Lenda da Pena Fiel

APL 2704

Lenda e História, fantasia e realidade, ilusão e certeza, muitas vezes se juntam nos horizontes da vida. Juntam-se e misturam-se de tal forma que, muitas vezes também, se torna impossível a destrinça.
Tomemos, por exemplo, uma cidade portuguesa, das mais lindas e características. E das mais ricas em lendas e tradições.
 
Penafiel é o seu nome. E embora para os historiadores eruditos e rigorosos Penafiel derive de Pena e signifique «castelo erguido sobre rochas firmes» — ou seja em sítio fiel — para o ingénuo e poético povo de Portugal, o nome de Penafiel tem uma sigrilficação diferente, bem mais curiosa e pitoresca. E bem mais romântica.
 
Em tempos antigos de antigos tempos, Penafiel representava apenas «o sítio». O sítio de muitas povoações, das quais a mais importante era, sem dúvida alguma, Arrifana de Sousa. Mas por carta régia de 24 de Março de 1770, el-rei D. José I  decretava o seguinte:
«Hei por bem e me apraz, que a dita povoação de Arrifana de Sousa, do dia da publicação deste em diante, fique criada em cidade com o nome de Penafiel.»
E é portanto a história lendária que junta no mesmo abraço de tradição os nomes de Arrifana de Sousa e de Penafiel que vou contar...

Aí pelo ano de 950, conforme nos asseveram as crónicas do tempo, existia como grande senhora da região uma respeitável matrona de alta linhagem, que a História deu a conhecer com o nome de Mumadona Dias, a qual ficara viúva do celebrado Conde Hermenegildo e não se cansava de prantear sua triste sorte.
Junto do túmulo do seu bem-amado esposo. Mumadona Dias confessava, chorando, a amargura que lhe inundava a alma:
— Oh, meu adorado e bom esposo, que vida horrível a minha desde que partiste para sempre, deixando-me tão só neste mundo!... E certo que ficaram também nossos filhos... Mas deles, apenas poderei contar com Arriana e Nuno, os meus dois preferidos... Ah, Hermenegildo, os outros... os outros ainda são mais loucos do que vós fostes!... Só pensam na aventura, na guerra, no perigo, no sangue... Sim, restam-me unicamente, como companhia e como amparo, Arriana e Nuno. Meus queridos filhos!... Um, tem o vosso rosto, o outro tem a vossa alma!.. Arriana é boa, como vós fostes... E Nuno é tão valente como vós, meu querido e saudoso esposo... Sem eles, a vida de nada serviria já para mim!

Decerto por tudo isso, quando houve a divisão dos bens deixados pelo Conde Hermenegildo, a chorosa viúva Mumadona Dias escolheu as melhores terras para os seus dois filhos predilectos: Arriana e Nuno.
— Em vossas mãos, meus filhos, elas ficam mais seguras...
Mas Arriana abanou vagarosamente a cabeça bonita e encaracolada...
— Oh, senhora minha mãe, as terras que me dais ficarão sendo vossas, porque eu não me separarei de vós, por coisa alguma deste mundo...
Logo, o jovem Nuno confirmou, num arrebatamento:
— Também eu, senhora minha mãe... Só a morte me poderá separar de vós!
Mumadona Dias persignou-se rapidamente.
— Por Deus, meus filhos, calai-vos... Calai-vos, peço-vos... Oh, Nuno, não quero que faleis em morte!
Afagando os cabelos negros de seu filho, a boa mãe ajuntou, num sorriso feito de orgulho e de saudade:
— Tão novo ainda, tão belo, tão valente… pareceis mesmo vosso pai, quando era dessa idade.
Os olhos de Nuno toldaram-se por nuvem passageira.
— E do vosso coração, senhora minha mãe, que saem tais palavras... Mas, acreditai, não há homem que se possa comparar ao nosso chorado senhor e pai.
Depois, altivo e grave, concluiu:
— Por honra da sua memória, sim, farei por ser digno dele!
A viúva reprimiu soluços e voltou-se para sua formosa filha.
— E vós, Arriana, um dia decerto pensareis em casar... E então...
Numa ligeira vénia, como que a pedir permissão para interromper sua mãe, a bela Arriana retorquiu:
— Perdoai-me, senhora, mas não penso em casar... A minha vida será dedicada inteiramente a vós, senhora minha mãe, e a meu irmão Nuno.
Sem voz de momento, emocionada em demasia, Mumadona Dias limitou-se a abraçar os filhos. E só depois conseguiu traduzir o pensamento em palavras, mas tão baixinho, tão baixinho, que elas se confundiram com as batidas do seu próprio coração:
— Obrigada, meus filhos, obrigada!
 
