Lenda da Moura e do Touro

APL 2830

Noite de luar de Agosto. Ali, na antiga vila de Messejana, conquistada aos Mouros por D. Sancho II, perdurava ainda o perfume do mistério das mouras que por lá tinham passado. Talvez por isso, quando os rapazes, abraçados, passeavam na estrada, cantando à luz prateada do luar, as suas canções dolentes assemelhavam-se às toadas mouriscas de distantes amores perdidos. 
Perto, Rosa escutava a voz máscula do seu António. Era a rapariga mais bonita e mais travessa do lugar. Todos a requestavam. Todos a queriam. Mas ela preferira o seu António.
Passando junto da janela baixa de Rosa, António saiu do grupo. A rapariga abrira a janela, de mansinho. Ele acercou-se.
— Rosa... Disseste que hoje me darias a resposta.
Ela sorriu-lhe. Um sorriso de luar a iluminar os seus olhos bonitos.
— António! Pois não adivinhas?... É preciso que te diga?...
— Sim, quero ouvir da tua boca!
— Pois ouve: é só de ti que eu gosto! Os outros rapazes nunca me interessaram.
Ele agarrou-lhe um braço bem torneado.
— Rosa, ainda bem que não me enganei! Mas às vezes... a dúvida roía-me cá por dentro.
Ela riu baixinho, não fosse a mãe acordar.
— Pois agora já tens a certeza. Só falta marcares a boda.
Ele olhou-a, subitamente sério.
— Não rias, Rosa! É que vamos mesmo marcar a data da boda!
E o António da Horta do Cabo — tal como era conhecido por viver na quinta que outrora pertencera ao convento dos franciscanos — jurou à sua namorada que daí por mais seis luas já estariam casados. E a jura não foi quebrada!
Como acontece em muitas das histórias populares, Rosa e António casaram e foram muito felizes. Viviam na Horta do Cabo. António trabalhava no campo. Rosa lavava a roupa das pessoas mais abastadas. E à noite, quando o tempo permitia, cantavam canções dolentes de amores distantes, perdidos...
 
