Lenda das Casas de Zimbra

APL 3004

Contam os antigos que, um pouco acima do local onde foi erguido o castelo de Sesimbra, existia no tempo dos Celtiberos uma povoação cujo nome não mencionam e era habitada por um homem poderoso, arrogante e cruel. Sob a sua tutela viviam várias famílias, umas mais pobres do que outras, mas todas sujeitas à sua tirania. Um dos seus privilégios tirânicos era o acto de chamar a si, para que o servissem primeiro, todas as donzelas que iam consorciar-se. Este facto fazia a repulsa de muitos, mas ninguém se atrevia a contrariar as ordens do grande senhor.
Ora, na pequena povoação vivia um rapaz brioso, que não se conformava com a ideia de ver a sua linda e doce Maris entregue por uns dias ao tirano, antes que ele a recebesse por esposa. Eram os Celtiberos impulsivos e violentos, tanto no amar como no odiar. Zimbra, o jovem celtibero, tanto pensou que achou uma solução. Mas antes de a pôr em prática resolveu ir falar com a jovem Maris.

Chegando junto da casa da sua bem-amada, Zimbra chamou-a:
— Maris!
Ela reconheceu a voz que pronunciava o seu nome e acorreu, muito alegre, ao encontro do noivo.
— Zimbra! Não te esperava agora!
Ele parecia apreensivo. Olhava-a profundamente. Ela estranhou.
— Porque me olhas assim?... Aconteceu alguma coisa?
— Não… ainda não... Mas vai acontecer!
— O quê? Nova invasão?
— Não! Não é isso...
— Que há, então, para que estejas tão atormentado?
Ele redarguiu com outra pergunta:
— O teu amor por mim é tão forte como dizes?
— Bem o sabes!
— E apesar disso sujeitas-te a servir os desejos desse louco que nos traz sujeitos à sua vontade, só porque é o senhor destas terras?...
Maris empalideceu. A sua aflição era evidente.
— Zimbra, bem sabes como te amo! Não é por mim que eu temo... mas por ti! Ele ordena, e nós temos de obedecer. Senão, corta-nos as cabeças e manda-as deitar ao mar!
— E porque há-de fazer isso?
— Não sei... Mas é ele quem manda! É o senhor... Faz cumprir a lei!
— E que diz a lei?
— Toda a donzela que pretenda um esposo terá de prestar vassalagem da sua candura ao senhor desta terra. E tem sido sempre assim! Nem sequer foi ele que estabeleceu essa lei: foram os seus antecessores.
Zimbra desembainhou o punhal que tinha preso à cinta. Dos olhos de cor clara irradiava uma luz brilhante que endurecia as suas belas feições. Gritou quase:
— Pois eu não consentirei!
Ela afligiu-se mais.
— Cala-te! Se te ouvem e lhe vão contar... serás morto e eu ficarei sem ti!
— Quem morre combatendo não morre podre!
Ela agarrou-lhe uma das mãos.
— Zimbra, eu não quero perder-te! Se te matam... morrerei contigo!
— Não morreremos por enquanto, Maris!
Foi tão enérgica, tão repassada de confiança esta afirmação, que Maris mostrou-se animada.
— Mas... se não morremos nem me entregas... é porque tens meio de te furtares ao poder do senhor desta terra!
— Tenho!
— Como? Nem sequer poderemos fugir, pois ele mandar-nos-ia perseguir pelos seus homens!
— Não faço tenção de fugir!
— Que pensas então fazer?
Zimbra abaixou o tom de voz.
— A lei diz que todas as donzelas que vivem dentro do povoado devem pertencer primeiro ao seu chefe antes de serem entregues ao esposo, não é assim?
— É.
— Pois tive uma ideia que vai divertir-me. Vem comigo. Subamos mais uns passos e olhemos lá para baixo.
Maris deixou-se guiar. Zimbra passara-lhe a braço pela cintura. No cimo da elevação do terreno, o jovem perguntou:
— Que vêem os teus olhos, lá em baixo? 
Ela surpreendeu-se.
— Que vêem?... Mas... lá em baixo… está o mar... e a praia.
— Exactamente: a praia!
— Que queres dizer?
— A praia não é domínio do senhor que tanto te amedronta!
— Pois não. Mas as nossas casas são aqui!
— Por enquanto! Porém, sem que ele o suspeite, iremos construir as nossas casas lá em baixo, na praia. E então, libertos dessa lei humilhante, poderemos unir os nossos destinos!
A jovem pulou de contente.
— Zimbra, que extraordinária ideia! E, depois de nós, outros construirão ali as suas casas! E uma nova povoação surgirá!
De súbito, a donzela voltou a entristecer.
— Zimbra... alegrei-me antes de tempo!
— Porquê?
— Tudo isso é muito belo, mas não poderemos casar sem a autorização desse homem cruel. E se ele sabe que lhe fugimos...
Zimbra impacientou-se.
— Mas nós vamos pedir-lhe autorização! Como ele de nada sabe, vai dá-la. E só depois, e sem que ele dê por isso, começaremos a construir a nossa futura casa, e a dos meus pais, e a dos teus!
Maris saltou-lhe ao pescoço.
— Como estou contente, Zimbra! És o homem que mais admiro neste mundo!
Ele mostrou-se amuado.
— Mas ias ceder aos caprichos de um velho cruel!
Ela meneou a cabeça.
— Enganas-te! Fazia tenção de o matar nessa noite! Não sei o que me aconteceria depois... mas o tirano morreria às minhas mãos!
— Como?
— Com aquele punhal gaulês que ganhaste na última batalha! Tenho-o escondido!
Zimbra beijou-a apaixonadamente.
— Ainda bem! Gosto de mulheres de ânimo forte! Não há tempo a perder. Vai para casa que eu vou falar ao chefe.
Saltitante, Maris desceu a pequena encosta. E Zimbra afastou-se em direcção à casa do grande senhor.
 
