de castigar a pérfida Fátima.
Os velhos deuses entreolharam-se mais uma vez e encolheram os ombros. Já que não havia outro remédio, pois que se fizesse a vontade à irmã fada... Mas eles não acreditavam no resultado. Já não acreditavam em coisa alguma, depois de tudo o que se estava a passar. Só um deles, o mais feio e o mais triste, conseguiu sorrir. Um sorriso enigmático. Um sorriso amoroso...
E foi assim que o jovem Ataúlfo, correndo vertiginosamente ao encontro da sua bem-amada, viu de súbito na sua frente dois fortes guerreiros mouros que o obrigaram a parar.
— Onde ides, miserável cão cristão?
— Que tendes com isso? Este caminho já não é vosso, porcos sarracenos!
— Enganais-vos, imbecil! Tudo isto ainda é nosso!
— Deixai-me passar, se tendes amor à vida!
Os dois mouros riram estrepitosamente. Depois um deles falou, continuando a rir.
— Isso dizemos nós, abjecto cristão...
E o outro rematou logo num tom duro e desagradável:
— Se tens amor à pele, desaparece... enquanto nós nos preparamos para te esfolar!
Mas Ataúlfo não era homem que cedesse perante quaisquer ameaças. Num instante, desceu a viseira, empunhou a espada e atirou-se como um leão sobre os adversários, que mal tiveram tempo para segurar as adagas.
No silêncio da noite escura, o combate ganhou proporções dramáticas. Brutais. De vida ou de morte!
Do seu recanto, escondidos aos olhos do mundo, os velhos deuses e a fada da Lua seguiam a luta que se desenrolava. Luta sem tréguas. Luta sem piedade.
— Vede, irmã fada... O lusitano parece levar a melhor!
— É verdade, que força tamanha a dele!
— E que valentia sem par!
— Já derrubou um dos guerreiros agarenos... Olhai... Está a escorrer sangue e o cavalo arrasta-o!
— Resta o outro... mas o cavaleiro cristão começa a dominá-lo.
— Não é possível! Não é possível!
— Infelizmente vai vencê-lo, querida irmã... Nada mais podemos fazer!
Foi então que o mais feio e o mais triste dos deuses da montanha se ergueu e avançou para a fada da Lua.
— Sim, ainda podemos fazer alguma coisa... Eu, pelo menos, posso fazer alguma coisa!
Os outros olharam-no espantados.
— Se me permitis, boa fada que eu sempre adorei... vou sacrificar-me por vós!
Ela suspirou profundamente e estendeu as sua mãozinhas diáfanas como que a tentar impedir o gesto. Mas o mais feio e o mais triste dos deuses da montanha continuou imperturbavelmente:
— Não há tempo a perder... Vede como o jovem Ataúlfo domina adversário... Vai matá-lo de um momento para o outro... Tenho de intervir imediatamente!... Adeus, companheiros! Adeus, minha querida fada!
E, num milésimo de segundo, à vista de todos eles, o mais feio, o mais triste dos deuses da montanha transformou-se num penhasco horrível. Penhasco que rolou pela montanha e foi cair com estrondo enorme sobe o jovem cavaleiro Ataúlfo, fazendo-o rolar com o seu cavalo pela ribanceira abrupta...
Em vão, Fátima, a bela Fátima, esperou pelo seu enamorado. Ele não mais apareceu. A Lua deixou de estar escondida e revelou-se de novo ao olhos de toda a gente, enchendo a noite de claridade. E quando a Lua reapareceu — foi a fada que surgiu junto de Fátima.
— Vós… aqui... minha madrinha?
— Sim... Venho buscar-te!
Fátima olhou-a, sem compreender.
— Buscar-me? Mas... para onde? Meu pai não quer que eu saia de Manteigas...
— Enganas-te... Sais tu... e sai ele também, com todos os seus homens... Os cristãos já estão perto!
Um grito abafado morreu na garganta da princesa moura.
— Eu... não posso... não quero... sair daqui!...
— Esperas alguém?
Fitaram-se. Intensamente. Profundamente. Por fim, a bela Fátima ousou responder.
— Sim... Espero alguém!
— Pois escusas de esperar. Esse alguém nunca mais chegará!
Desta vez foi um grito que se ouviu. Grito de dor lancinante.
— Que dizeis?
Calma, a fada da Lua retorquiu:
— Isso mesmo! O jovem Ataúlfo já não é deste mundo.
As lágrimas inundaram o lindo rosto de Fátima.
— Como... Como o sabeis?
Sempre serenamente, veio a explicação.
— Assisti à sua morte. Morreu como um valente, mas morreu. Os deuses da montanha não o deixaram passar. Quero dizer: um dos deuses, por amor de mim, não o deixou passar!
Fátima nada mais disse. Chorou apenas. E foi num silêncio molhado de lágrimas que ela escutou o resto da explicação.
— Já falei com o teu pai, Fátima. Ele ficou muito pesaroso, acredita. Pesaroso e doente. Pediu-me para te castigar, por pretenderes fugir com um cavaleiro cristão. Já não quer saber de ti. Vai fugir agora para o alto de Alfátema, mas sabe que não poderá resistir muito mais. Os cristãos, fortes e ousados como são, apossar-se-ão de tudo isto, como já se apossaram do resto. Ainda possuímos Al-Gharb, mas fica muito longe... Nós teremos de ficar por aqui. Vem comigo!

E saíram silenciosamente, por caminhos que só a fada conhecia. A luta estava no auge e até elas chegavam os gritos dos combatentes. Misturavam-se os berros de vitória dos cristãos com os queixumes desalentados dos mouros, e com os gemidos dos moribundos, e com o tropel dos que fugiam em debandada.
— Ouves, Fátima? Os cristãos já estão a assaltar o cimo de Alfátema... Temos de andar mais depressa!
E andaram até chegar a um recanto do monte, junto do qual pararam, a um sinal da fada. Esta bateu com a sua varinha mágica na rocha e logo uma porta se abriu misteriosamente, dando-lhes passagem.
— Eis onde ficarás encantada para sempre, princesa Fátima... É um palácio construído de propósito para ti.
Só então a bela princesa reagiu, perante o castigo de ficar ali enterrada para sempre.
— Oh, minha madrinha!... Eu não quero... eu não posso!...
Mas de repente notou que estava a falar sozinha. A fada desaparecera. Fátima caiu de joelhos, soluçando. E teve a impressão de que escutava ainda uma voz no espaço que lhe dizia:
— Ficarás aqui até que algum guerreiro da tua raça tenha coragem para te vir libertar... E uma noite em cada ano poderás subir ao penhasco e chorar a morte do teu bem-amado Ataúlfo, por amor do qual sofres tamanho castigo!
Nada mais...
E talvez por isso mesmo os pastores da serra da Estrela dizem ainda hoje que em certa noite do ano se pode ver nos penhascos de Alfátema uma visão estranha, muito bela, vestida de branco, cantando e chorando...

Fonte Biblio MARQUES, Gentil Lendas de Portugal Lisboa, Círculo de Leitores, 1997 [1962] , p.Volume III, pp. 271-276

Place of collection-, MANTEIGAS, GUARDA

Narrativa

When XII Century,

CrençaUnsure / Uncommitted

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