Lenda da Princesa Fátima

APL 2694

Pois vem correndo de geração em geração que a Princesa Fátima, jovem e bela princesa moura, ainda mais bela do que jovem, vivia recolhida no seu alcácer, em tempos que se perdem na memória do próprio Tempo.
E vivia feliz.
Era filha única do emir — e tal privilégio dava-lhe direito a ser tratada como verdadeiro tesoiro. Seu pai, temeroso de que a vissem — e maculassem com o seu desejo — os olhos ambiciosos dos cristãos, mandara construir, só para ela, uma pequena torre, ricamente mobilada, onde Fátima passava dias e noites, tendo por única companhia a tagarelice das aias. De todas elas, a jovem e bela Fátima escolhera para confidente a mais velha e experiente. A mais fiel, também. Cadija era o seu nome.
Certa tarde, quando o calor do meio do ano punha preguiças no corpo
e na voz, Fátima buscou ficar sozinha com Cadija.
— Que me quereis, Princesa?
— Fala-me de tudo o que sabes...
— Mas de quê, Senhora?... Da Festa das Luzes?... Do vosso formoso primo, o Príncipe Abu?
— Não, não quero que fales a tal respeito... Já me disseste tudo quanto sabias.., e até aquilo que te pediram para me dizer...
— Senhora!
— Não tenhas medo, Cadija. Eu sou tua amiga. Confio em ti.
E o sorriso da Princesa tranquilizou a velha aia. Mas depois a voz de Fátima desceu ao tom das confidências:
— Cadija... Eu sei que meu primo Abu me quer para esposa... Mas eu, Cadija, eu...
Suspenderam-se a voz e o olhar. A velha aia compreendeu. Estava habituada aos mistérios do coração. E sorrindo também, mas discretamente, limitou-se a perguntar:
— Voltastes a ver, Senhora... o tal guerreiro cristão?
Ela fez que sim com a cabeça. Os olhos fecharam-se, num arrepio. Talvez de receio. Talvez de amor. Ou talvez de dúvida...
Silenciaram-se durante instantes. Lá de fora, do ar livre e puro, vinha o chilrear das avezinhas. E vinham também o calor do sol e o cheiro do campo...
Depois, Fátima, a jovem e bela princesa moura, ainda mais bela do que jovem, respirou fundo.
— Ouve, Cadija... Ele tornou a passar ontem à tarde, além, naquele caminho... Vês?... Parou por momentos, tal como já acontecera... Lembras-te?
— E tendes a certeza de que era o mesmo, Princesa?
— Absoluta! Certeza absoluta, Cadija!
De novo, respirou fundo. E de novo desceu a voz quase a um murmúrio, como se falasse consigo própria:
— O coração não nos engana!
Foi a vez da velha aia se amedrontar. Agarrou as mãos da sua princesa e fechou-as nas suas. Singular contraste da vida! Mãos velhas e enrugadas a tentar defender mãos bonitas e viçosas.
— Minha querida Princesa… se vosso pai vem a descobrir...
— Cala-te, Cadija!
— Esse é o cristão que ele mais odeia, Senhora! — e, num suspiro inquieto e indeciso — O cristão que todos nós mais devemos odiar, Princesa!
Contam a lenda velhinha e a própria História de Portugal, abraçadas no mesmo anseio de evocação, que ele se chamava Gonçalo Hermingues e era conhecido entre os companheiros pelo nome de «Traga-Mouros».
Forte e destemido, habituado a fazer de cada impulso uma vontade, o moço guerreiro era tido e havido como um dos melhores do seu tempo.
Porém, embora cruel e sanguinário na luta, não perdoando aos que não lhe perdoavam, Gonçalo Hermingues possuía também uma alma de poeta.
Gostava de cavalgar pelos campos, improvisando os seus versos e as suas canções. E foi numa dessas cavalgadas que ele descobriu um vulto de encanto em certa torre daquela terra ainda em poder dos Mouros, mas que ficava bem ao alcance dos seus olhos e dos seus desejos de conquista.
Gonçalo Hermingues voltou ao mesmo local, mais do que uma vez. E fosse por acaso, fosse de propósito — ela lá estava sempre, como visão maravilhosa que ia enchendo, aos poucos, o pensamento do guerreiro-poeta.
Em breve, ele sabia tudo o que lhe interessava a respeito dela. Chamava-se Fátima, era jovem e bela, mais bela do que jovem, filha única do emir, que a queria casar com o rico e poderoso primo Abu, e vivia recolhida naquela torre, donde raras vezes saía, na companhia das aias.
Mas Gonçalo Hermingues soube também que uma dessas saídas devia estar para breve. Seria na noite da Festa das Luzes, que correspondia precisamente à noite de S. João, em pleno mês de Junho...

