Lenda da Senhora das Angústias

APL 2875

Em Padornelo, província do Minho, existe numa pequena igreja uma imagem da Virgem Mãe de Deus, que é muito venerada. Chamam-lhe a Senhora das Angústias e fazem-lhe uma romaria no primeiro domingo de Julho. Claro que também a Senhora das Angústias tem uma lenda que justifica o seu nome. É a que vamos contar.
 
Foi num domingo de Julho de um ano que a história não menciona. Na igreja de Padornelo, a Virgem sorria no altar iluminado. Mãos caridosas haviam colocado flores em jarras bonitas, e um aroma delicioso enchia a Casa do Senhor. A missa estava a chegar ao seu termo. Os fiéis ouviam-na com devoção. No altar, o sacerdote voltou-se para lançar a bênção sobre a assistência. E nesse momento soleníssimo, uma voz doce e magoada encheu o templo. Os fiéis entreolharam-se. A voz vinha do altar. Olharam, então, a Virgem. E com grande espanto verificaram que a sua expressão, outrora sorridente, se transformara numa expressão de dor. E a voz, essa voz celestial, chegou audível a toda a assistência:
— Meus filhos! Escutai-me, vós que sois cristãos! Neste preciso momento, alguns que não crêem no meu amado Filho renovam o sacrifício do meu Jesus, crucificando-o de novo. Tal acto enche de dor o meu coração de mãe!
Os cristãos quedaram-se estarrecidos. Havia lágrimas nos olhos de muitos. O sacerdote, tomando alento, pois também ficara petrificado, perguntou:
— Senhora! Dizei-nos onde se encontram esses pecadores e nós os castigaremos.
De novo a voz doce e triste da Virgem Mãe soou:
— Não é castigando que evitareis o suplício do meu amado Filho! Ide e falai-lhes! Dizei-lhes do meu sofrimento! Estão na última casa à direita da rua principal.
Como electrizados, os fiéis saíram da igreja e dirigiram-se para a casa assinalada pela Mãe de Deus. Chegados lá, ouviram gargalhadas e blasfémias. O padre bateu à porta. Alguém veio abrir. Então os fiéis entraram, quantos podiam, e depararam com um quadro horrível: ao centro da casa estava um corpo de homem, feito de cera e, à semelhança de Cristo, coroado de espinhos, o qual estavam pregando numa cruz. À volta, outros homens riam e proferiam blasfémias. Em cima das mesas, copos sujos de vinho e garrafas vazias.
Uma onda de revolta tomou os fiéis que contemplavam horrorizados tão ignominioso acto. Correram sobre os blasfemos, no intuito de os espancar. Mas o sacerdote gritou:
— Prudência! Lembrai-vos, irmãos, da recomendação da Virgem Maria!
Os homens suspenderam o gesto castigador. Mas já os outros, saindo da surpresa, tentavam ganhar tempo. Um deles, talvez o dono da casa, gritou:
— Fora daqui, ratos de sacristia! Ou querem ajudar-nos na nossa tarefa?
Foi o padre quem respondeu:
— Viemos, porque a Mãe do Senhor a quem estais ofendendo pediu que vos falássemos!
Houve risada trocista. Um deles gracejou:
— E por onde anda em passeio, a mãe deste homem que íamos crucificar?
Sem alteração na voz, o sacerdote respondeu:
— Estava connosco, no altar que é a Casa de Deus, e ouvia as nossas comunicações. Porém, de súbito deixou de sorrir. Viu o que se estava a passar aqui. As lágrimas correram-lhe pelo rosto e, magoada, pediu-nos que impedíssemos mais este desacato!
Já não riram os homens. Olharam o sacerdote como se acabassem de ouvir um louco. Depois repararam na gente que enchia a casa e se espalhava pela rua. O mais velho dos que estavam perguntou para os outros:
— Acreditam no que ele diz?
Alguns disseram:
— Não acreditamos!
O mais idoso tomou:
— Se não acreditam, teremos de convir que um de nós é denunciante. Fizemos isto no máximo segredo. Há um traidor entre nós.
Os homens rebelaram-se. E um deles arriscou:
— Talvez tenhas sido tu, já que pões em dúvida o que esta gente diz!
O velho arriscou:  
— Acho tudo isto muito estranho. E pergunto: entre os que foram convidados para a festa que realizámos, algum conhece, na igreja, a imagem da tal mãe de Jesus?
Dois dos sacrílegos levantaram-se. O velho disse:
— Muito bem. Entre os seis que aqui estávamos, dois e mais eu, portanto três homens, conhecemos a imagem que está no altar. É uma figura de mulher, que sorria. Pois proponho que nos dirijamos à igreja e vejamos se a imagem já não sorri. Se assim for, desde já me declaro culpado e arrependido. Caso contrário, voltaremos aqui, e ninguém poderá impedir-nos de continuar com a nossa diversão. Estão de acordo?
Os homens gritaram, convictos de que a sua razão venceria:
— Estamos!
Tornou o velho, voltando-se para o sacerdote:
— E tu? Se acreditas nos milagres do teu Cristo e crês no que vieste aqui dizer, promete deixar-nos com a tua gente se acaso a imagem continuar no altar a sorrir!
O padre ficou uns segundos calado. Parecia orar no íntimo do seu ser. Depois declarou solenemente.
— Estou de acordo! Vamos todos à igreja!
E aquela gente, minutos antes disposta para a luta, seguiu apressada, coração palpitando, para a igreja de Padornelo.
 
Brilhavam ainda no altar as velas que não haviam sido apagadas depois da missa. A multidão entrou com os olhos postos no altar. E então soou um estranho cântico, misturado com soluços e orações fervorosas. No altar, a Virgem que dantes sorria mostrava a mesma expressão dolorosa. O padre falou:  
— Irmãos transviados do caminho de Deus! Dizei-me: qual é agora a expressão da Virgem Mãe de Jesus?
Contiveram a respiração, para ouvir os sacrílegos, aqueles que tinham ido por ordem da Senhora impedir mais uma crucificação. E foi ainda o homem mais velho quem respondeu:
— Na verdade… a expressão da Senhora… é de angústia!
Romperam logo clamores:
— Nossa Senhora das Angústias!... Rogai por eles… e rogai por nós!
O velho baixou a cabeça. Depois elevou o olhar para a Santa Mãe de Deus e clamou:
— Senhora das Angústias! Perdoa-me e pede ao teu Filho que nos perdoe! Éramos loucos e recuperámos a razão! Não mais te faremos sofrer!
Um coro de soluços subiu na igreja. O sacerdote exclamou apenas:
— Ámen!
E ainda hoje há quem afirme que a Senhora das Angústias, se a olharem bem, não tem sempre a mesma expressão. Em geral, está triste. Mas às vezes, para determinadas pessoas que sabem orar-lhe, ela volta a sorrir, como Mãe amantíssima que é!

Fonte Biblio MARQUES, Gentil Lendas de Portugal Lisboa, Círculo de Leitores, 1997 [1962] , p.Volume IV, pp. 161-164

Place of collection Padornelo, PAREDES DE COURA, VIANA DO CASTELO

Narrativa

When XX Century,

CrençaUnsure / Uncommitted

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