Ora um dia, tempos transcorridos, a viúva Mumadona Dias recebeu, de surpresa, a visita de um vizinho poderoso, D. Mendo de Sousa, senhor de muitas terras em redor. E mais surpreendida se quedou, quando soube a razão e o propósito de tal visita.
— Senhora, conheceis quem sou e quanto valho. Ninguém se me pode comparar em poderio. E assim deveis considerar uma honra, senhora, para vós e para vossa casa, que eu deseje casar com vossa filha Arrifana.
Tolhida pelo espanto, a nobre viúva apenas conseguiu levantar uma breve rectificação.
— Perdão, D. Mendo... Minha filha chama-se Arriana... e não Arrifana!
O poderoso senhor olhou-a, com um ar de soberano desdém.
— Que importa? Arrifana é nome mais bonito!
A teimosia do visitante excitou o amor de mãe.
— Para mim, senhor, ela será sempre Arriana. E esse será sempre também para mim o nome mais bonito.
Houve uma pausa embaraçada. Depois, perante o olhar interrogativo de D. Mendo, a viúva Mumadona Dias esclareceu:
— Quanto ao mais... será minha filha quem resolverá.
Pelo rosto de D. Mendo desfilaram em corridas várias expressões. O pasmo. A revolta. O furor. De novo, o pasmo. E, por fim, um irreprimível desprezo.
— Era o que faltava, senhora... Era o que faltava!... As filhas decidirem os seus casamentos... Não, senhora, isso nunca!... São os pais que têm de decidir... E como o Conde Hermenegildo morreu...
A viúva ajuntou, num ar de prece:
— Que a sua alma descanse em paz!
Como se não a escutasse, o poderoso D. Mendo sentenciou:
— Já que ele morreu, senhora, sereis vós a decidir!
Então, foi a altura da surpresa cair sobre D. Mendo. Digna e solene, a viúva avançou para ele e disse, pausadamente:
— Não, senhor D. Mendo de Sousa... Nem a vossa fortuna, nem o vosso poder me farão mudar de ideias... Quem decide acerca do seu próprio coração é milha filha Arriana. Compreendeis? Minha filha Arriana!
E afastou-se com a mesma solenidade, indicando a D. Mendo que se sentasse e esperasse...

A demora foi curta. Mumadona Dias entrou com a jovem e bela Arriana e indicou-lhe D. Mendo, que se erguia a custo, pesadamente.
— Minha filha... D. Mendo de Sousa propõe-se casar convosco.
Inquieta, hesitante, Arriana agarrou as mãos de sua mãe.
— Mas, senhora, eu já vos disse...
Mumadona Dias afastou-se e falou naquela sua voz habitual, que não admitia réplica:
— Dizei a D. Mendo o que quiserdes, minha filha... Sois dona e senhora da vossa vontade.
Entretanto, o fidalgo poderoso recuperara a sua insolente autoridade de grande senhor. E foi já num plano de superioridade que voltou a falar.
— Imagino quanto vos deveis sentir feliz com a minha proposta, jovem e bela Arrifana... e assim...
— Arriana, senhor! Minha filha chama-se Arriana!
A interrupção da viúva fê-lo perder o fio ao discurso. Mordeu os lábios com força, mas calou-se. E foi então a voz doce de Arriana que encheu toda a sala:
— Senhor D. Mendo, sei bem como sois forte e rico... Iria decerto encontrar em vós um esposo ideal... Mas a verdade é que jurei não casar.
— Que dizeis, Arrifana?
A pergunta do visitante era quase uma ameaça. Mas logo a voz da viúva voltou a rectificar.
— Arriana é que é o seu nome, D. Mendo. Já vos disse mais de uma vez...
E andando até junto da jovem, aconselhou num misto de ternura e de confiança:
— Pensai bem minha filha!
Porém, como se esperasse já aquela pergunta, Arriana respondeu imediatamente e, desta vez, sem qualquer espécie de hesitação:
— Já pensei tudo o que tinha a pensar, senhora minha mãe. Enquanto vós viverdes, e meu irmão também, não quero outra companhia que não seja a vossa!
Olhou firme para o visitante, que respirava fúria e despeito, e concluiu sem desviar os olhos:
— Jurei que não casaria… e não caso... nem mesmo com o poderoso D. Mendo de Sousa!
Calaram-se todos. Ouvia-se lá fora a Primavera a chilrear na voz da passarada.
Ainda mal refeito do embate, martelando as palavras, o poderoso D. Mendo voltou-se para a viúva:
— Ouviste, senhora? Foi essa a última palavra de vossa filha? E consentis em tal? Não tendes força para que vos obedeça vossa filha Arrifana?
Sem responder logo, Mumadona Dias encaminhou-se para a saída, como que a indicar o caminho. E disse, num tom de despedida formal:
— Esta foi a última palavra de minha filha... Arriana!

