Lenda da Promessa do Além

APL 3023

O povo que habitava no lugar que hoje se chama Ceissa estava agitado. Havia lágrimas nos olhos das mulheres. Palavras de revolta na boca dos homens. Não fora uma notícia de guerra que produzira tal clamor. Não! Se o fosse, os homens correriam contentes a combater os infiéis e as mulheres, embora apreensivas, não demonstrariam tal desolação, para darem coragem aos que lutavam pela Verdade.
Foi isto, quando há muitos anos reinava em Portugal el-rei D. Sancho I.
A agitação de Ceissa não era pois devida a ameaça de mouros nem guerras com o estrangeiro. Era algo muito deles, muito local. E toda a agitação girava à volta de uma frase que ia passando de boca em boca:
— Chegou o velho espanhol Sancho Ortiz!
A história, afinal, resumia-se a isto: Ortiz, velho riquíssimo, era espanhol por parte do pai, mas a mãe era portuguesa. Assim, permitia-se passear lá e cá sem que lhe quisessem mal por isso. Um dia, porém, o velho Ortiz viu a bela Maria de Góis, a mulher mais bonita daqueles lugares. Logo a desejou. Mas Maria amava Pedro Mendes. E Pedro Mendes amava Maria. Rejeitou o pedido do velho para que casasse com ele. Mas Ortiz jurou que casaria com ela quando voltasse ao lugar. Saiu para Espanha e voltou, na verdade, cerca de dois meses depois. Daí a efervescência das gentes, solidárias com Maria e Pedro. Somente o pai de Maria não concordava com eles. O velho trazia-lhe a maior fortuna do Reino. Isso entontecia-o. Por isso obrigou Maria a aceitar Ortiz como esposo, pois de contrário a amaldiçoaria.
Pedro correu a encontrar-se uma vez mais com a sua bem-amada. O coração batia-lhe no peito como um cavalo a galope. Ao vê-la, agarrou-lhe as mãos e propôs-lhe:
— Maria, vem comigo! Todo o povo está connosco e hão-de esconder-nos!
Ela chorava em silêncio. Balbuciou:
— Impossível! Já não tenho mãe e não quero a maldição de meu pai!
— Mas casando com esse homem é como se recebesses uma maldição!
— Meu pai diz que ele é velho e pouco durará...
— E tu achas bem casares com ele? Sem ti não poderei viver!
Maria deixou de chorar. Sorriu.
— Pedro! Serias capaz de morrer por mim?
Apaixonadamente, ele respondeu:
— Tu és a minha vida!
Ela então segredou:
— Ouve o que te vou dizer: eu não chegarei a casar com o velho Ortiz!
— Foges comigo? O povo quer raptar-te!
— Não! Diz-lhes que não se apoquentem.
— Então?
Maria suspirou fundo. Depois continuou, sempre em ar de confidência:
— Sabes? Desde que soube da opinião de meu pai a nosso respeito, voltei-me para a alma da minha mãe e implorei-lhe que não consentisse que o nosso amor fosse maculado. Tu e eu pertencemo-nos. Amamo-nos. Nem a morte poderá separar-nos.
Maria calou-se. Impaciente, Pedro perguntou:
— E a que propósito me contas isso?
— Porque esta noite… a minha mãe apareceu-me e falou-me.
Pedro abriu muito os olhos.
— Que dizes, Maria?
— A verdade.
— E que te disse ela?
— Prometeu-me que eu não casaria com Ortiz.
— Então foge e estará a promessa cumprida!
Maria abanou a cabeça.
— Não, ela não quer assim. Se eu fugisse contigo, Ortiz teria poder para desencadear uma guerra. A população deste lugar seria morta e nós, se conseguíssemos sobreviver, viveríamos roídos pelo remorso.
Perplexo, Pedro levou uma das mãos à testa.
— Maria, não te compreendo! Se não fugires, dentro de algumas horas começarão os preparativos para a boda...
Maria continuava sorridente.
— Ouve. Minha mãe, disse-me: não te oponhas à vontade de teu pai e confia em Deus. Ele levá-los-á aos dois para a Sua Glória, onde nao existe guerra, nem coisas mesquinhas tão próprias da terra. Junto d’Ele, viverão uma felicidade eterna. Eu vos prometo!
Pedro piscou os olhos. Parecia não ter entendido bem. Ela acariciou-o.
— Estás disposto a partir comigo para o Céu?
Pedro não respondeu. Ela insistiu:
— Queres acompanhar-me? Eu parto contente!
Respirando fundo, o rapaz perguntou:
— Vais suicidar-te?
Maria revoltou-se.
— Eu? Isso levar-me-ia ao Inferno! Eu quero partir contigo!
— Como?
— Não sei, espera e confia! Minha mãe prometeu!
Julgando que a sua bem-amada começava a desvairar pelo desgosto de um casamento infeliz, Pedro tentou serená-la.
— Maria, vai descansar uma hora. Depois volta aqui. Estarei à tua espera.
Ela sorriu-lhe enigmaticamente.
— Só nos veremos amanhã!
E atirando-lhe um beijo:
— Até ao Céu, meu bom Pedro! Obrigado por quereres partir comigo!
E desprendendo-se das mãos do rapaz, que tentava segurá-la, entrou em casa.
Pedro ficou ali como pregado ao chão. A noite encobria o seu vulto. E quando a manhã chegasse repicariam os sinos anunciando mais uma boda na vila onde Maria nascera e só granjeara amigos...
 
