Lenda das Margaridas de Nossa Senhora

APL 2887

A serra da Gardunha, que em tempos muito remotos serviu de refúgio aos moradores da Idanha, depois da invasão dos Árabes, tem muitas lendas. A principal é a que lhe deu o nome e que contámos já. Porque nos parece singularmente bela esta outra, regressemos ao ambiente da adusta serra beirã.
 
Numa localidade da serra que a tradição não menciona, existia em tempos que já lá vão uma espécie de aldeia formada por diversas cabanas onde viviam pastores. Saíam de manhã com o gado, andavam pela serra, e voltavam ao sol-pôr para se recolherem. Faziam fogueiras, comiam, conviviam uns com os outros e, antes que a noite descesse, deitavam-se e dormiam, para de madrugada recomeçarem a sua tarefa. Ora, um dia, inesperadamente, um enorme temporal desabou sobre a serra. O vento zunia em uivos de animal feroz. A chuva caía, abundante.
Preocupados, os pastores não fizeram sair o gado. Reuniram-se em redor da fogueira e passaram o dia a conversar. A noite começou a descer. O temporal, em vez de amainar, parecia redobrar de fúria. Mas os pastores não se deitaram. Precisavam de estar atentos, não viesse alguma enxurrada pôr em perigo as suas vidas ou a dos rebanhos. Inventaram jogos. Comeram e beberam, numa quase afronta à cólera dos elementos. As gargalhadas dos homens faziam eco ao assobiar do vento.
De súbito, alguém bateu à porta da cabana. Os pastores silenciam. Quem seria, àquelas horas? Depois, lentamente, o mais velho indagou:
— Quem bate?
Uma voz quase sumida respondeu:
— Perdi-me na serra! Estou tão encharcada!...
Houve um movimento entre os homens. A voz era de mulher. E de mulher muito jovem. Um dos pastores abriu a porta. Uma rapariga de quinze a dezasseis anos surgiu, iluminada pela fraca luz de uma candeia que um dos pastores tentou aproximar-lhe do rosto. Os homens precipitaram-se.
— Entra, entra! Encontrarás aqui mais calor do que pudeste imaginar...
Num momento a jovem sentiu-se transportada para dentro da cabana. Mas o pavor tomou-a de novo. Os pastores atiravam-se a ela, disputando-a.
— É minha! Fui eu que lhe abri a porta!
O dono da cabana gritava:
— Alto! A casa pertence-me! A cachopa será primeiro para mim!
Alucinada, a rapariga teve a sensação de ter caído num covil de lobos. Do seu coração subiu uma prece:
— Valei-me, Mãe do Céu!
Entretanto, um outro pastor pegou num cajado e exclamou:
— Aquele que lhe tocar, morrerá! Eu sou o mais novo, o que de direito ela deve escolher. Portanto, a cachopa pertence-me!
Os cinco homens — pois eram cinco, os pastores — começaram a lutar. Pareciam lobos disputando uma pobre ovelhinha desgarrada.
Aproveitando a confusão, a pastorinha abriu sorrateiramente a porta e saiu para a noite escura e tempestuosa. Apesar de tudo, sentia-se ali mais segura. Correu como pôde, ao acaso. Queria estar longe! Longe dos homens, piores que feras. Soluçava perdidamente, sem cuidar que as próprias forças lhe poderiam faltar. De repente, avistou uma luz prateada, muito estranha. Aproximou-se. A tempestade não chegava ali. O vento não uivava e a chuva era miudinha. A pastorinha parou. Reparou melhor. A luz vinha da entrada de uma gruta. A jovem espreitou. Lá dentro estava outra jovem. Animada, entrou no interior da gruta. Era mais velha do que ela, a pastora que estava de joelhos, orando. Sentindo a recém-chegada, a que rezava voltou-se. Sorriu sem surpresa e falou numa voz cariciosa:
— Como estás molhada! Toma este abafo e chega-te ao lume.
A jovem deixou de chorar. Olhava encantada a que lhe falava com tanto carinho. A outra continuou:
— Deves ter vontade de comer. Tens aqui leite e pão.
A pastorinha aceitou. Comeu, sorrindo, sem saber que dizer. Quando terminou, a outra voltou a falar:
— Chega-te mais para o lume. Precisas de secar a roupa e os cabelos.
A jovem sentia-se agora à vontade. Falou:
— Agradeço-te tudo isto. Mas antes deixa-me agradecer também à Mãe do Céu ter encontrado esta gruta... e ter-te encontrado a ti!
Ajoelhou e orou em silêncio. A outra imitou-a. Depois, os olhares de ambas voltaram a encontrar-se. A que viera fugida procurou saber como estava o tempo lá fora. A companheira elucidou-a:
— A tempestade continua e continuará até que a manhã dissipe as trevas da noite.
Admirou-se a pastora. Que bem falava a sua companheira, embora estivesse vestida como ela! Perguntou com interesse:
— És destes sítios?
Houve um momento de hesitação antes que surgisse a resposta:
— Gosto muito destes sítios... Venho aqui muitas vezes… principalmente quando existe algo para fazer.
— E hoje... tiveste que vir aqui?
— Sim... e encontrei-te perdida na tempestade.
— Eu é que te encontrei dentro desta gruta, que a Virgem Mãe do Céu colocou no meu caminho!
— Acreditas que foi ela quem te ajudou?
— Acredito! Rezo-lhe todos os dias, para que não me desampare. Não tenho mais ninguém... sou órfã. E tu? Tens pais?
— Eu tenho uma grande família.
— E vieste aqui sozinha?
— Vim.
— E não tiveste medo?
— Não. Quem traz o Céu consigo não conhece o medo.
— Trazes contigo o Céu?
— Trago.
— E como se consegue isso?
— Estando sempre em graça.
— E eu... estarei em graça?
— Estás, sim!
— Como o sabes?
— Porque Deus te ajudou. O mesmo não acontecerá aos pastores que te afligiram.
— Os pastores? Como sabes dos pastores?
— Porque vi.
— Viste? Estavas próxima de mim?
— Estava.
— E não me falaste porque também tinhas medo deles?... Olha, eu... se não fosse ter fé no auxílio da Mãe do Céu... teria morrido de susto. Fugiste a tempo? Eu também. E agradeço a Deus ter-te encontrado. Como te chamas?
Maria.
— Eu chamo-me Margarida.
— Bonito nome! É o nome de uma flor que muito aprecio. Sentes-te melhor?
— Nunca me senti tão bem! Hei-de voltar aqui mais vezes!
— Eu também. Mas agora descansa. Precisas dormir.
— Não consigo! Estou tão contente... e nem sei porquê! Perdi as minhas ovelhas...
— Encontrá-las-ás de manhã.
— Como o sabes?
— Verás!
— Vais dormir, Maria?
— Vou.
— Pois eu vou rezar até que seja dia!