Certa manhã, quando Rosa estava a lavar roupa num tanque da quinta, ouviu uma voz estranha que a sobressaltou. Chamava pelo seu nome. Surpreendida, a rapariga olhou para todos os lados sem descortinar vivalma.
Voltaram a chamar por ela. Era uma voz de mulher, fina, cariciosa. Assustou-se. E perguntou:
— Quem me chama?
Voltou a voz, serena:
— Sou eu, Rosa... Estou aqui, no castanheiro...
Rosa levantou o olhar. Estremeceu. No castanheiro em frente, estava uma jovem de singular beleza. Os cabelos cobriam-lhe os ombros, e o corpo, da cintura para baixo, não tinha forma humana, mas o aspecto de uma grande serpente que se enrolava no tronco da árvore.
Rosa não conseguiu esconder o medo que a fazia tremer cada vez mais. Balbuciou quase:
— Meu Deus!... Quem me acode?...
Mas já a jovem, sorrindo, voltava a falar-lhe.
— Rosa, não tenhas receio. Ninguém te fará mal. Acredita em mim!... Preciso que acredites em mim!
Vencendo o susto, a rapariga achou forças para perguntar.
— E... quem é vossemecê?
A resposta veio tão pronta como estranha:
— Sou a filha do que era senhor de todas estas terras e alcaide do velho castelo de Messejana.
Rosa abriu os olhos, num espanto.
— Mas a senhora e o senhor seu pai ainda estão vivos?
— Estamos encantados. Terrivelmente encantados! Por isso te apareço assim. Meu pai está encantado num touro.
— Então vossemecê é moura encantada?...
— Sim. Só uma vez por ano volto à forma humana e apenas da cintura para cima.
— Mas isso é terrível!
— Sim, é terrível. Mas se tu quiseres, Rosa, podes ajudar-nos a sair do nosso encantamento.
— Se eu quiser?
— Sim. Só tu podes decidir.
— Tem a certeza de que eu posso?...
A linda moura pareceu animar-se.
— Escuta, Rosa. Diz-me primeiro: queres ajudar-nos?
— Quero. Mas que devo fazer?
— Pouca coisa. No entanto, é necessária muita coragem. Estás disposta, Rosa?
— Talvez. Diga lá primeiro o que é preciso fazer.
Soou a voz bonita da moura encantada. Vagarosamente. Suavemente.
— Escuta. Presta muita atenção ao que te vou dizer. No fim deste dia, ao ouvires dar a meia-noite, estarás na porta principal do convento, levando nas mãos um lenço branco, dobrado em bico... Quando soar a última badalada, o meu pai, transformado em touro, correrá em direcção a ti, mugindo terrivelmente e deitando baba... Não te deves assustar, pois nenhum mal te acontecerá. Mas tens de mostrar muita coragem! Quando o meu pai chegar junto de ti, limpa-lhe a baba com o lenço branco. Se fizeres tudo isso, tal como estou a ensinar-te, tudo se transformará! O meu pai voltará a ser homem e eu voltarei também, por completo, à forma humana! E tu serás muito feliz e rica. Compreendeste, Rosa?
Rosa estava perplexa. Não respondeu logo. A moura tornou:
— Vê lá, pensa bem! Se falhares por medo, eu e o meu pai nunca mais perderemos o nosso encanto! Quanto a ti, serás uma desgraçada, daí em diante. Por isso, pensa bem antes de responder!
Rosa suspirou fundo. E respondeu:
— Já pensei. Quero ajudá-los!
— Mas compreendeste bem o que terás de fazer?
— Compreendi.
— Vê bem, Rosa! Se tiveres medo, deitarás tudo a perder e seremos desgraçados. Tu também! Se conseguires ter coragem, seremos todos ricos e felizes!
— Farei por não ter medo.
Nesse mesmo instante a estranha aparição sumiu-se. Rosa esfregou os olhos, pensando que sonhara. Mas não: sabia que estava acordada e bem acordada. Olhou em volta. Apenas o meio silêncio do campo. Sem mais delongas, Rosa pegou na roupa e encaminhou-se para casa. Precisava dizer tudo ao António. E ficou-se a contar os minutos e os segundos que iam passando.
 