Reinava grande alegria no banquete por ocasião das bodas de Zimbra. Todos bebiam, riam, falavam alto. O senhor daquelas terras levantou um brinde ao jovem casal. Vendo Maris tão bela e tão jovem, a cobiça do homem aguçou-se. E segredou ao noivo:
— Ela será para ti... Mas esta noite... não te esqueças!... — ela é minha!
Zimbra calcou o rancor que essa frase lhe despertava e perguntou:
— Porque julgas que podia esquecer-me?
O homem encolheu os ombros.
— Sei lá! Ela é muito bela, e tu és forte e diferente dos outros...
— Diferente?
— Sim! Tens cabeça... e isso aflige-me! Tens orgulho, e vejo-te sereno! Zimbra compreendeu que não se mostrava conforme a situação o exigia. Tentou remediar.
— Tenho orgulho e sou forte, como dizes. Mas hoje não poderei escapar ao teu domínio, pois só com o teu consentimento poderia casar. Apelar para outro chefe mais forte do que tu... também não poderia, pois a lei está feita e deve ser cumprida, até que alguém consiga desfazê-la. Este domínio pertence-te. Porém... se um dia fosse poderoso...
— Que farias?
— Conseguiria o meio de te isolar.
— Como?
— Comprando os teus domínios!
— E não gozavas a lei a que tinhas direito?
— Não!
— Porquê?
— Porque ela, por si só, pode aniquilar um homem. O ódio é mau conselheiro!
— Ameaças-me?
— Pensa o que quiseres. E agora... espero tornar a ver-te!
O outro riu.
— E eu espero voltar em breve a encontrar-me com a tua mulher!
Zimbra não respondeu. Embora soubesse que as suas novas casas havia dias que estavam situadas noutra região, a maneira como lhe haviam falado de Maris bulia-lhe com os nervos, O tirano achou por bem retirar-se. Sorriu para Maris, numa despedida:
— Até logo, rapariga! Não esperes que a noite chegue totalmente. A minha casa é mais cómoda do que esta...
Quando o senhor da terra se retirou, houve um profundo silêncio. Depois, convidados e noivos prepararam-se para sair. Em segredo, outros do lugar tinham também construído as suas casas fora do alcance do tirano. E homens enviados pelo chefe maior, posto ao corrente do assunto, preparavam-se no novo lugar, junto à praia, para defender esse pequeno povo.
A noite caiu pesada e triste. Na sua casa, o velho tirano esperou em vão que Maris chegasse para cumprir o seu dever de vassalagem. Enfurecido por se julgar ludibriado, enviou dois dos seus homens a casa da jovem Maris e à de Zimbra, com o encargo de trazerem a recém-casada, a bem ou a mal. Mas os homens encontraram as casas vazias. A maior parte da população havia desaparecido. Correram então a dar conta ao seu senhor de tal acontecimento, e este, louco de raiva, ordenou que os buscassem por todo o lado, tomando ele próprio o comando da manobra.

Em baixo, a aurora envolvia as novas casas no seu manto de luz. Sussurrava o mar cantigas intraduzíveis. De súbito, um dos homens deu o alarme:
— Olha para ali, Senhor!
O interpelado aproximou-se.
—  Que vejo!? Lá em baixo... junto à praia... estão casas que não existiam!
— São eles! São os que fugiram daqui!
O tirano praguejou:
— Pois se pensam que fugiram dos meus domínios para se libertarem do meu jugo, enganam-se!
E voltando-se para os seus homens:
— Desçam e destruam tudo aquilo!
Um deles perguntou:
— Trago a rapariga?
— Não! Eu mesmo a irei buscar.
E, tomando a dianteira aos seus homens, desceu a pequena encosta, gritando:
— Zimbra! Zimbra! Não penses que venceste! Vou matar-te!
Zimbra e os outros homens saíram ao encontro dos assaltantes. A luta travou-se rija, violenta. Atingido por uma cutilada, o tirano caiu por terra. Vendo o seu chefe vencido, os outros depuseram as armas. Estava terminada a contenda. Inquieto, o jovem Zimbra procurou a mulher. Ela estava ali perto, pálida, denunciando no semblante a ansiedade que acabara de viver. A vida ia recomeçar. O pesadelo desfizera-se. Zimbra foi ao encontro da esposa, que também correu para ele. Abraçaram-se. Ela falou:
— Meu bem-amado esposo! De hoje em diante não mais veremos lágrimas no rosto das desposadas deste lugar!
Zimbra, olhando o mar que viera encontrar-se com a areia, declarou:
— Este povo que ao mar se entrega dele tirará o seu sustento! Será valente, trabalhador e nobre! Todo aquele que nasce da libertação será livre e feliz!
Maris sorriu. O Sol, surgindo com mais força, derramou luz e calor sobre o par enamorado, como se viesse selar com sinete de oiro a profecia de Zimbra.

Fonte Biblio MARQUES, Gentil Lendas de Portugal Lisboa, Círculo de Leitores, 1997 [1962] , p.Volume V, pp. 49-53

Place of collection Sesimbra (Castelo), SESIMBRA, SETÚBAL

Narrativa

When

CrençaUnsure / Uncommitted

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