Lenda da Ponte da Portagem

APL 3227

Diz a lenda que amofinados porque o Sever, aqui ainda simples Ribeira de Marvão, durante as quadras, outonal, invernosa e primaveril, não dava fácil passagem a vau, obrigando a largos rodeios, os habitantes da região assentaram de, à custa de sacrifícios embora, construirem uma ponte.
    Discutia-se acaloradamente os meios mais próprios de efectivar tão útil empreendimento, quando um cavalheiro desconhecido, mas revelando no traje e no séquito a opulência dos seus recursos, se prontificou a fazer pronta e seguramente a ponte.
    Apenas punha uma condição, a seu ver, de pequena monta – a entrega das almas de toda a população que nada sofreria nesta vida, aplanadas todas as dificuldades por D. Belzebut, o cavalheiro que assim perentóriamente se revelara.
    Crentes fiéis da região de Mafona, os habitantes pouco hesitaram na sua resolução. É que, predecessores duma seita que Loyolla devia fundar séculos mais tarde, eles assentaram com tácito assentimento dos seus sacerdotes ou coisas que o valha, que a mentira é lícita quando dela nos advenha grandes lucros. E Satanás, lá se deixou embair mais uma vez, aceitando a condição de que a paga, estipulada para o seu enorme trabalho, só seria devida se, a ponte se iniciasse e completasse deste o pôr ao nascer do sol consecutivo.
    Como homem de recursos, Lúcifer desenvolveu uma extrema actividade e trazendo para ali todos os seus potentes e maravilhosos servidores conseguiria triunfar se Mahomet, constantemente assediado pelos seus crentes, cuja lamúria crescia à medida do rápido progredimento da obra, se não resolvesse a intervir, extraviando a pedra que falta e impedindo que antes do nascer do sol a ponte estivesse de todo pronta.
    Ficaram livres as almas e em preito ao fazedor do milagre tão espaventoso, nunca a lacuna foi preenchida, apesar dos longos séculos que sobre a ponte vão correndo, respeitando a sua vetustez como de coisa milagrosa.

Fonte Biblio COSTA, Alexandre de Carvalho Marvão, suas freguesias rurais e alguns lugares n/a, Câmara Municipal de Marvão, 1982 , p.33-34

Place of collection-, MARVÃO, PORTALEGRE

Narrativa

When

CrençaUnsure / Uncommitted

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