Lenda da Noite de S. Silvestre

APL 2893

Conta-se que há muitos, muitos anos — tantos que a nossa memória já não os consegue somar na ardósia da vida e do tempo — existia em certo local do oceano Atlântico o mais maravilhoso de todos os países do mundo: a Atlântida.  
Segundo a nanativa de Platão, a Atlântida, que coubera inicialmente em partilha a Poséidon, dos amores deste deus com uma mortal chamada Clito, fora dividida depois pelos dez filhos de ambos. E destes passara sucessivamente aos seus descendentes, até que a certa altura os seus reis tiveram a louca pretensão de conquistar o mundo.
Diz-se mesmo que o último desses reis levou a sua arrogância a tal ponto que ousou desafiar os Céus.
— Sim! Que podem os Céus contra nós?... Que pode o mundo contra nós, que somos os reis da Atlântida? Nós temos o poder dos deuses!
E conforme se diz também, nesse instante o rei escutou uma voz sobrenatural que ecoava dentro de si próprio e lhe dizia:
— Enganas-te! Não há homem algum que tenha o poder de Deus!
Espantado, intrigado, furioso, o rei da Atlântida olhou em redor de si sem nada ver.
— Quem fala? Quem se atreve a erguer a voz na minha presença, sem me pedir autorização para tal?
E a mesma voz sobrenatural respondeu de pronto, pausada e severamente:
— É Deus que te fala, mesquinho rei da Atlântida, homem frágil e meu servo.
Um grito de cólera saiu da garganta do rei humilhado:
— Deus? Mas qual dos deuses?
E a voz sobrenatural esclareceu, num tom ainda mais severo:
— O único Deus que existe!... O criador da vida e da morte!
Então, o rei da Atlântida explodiu em ameaça e em jactância:
— Pois a esse tal deus que me fala, sej a ele qual for, desafio-o a que se oponha aos meus planos!... Eu não tenho medo... Eu sou o rei da Atlântida, o mais poderoso império de todos os impérios!... Tenho fortuna e forças suficientes para esmagar o mundo! E para começar vou submeter e esmagar o poder de Atenas!  
E a voz sobrenatural limitou-se a prevenir:
— Atreve-te, rei tolo e ambicioso... atreve-te e verás o resultado!...
Não se intimidou o rei da Atlãntida. Mandou que se formassem os seus exércitos, prontos para a grande batalha.
— Se vencermos o poder de Atenas — e havemos de vencê-lo —, o mundo será nosso! Ninguém mais se atreverá a erguer-se na nossa frente!... Nem os próprios deuses ousarão tal... Portanto, guerreiros que me escutais, segui os vossos chefes, tal como os vossos chefes me seguirão, e a vitória será nossa!
Brandindo e espada refulgente nos ares, o rei da Atlântida voltou a bradar:
— A vitória será nossa!
E a multidão dos guerreiros repetiu como um eco:
— A vitória será nossa!
Assim se travou — conforme nos conta ainda Platão — a espantosa batalha entre os povos do Ocidente das Colunas de Hércules, comandados pelo rei da Atlântida, e os povos de Leste, chefiados por Atenas.
No meio da refrega, porém, surgiu como que prodigiosamente a mesma estranha voz sobrenatural, que se sobrepôs ao fragor da luta:
— A vitória será de Atenas, para que os reis da Atlântida, ingratos e indignos, sofram uma terrível lição. Atlântida desaparecerá para sempre e o seu nome há-de ficar, pelos séculos dos séculos, como o símbolo da grandeza destruída por sua própria culpa. Esta é a minha vontade. Esta é a vontade de Deus!
E na verdade os guerreiros da Atlântida foram derrotados violentamente pelos guerreiros de Atenas. E à derrota pungente e dolorosa sucederam-se terríveis terramotos e fantásticas inundações. Num só dia e numa só noite, o que fora o esplendoroso e incomparável reino da Atlântida desapareceu por completo, engolido pelas águas do oceano.