Maria estava quase pronta. Espreitou pela janela e viu na rua grupos de homens e mulheres falando baixinho. Não compreendiam porque não estava com eles Pedro Mendes, para raptarem Maria. Alguém alvitrou que o pobre poderia ter ido procurar a morte em qualquer lugar arredio. Outros, porém, refutaram essa opinião, pois o rapaz sempre fora lutador e não desistiria assim, quando todos estavam com ele.
Por seu turno, a tia de Maria, irmã do pai, olhava desconfiada a sobrinha. Perguntou, curiosa:
— Pareces contente, Maria! Que te aconteceu?
Ajeitando o vestido, ela retorquiu:
— Ainda não aconteceu. Vai acontecer!
— O quê?
Ela não deu resposta. A tia insistiu:
— Porque esperas?
— Que se cumpra o que me foi prometido.
— Que te prometeram?
— Que iria com o meu Pedro!
A tia gritou:
— Estás louca? Ele que não se atreva...
Ela sorriu. Mudou de conversa.
— Veja aqui!... Isto não cai bem. Quero estar bonita quando lá chegar...
A tia zangou-se.
— Maria, não penses em coisas absurdas! Ortiz espera-te na igreja e nós vamos sair porque já é tarde!
Nesse mesmo instante, porém, Maria caiu redonda no chão. As aias que a vestiam gritaram. Houve correrias. A notícia correu célere até à igreja. Movimentou o grupo dos homens e das mulheres que se juntaram numa angústia. Maria caíra morta, um fio de sangue a correr-lhe da garganta. Mas ninguém lhe tocara. Ela própria estava a enfeitar os cabelos quando isso aconteceu!
D. Sancho de Ortiz cerrou os dentes. Para ele, Maria suicidara-se. Nem o testemunho da irmã de D. Góis, nem o depoimento das aias de Maria o convenceram. Partiu mais furioso que contristado. Quanto a Pedro, ao receber a notícia, olhou o Céu numa pergunta formulada no silêncio do seu coração:
— Então... e eu? Porque vai ela sozinha? Não se tinha combinado que partiríamos os dois?
Agarrou a cabeça escaldante. Depois meditou:
— Eu não acreditei! Não acreditei!
Cravou as unhas nas mãos. A dúvida continuava a persegui-lo. Não teria a sua bem-amada abreviado os dias como resultante de uma semi-demência? Aquela entrega passiva à vontade do pai não era natural numa jovem que o amava com todas as forças da sua alma.
Desesperado, Pedro saiu do largo onde homens e mulheres o olhavam à espera de o verem chorar, de lhe observarem uma atitude de desespero.
Correu para o campo. Sentou-se junto de uma árvore, e a noite ali mesmo o encontrou.
De manhã, quando o Sol despontou e entrou pela janela das casas dos habitantes de Ceissa, foi levar-lhe a grande nova: o corpo de Pedro continuava sentado no chão, inclinado sobre um arbusto e junto a uma árvore. Mas a alma de Pedro Mendes, essa fugira em perseguição de Maria. E ambos, lado a lado, esperavam ordem do Senhor para entrarem no Seu Reino de Glória!
 
Esta é a lenda que contam em Ceissa. E ainda há poucos anos mostravam a árvore ao pé da qual fora encontrado o corpo de Pedro, sem uma beliscadura, mas sem vida!

Fonte Biblio MARQUES, Gentil Lendas de Portugal Lisboa, Círculo de Leitores, 1997 [1962] , p.Volume V, pp. 195-198

Place of collection Seiça, OURÉM, SANTARÉM

Narrativa

When XII Century,

CrençaUnsure / Uncommitted

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