Então, Gonçalo Hermingues começou a forjar o seu plano. Um plano filho da imaginação e do destemor.
E com os seus companheiros habituais, tão arrojados como ele, esperou ansiosamente que chegasse a noite de S. João.
Em silêncio saíram para o campo e em silêncio se dispersaram, tomando posições combinadas. Apenas a Lua, grande e redonda como balão festivo, era testemunha da cilada que se preparava. Uma cilada igual a tantas outras que naquele tempo se faziam — mas com uma diferença fundamental: era uma cilada de amor...
Tal como mandava a tradição entre a moirama, alta madrugada formou-se o cortejo que todos os anos ia em procissão de luzes até às margens do rio, como prelúdio da festa que se prolongaria pelo dia fora, às vezes pela noite dentro...
Fátima, a jovem e bela princesa moura, ainda mais bela do que jovem, lá seguia também, fielmente acompanhada pela boa Cadija.
A luz dos archotes, de albornozes ao vento, montando ligeiros corcéis, escolhidos entre os melhores e primorosamente ajaezados — os cavaleiros e as damas da Moirama constituíam um magnífico e raro espectáculo.
Assim saíram pelas portas largas do alcácer e assim se lançaram em luzida cavalgada, a trote largo, acordando ecos no solo adormecido. Ecos que se misturavam com as suas próprias risadas...
Fátima era conduzida por seu pai: mas sentia ao lado o olhar atento, prescrutadoramente atento, de seu primo Abu.
Porém, nesse romper de madrugada, ela não pensava nos problemas do coração. Dava-se inteira ao prazer da liberdade, que tão raramente usufruía. Queria aspirar todo o ar puro, olhar duma só vez tudo quanto os seus olhos podiam alcançar, cantar todas as cantigas que sabia...
De súbito, como se a própria noite inundasse a manhã, transformando abruptamente a claridade em trevas; como se a débil mancha da aurora se ensanguentasse, numa brutalidade de maldição; como se a terra abrisse as entranhas para expulsar demónios — surgiu o mais terrível e odiado de todos os gritos:
— «Por Santiago, aos Mouros!»
E logo, da sombra das árvores quietas, do escuro da folhagem, do mistério do campo, saíram, correndo e gritando, em doido tropel de cavalos, vultos e mais vultos de guerreiros cristãos, que caíram impiedosamente sobre o aparatoso cortejo, aterrando-o e destroçando-o.
Num instante, as canções de prazer transmutaram-se em uivos de combate; a alegria, em pânico; a ordem, em confusão.
Fátima enchia de pavor os lindos olhos negros. Abandonada por seu pai, que correra a tomar o comando da defesa, não vendo mais a fiel Cadija, que desaparecera como por encanto, mal podendo raciocinar ainda sobre o que acontecia — a Princesa sentia-se tremer, de frio e febre simultaneamente.
Foi nesse mesmo momento que os olhos de Gonçalo Hermingues a descobriram. De um salto, estava junto dela. Levantou-a, sem resistência, e colocou-a sobre o seu cavalo. E sorriu de triunfo. Ali estava o prémio da vitória!
Nada mais era necessário. Gonçalo Hermingues ergueu o braço e deu ordem de retirada aos companheiros. Agora o grito de combate tinha o som forte duma bandeira que se ergue entre os despojos:
— Por Santiago e rei Afonso!
Muitas vozes repetiram o grito. Sobre o queixume dos feridos e o silêncio dos mortos. Sobre a agonia dos moribundos e o desespero dos vencidos. Sobre os archotes atirados por terra, apagados para sempre...
Mas algo aconteceu que Gonçalo Hermingues também não esperava.
Já na retirada, levando consigo a sua jovem e bela prisioneira, entre outros prisioneiros que desejava oferecer a el-rei D. Afonso Henriques — para confirmar, uma vez mais, o seu apodo de «Traga-Mouros» — o moço guerreiro português e os seus companheiros foram surpreendidos pelo ataque dos Sarracenos, que se tinham bem reforçado para tirar vingança.
À frente de todos, vinha Abu, o rico e poderoso primo de Fátima. E, no embate das duas forças, Abu começou por levar a melhor, arrebatando a Princesa e desafiando a fúria de Gonçalo Hermingues.
A luta tomou então aspectos de epopeia. Embora defrontando inimigos em número muito superior, os cavaleiros portugueses não abandonaram o campo. E cada um que caía era logo substituído por outro, que se multiplicava em alardes de coragem e de bravura.
Para Gonçalo Hermingues, porém, só um inimigo existia verdadeiramente: aquele que lhe roubara a jovem e bela princesa moura.
Não hesitou. Caiu sobre o outro, com a violência da sua cólera e com a raiva do seu ciúme.
A luta foi curta. Curta e terrível. Terrível e fatal para o rico e poderoso Abu.
Quando Gonçalo Hermingues levantou de novo nos braços a figurinha desmaiada de Fátima — era como se erguesse também o próprio pavilhão da vitória.
E assim o compreenderam os seus valentes companheiros, pondo em fuga, definitivamente, os Sarracenos que restavam em campo...