Muitíssimos anos passaram sobre esse dia...
Até que certa vez, bastantes séculos depois da morte de Jesus Cristo — o Messias que aparecera para ensinar uma nova vida aos homens —, Sua Mãe, a Virgem Maria, segundo se perpetua na tradição milenária, debruçava-se lá dos Céus sobre o oceano que se estendia a seus pés. E junto dela passou, em determinado momento, um santo ainda jovem. Vendo-a tão absorta, o Santo parou e perguntou:
— Senhora, que estais a ver com tanto interesse?...
A Senhora Mãe de Jesus ergueu o seu olhar doce.
— Ah, sois vós, Silvestre?
— Sou eu, sim, Senhora... Perdoai-me, mas vinha à vossa procura… à procura dos vossos conselhos...
A Virgem Maria olhou-o mais profundamente.
— Que vos preocupa, Silvestre?
Humildemente, ele confessou:
— Senhora, esta é a minha noite...
— Bem sei... É a última noite do ano.
Ele pareceu entusiasmar-se.  
— E por isso mesmo, Senhora... É por isso mesmo que vos desejo falar.
A Senhora Mãe de Jesus fez um gesto de aquiescência.
— Pois falai!
E São Silvestre, enleadamente, timidamente, foi dizendo:
— Eu... Eu tenho pensado... enfim… acho que esta última noite do ano... a minha noite… devia significar para os homens, lá em baixo, mais alguma coisa do que tem significado até agora...
Uma interrogação muda transpareceu no rosto da Senhora dos Céus. E o Santo ajuntou, já mais à vontade:
— Pois bem, Senhora… se me permitis... julgo que esta noite poderia marcar uma fronteira entre o passado e o futuro... Ou seja, poderia servir para os homens se arrependerem dos erros cometidos e prometerem a si próprios esperança de melhores dias.
A Virgem Santíssima aprovou com um leve inclinar de cabeça.
— Acho muito boa a ideia...
E logo, entusiasmando-se mais, São Silvestre completou o seu pensamento:
— E vem a propósito, não achais, Senhora? Antes realiza-se a festa do Natal, a festa de Jesus, Vosso Filho e Nosso Senhor... Depois... bem, depois, viria a festa do Fim do Ano… a festa da minha noite, como chamada de atenção à consciência dos homens.
Foi a altura do rosto divinamente belo da Virgem se tomar de novo apreensivo.
— Dizeis bem, Silvestre!... Cada vez mais, a consciência dos homens precisa de ser vigiada.
Suspirou tristemente e sublinhou:
— Ainda há pouco, quando chegastes, estava eu a espreitar lá para baixo...
Ele suspirou também.
— Eu bem vi, Senhora... E parecíeis tão triste, tão amargurada...
Houve um breve silêncio. Depois, a Virgem Santíssima perguntou:
— Sabeis o que eu estava a observar nesse momento, Silvestre?
O Santo teve um ar de perplexidade.
— Não sei, Senhora, não...
E a Senhora, voltando a debruçar-se sobre o oceano esclareceu:
— Pois estava a relembrar o fausto e a beleza maravilhosa dessa ilha chamada Atlântida, que Deus fez afundar para castigo dos pecados sem fim dos seus habitantes e como aviso à soberba dos homens.
Dos olhos da Senhora tombaram lágrimas puras de tristeza.
— Mas, afinal, eles não se emendaram!... Silvestre, eles não se emendaram!...
Emocionado, o Santo olhou-a melhor.
— Chorais, Senhora?
— É o coração que chora nos meus olhos, Silvestre! São lágrimas por misericórdia dos homens!
Num sobressalto de júbilo, São Silvestre exclamou com voz trémula.
— Não são apenas lágrimas, Senhora... São pérolas... São autênticas pérolas que caem dos vossos olhos!...
E, nesse mesmo instante, tal como se perpetua na tradição popular, uma das lágrimas da Nossa Senhora, por vontade de Deus, deslizou lá dos Céus e foi cair sobre o próprio local onde desaparecera a maravilhosa Atlântida...
São Silvestre sentiu-se contagiado por uma alegria estranha.
— Senhora, olhai!... Olhai!... Uma das vossas lágrimas caiu no oceano...
Ela limitou-se a confirmar:
— É verdade, Silvestre... Não sei como foi...
E o Santo, como que iluminado interiormente, exclamou num êxtase:
— E que bem fica ali, no meio das águas... Uma pérola, uma pérola verdadeira, Senhora, a crescer, a tornar-se cada vez maior e mais bela... A Pérola do Atlântico!  
E deste modo, tal como se enraizou na alma do bom povo madeirense, nasceu a ilha de Madeira, e daí lhe vem o sobrenome.
Diziam os antigos que noutros tempos, na noite de S. Silvestre — talvez, quem sabe, por inspiração da Nossa Senhora —, quando batiam as doze badaladas da meia-noite, erguia-se nos ares a visão surpreendente de um cortejo de maravilha, cheio de luz e de cores fantásticas e que deixava atrás de si um perfume estonteante...
No rodopio dos anos, esse cortejo mágico da meia-noite desapareceu. Mas em seu lugar os homens criaram as esplendorosas festas do fim do ano na Madeira — a já internacionalmente famosa Noite de S. Silvestre, com o seu prodigioso fogo de artifício, que mais não é, afinal, do que a evocação dos fascinantes sonhos de antanho...

Fonte Biblio MARQUES, Gentil Lendas de Portugal Lisboa, Círculo de Leitores, 1997 [1962] , p.Volume IV, pp. 318-320

Place of collection-, FUNCHAL, ILHA DA MADEIRA (MADEIRA)

Narrativa

When

CrençaUnsure / Uncommitted

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