Davam já as ave-marias na capelinha, quando o jovem alentejano caminhava pelo monte em direcção a casa. Porém, mal abriu a porta da casinha branca onde morava, topou com o rosto pálido da mulher e a sua expressão aflita. Indagou logo:
— Que se passa? Que tens, Rosa?
Ela ficou um instante emudecida, talvez sem saber bem como havia de começar. Mas, reparando na preocupação crescente do marido, resolveu-se.
— Sabes lá o que me aconteceu, homem!
— Que foi?
— Olha... É difícil de explicar. Senta-te aqui ao pé de mim.
— Assustas-me!
— Também eu estou assustada. Mas ouve, ouve primeiro.
E Rosa contou tudo minuciosamente ao marido, tal qual passado.
António ouviu-a num espanto crescente, sem a interromper. Quando ela chegou ao fim da narração, perguntou, ansioso:
— E que vais tu fazer?
Ela olhou o campo que a penumbra começara a envolver. E declarou, sem grande entusiasmo:
— Tenho de cumprir a promessa que fiz.
António não respondeu. Ela interrogou o marido:
— Não te parece que não devo agora fugir?
Ele suspirou fundo, olhando com insistência, embora sem as ver, as biqueiras das suas botas de trabalho.
— Claro! Tens de cumprir o que prometeste...
E olhando a mulher, num gesto de quem oferece protecção:
— Mas eu vou contigo!
Ela retorquiu logo:
— Não pode ser, António. Tenho de ir sozinha... Foi isso que ficou combinado.
O alentejano teve um esgar indefinido.
— Bem. De qualquer modo vou contigo até ao portão da quinta e aí esperarei por ti. Saberás que estou perto. Se chamares, eu te ouvirei. Dar-te-ei mais confiança e eu sempre fico mais sossegado. Quando terás de sair de casa?
— Um minuto antes da primeira badalada da meia-noite.
— Esperemos, então.
Nessa tarde não houve ceia. Estavam demasiadamente preocupados para pensar em comida. O tempo arrastava-se num vagar que enfrenesiava o jovem casal. Mas finalmente a hora aprazada para a partida chegou.
Rosa pôs um xaile pelos ombros, foi buscar o lenço branco, dobrou-o em triângulo, e juntou-se ao marido, que acendera uma lanterna. Caminharam juntos até à porta do convento. Nada mais se ouvia além do sussurro da água da fonte. António falou baixinho, como se receasse despertar os espíritos ocultos.
— Rosa, eu fico aqui junto do portão. Se precisares de mim, é só chamar...
Soou a primeira badalada da meia-noite. Rosa estremeceu. E silabou quase:
— Vou andando...
E a jovem Rosa meteu-se ao caminho. Parou no local indicado. E logo que a última badalada da meia-noite se extinguiu, surgiu um touro negro, numa corrida brutal, parecendo deitar chispas de fogo pelos olhos.
Vendo-o assim, possante, enraivecido, numa correria louca direito a ela, Rosa perdeu toda a calma e gritou, alucinada:
— António! António! Ele vai matar-me!
Depois caiu no chão, desmaiada. Então ouviu-se um urro tremendo, e o touro desapareceu.
No ar pairava um lamento. Apenas um lamento. Um lamento numa voz de mulher:
— Desgraçada, que te desgraçaste e nos desgraçaste!...
António correra logo em socorro da mulher. Vendo-a desmaiada, levantou-a nos seus braços fortes. Corria como podia em direcção a casa. Chamava por ela.
— Rosa, minha Rosa! Sou eu, o António! Não tenhas medo!
Como resposta, apenas o tal lamento de mulher, que terminava num soluço:
— Desgraçaste-te e desgraçaste-nos!
António chegou a casa. Deitou Rosa sobre a cama. Humedeceu-lhe as fontes e continuou a chamar desesperadamente:
— Rosa, é o teu marido que te fala! Abre os olhos, Rosa!
Como se quisesse obedecer, Rosa abriu os olhos. Mas o seu olhar foi de alucinação, o seu gesto de pavor intenso. E gritou:
— Não, não quero, tenho medo! Tirem-me o touro daqui! Tenho medo... Ele vai matar-me!... António, António!...
António tentou acalmá-la:
— Rosa, estás sozinha comigo! Não tenhas medo, já tudo passou!
Ela levantou-se, abriu a porta, e ia sair a correr na noite escura. António a custo a susteve. A mulher debatia-se-lhe nos braços:
— Deixem-me! Deixem-me!
António dizia já coisas sem nexo:
— Acalma-te, Rosa! Que tens? Ele partiu. Tu estás comigo!... Foi uma loucura, mas tudo passou!
Da noite surgiu de novo o lamento:
— Desgraçaste-te e desgraçaste-nos! Não mais se quebrará o encanto!...
Rosa pareceu, subitamente, acalmar-se. Olhou o marido e não o reconheceu. Ele quase chorava.
— Rosa, que tens? Enlouqueceste?
Não respondeu, a jovem. Mas era verdade: Rosa tinha enlouquecido. Enlouquecido! A maldita profecia cumpria-se: Rosa desgraçara os mouros e desgraçara-se! O medo quebrara a sua promessa!
Não mais teve um minuto de sossego, a jovem alentejana. Não mais foi feliz o jovem António. E segundo conta ainda o povo, em certa noite de cada ano, quando soam as doze badaladas da meia-noite, ouvem-se urros de um touro e uma voz de mulher que chora angustiada, gritando:
— Desgraçada, que te desgraçaste e nos desgraçaste!...
E o vento, fraco ou forte, leva nas suas asas esse grito de angústia pelos campos de Messejana.

Fonte Biblio MARQUES, Gentil Lendas de Portugal Lisboa, Círculo de Leitores, 1997 [1962] , p.Volume III, pp. 167-172

Place of collection Messejana, ALJUSTREL, BEJA

Narrativa

When XX Century,

CrençaUnsure / Uncommitted

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