Diz-se que D. Afonso Henriques felicitou vivamente Gonçalo Hermingues por mais essa brilhante sortida, que tantos e tão bons prisioneiros conseguira. E que lhe perguntou que recompensa desejava ele para a sua magnífica façanha.
Então, Gonçalo Hermingues respondeu apenas:
— A honra de vos ter servido, meu Rei e Senhor, e, como lembrança desta jornada, licença para casar com a princesa Fátima!
E diz-se também que el-rei de Portugal sorriu, benévolo e carinhoso, e ajuntou solenemente:
— Pois seja assim, com a condição de que ela se converta à Santa Fé de Cristo, e consinta ser vossa esposa...

Dali seguiram a preparar os esponsais. E a região onde a princesa Fátima foi viver, durante algum tempo, já esquecida dos seus e enleada por esse novo amor que tão depressa a conquistara — passou a chamar-se, desde então, segundo reza a lenda velhinha, a Terra de Fátima, que mais tarde se transformou apenas em Fátima, nome que conserva ainda e que, por obra divina, é hoje um dos mais belos nomes de todo o Mundo.
Depois, celebrou-se o casamento de Gonçalo Hermingues com a convertida Oureana, nome cristão dado à princesa moura, no acto sagrado do baptismo.
Como prenda de núpcias, El-Rei D. Afonso Henriques ofereceu-lhes a vila de Abdegas, para onde foram viver e que, a partir dessa época, passou a ser denominada, em homenagem à linda princesa convertida — Vila de Oureana.
E a Vila de Oureana, por corruptela de linguagem popular — acabou por se transformar na Vila de Ourém.
Terminamos pois, lembrando os tão belos versos que Gonçalo Hermingues dedicou à memória da sua bem amada, e que tão incompreendidos foram, durante muito tempo, devido à sua linguagem, mas que Afrânio Peixoto soube interpretar modernamente com o próprio sentimento que os inspirou:

Ora vos tinha, ora não,
Mas a outros vos tomava.
Ereis minha, já não éreis,
Que em lutas todos andavam,
Em mil sortes pelejando.
Ai de mim, te vejo eu...
Aguentem-se, companheiros,
Eu por mim tenho o que é meu.
Oriana, ai tem por certo
Que a vida que hei-de viver
Tudo esqueceu por teu bem
E mais ninguém há-de ver!

 

Fonte Biblio MARQUES, Gentil Lendas de Portugal Lisboa, Círculo de Leitores, 1997 [1962] , p.Volume I, pp. 15-20

Place of collection Fátima, OURÉM, SANTARÉM

Narrativa

When XII Century,

CrençaUnsure / Uncommitted

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