Passaram lentas as horas dessa noite em que o Inferno parecia ter contacto com a Terra. Mas quando surgiram os primeiros alvores anunciando a manhã, a chuva deixou de cair e o vento de uivar.
Margarida, sempre de ouvido à escuta, falou para a companheira:
— Maria! Já é manhã e nem chove nem faz vento!
Maria não sorriu. Tinha uma expressão dolorosa no rosto. A pastorinha inquiriu:
— Estás triste agora... porquê?
Maria suspirou e disse:
— A tempestade deixa sempre, por onde passa, um caminho de desespero.
Margarida abriu mais os seus olhos vivos.
— Que dizes?
A outra tocou-lhe num braço.
— Ora espreita!
Ambas saíram da gruta. Olharam na direcção do vale onde estavam as cabanas dos pastores. Um espectáculo horrível oferecia-se a quem o contemplava. Todo o vale estava transformado num lago do qual não surgia réstia de vida!
Margarida levou uma das mãos ao rosto, exclamando:
— Santa Mãe de Deus! O que lhes aconteceu!
Desviou o olhar e pousou-o na companheira. Mas vendo que Maria chorava em silêncio, perguntou-lhe:
— Tens pena deles?
Maria respondeu:
— Tenho! Todos somos filhos de Deus e o Pai fica muito triste quando perde qualquer deles.
Margarida ficou perplexa.
— Olha… repara, Maria!... Estás a ver? As tuas lágrimas, ao caírem na terra, fazem nascer margaridas! Gosto tanto destas florinhas!...
Inclinou-se para as acariciar. Como por encanto, as flores campestres começaram a multiplicar-se, impelidas por uma força oculta. Tinham necessidade de romper a terra para a florir.
Feliz, esquecida já do pesadelo da noite anterior, Margarida exclamou:
— Tantas margaridas! Gosto delas porque são do campo, como eu... e têm o meu nome!
Voltou-se. Maria havia desaparecido. No seu lugar as seis ovelhinhas que estavam à guarda da pastora olhavam-na com mansidão. A jovem correu para a gruta, chamando:
— Maria! Maria! Onde estás?
Um cântico suave chegou aos seus ouvidos. No local onde encontrara a companheira via-se um halo de luz sobrenatural. Margarida sorriu. Dos olhos caíram-lhe lágrimas de ternura. Ajoelhou e murmurou no íntimo do seu coração, mãos cruzadas sobre o peito.
— Ave, Maria, cheia de Graça... O senhor é Contigo! Bendita és Tu entre as mulheres! Bendito é o fruto de Teu ventre, Jesus!...
Ficou assim largo tempo, sem saber mais que dizer. Uma felicidade imensa enchia a sua alma ante a certeza de ter passado essa noite de temporal em companhia da própria Mãe de Deus. Depois saiu, levando consigo as ovelhinhas. Mas, sempre que podia, voltava à gruta rodeada de margaridas, para ali orar à Virgem Mãe do Céu!
E desde então o povo, na sua crença, procura a gruta, sem bem saber qual é, e não gosta de espezinhar as singelas margaridas.

Fonte Biblio MARQUES, Gentil Lendas de Portugal Lisboa, Círculo de Leitores, 1997 [1962] , p.Volume IV, pp. 267-271

Place of collection-, IDANHA-A-NOVA, CASTELO BRANCO

Narrativa

When XX Century,

CrençaUnsure / Uncommitted

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