Tudo voltou à normalidade. Família feliz e unida, parecia respirar entre si o ambiente da própria Primavera que a envolvia. Mas lá diz o povo, num dos seus conceituosos adágios: «Não há bem que sempre dure...». E um mal pior veio a seguir, na roda do tempo, que roda sem parar: o jovem Nuno caiu doente vítima de febre pertinaz e perigosa... Durante dias, noites, semanas, as duas mulheres não abandonaram a cabeceira do enfermo. Foram chamados os melhores físicos. Tudo em vão!
A vida, aos poucos, ia abandonando o corpo de Nuno, que tão vigoroso fora. Ele bem o sentia. Elas bem o sentiam. Mas lutavam ainda, apesar de tudo.
— Nuno... meu querido filho... confiai em nós... Havemos de vos salvar…
— Deus há-de ouvir-me, meu irmão!
Nuno, todavia, compreendeu perfeitamente quando o momento chegou:
— Não vos quero aflitas... É a minha hora! Quem sabe? Talvez seja o senhor meu pai a chamar-me lá do Céu...
— Oh, Nuno, meu filho, não faleis assim... Sois ainda tão novo! Não vos quero perder...
Ele sorriu debilmente.
— Pois tendes de me perder... Ides ficar sem mim, eu vos digo... Sinto que me estou a afastar da terra.
— Meu filho!
— Meu irmão!
Mas era bem verdade. Tristemente verdade. Dolorosamente verdade. Ele estava a afastar-se da terra...
E conta ainda a lenda velhinha que desde então as duas mulheres viveram em pranto, chorando a morte de Nuno. Propagou-se mesmo a notícia de que, mal chegavam as trevas da noite, a viúva Mumadona Dias e sua filha Arriana vagueavam por ali, como doidas, desabafando dores e saudades:
— Esta será para sempre a terra da nossa pena fiel pelo nosso querido Nuno!
— Tendes razão, filha! Para todo o sempre, esta há-de ficar a ser a terra da nossa pena fiel!

E mais tempo correu na roda do tempo, que roda sem parar... com a morte da viúva Mumadona Dias e de sua filha Arriana, as terras de ambas caíram finalmente nas mãos do poderoso D. Mendo de Sousa. E embora velho e agastado, ele não escondeu a sua satisfação:
— Pois claro! Já que ela não quis casar comigo em vida, ao menos pertencem-me agora as suas terras. E vou dar-lhes o nome de que tanto gostava: serão as terras de Arrifana de Sousa, para que perpetuem o nome dela e o meu apelido. As terras de Arrifana de Sousa...
 
E assim ficaram a chamar-se de facto, pelos tempos adiante, até ao reinado de D. José I, o qual, segundo se diz, conhecedor da lenda tecida em redor da saudade pelo jovem Nuno — lenda a que o povo chamava já da pena fiel — quis também associar-se à tradição e passou a denominar oficialmente as terras de Arrifana de Sousa — terras de Penafiel.

Fonte Biblio MARQUES, Gentil Lendas de Portugal Lisboa, Círculo de Leitores, 1997 [1962] , p.Volume I, pp. 97-102

Place of collection Penafiel, PENAFIEL, PORTO

Narrativa

When X Century,

CrençaUnsure / Uncommitted

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